Lila Anderson
Logo um homem alto, de cabelos grisalhos e um sorriso fácil, apareceu na sala. Aher era muito parecido com ele.
- Meu filho! – disse, abraçando Asher com firmeza. – Já estava na hora de aparecer por aqui.
Em seguida, ele se voltou para mim, o olhar gentil.
- E essa é a famosa Lila? Finalmente a conhecemos.
A palavra “famosa” me fez rir de leve, mesmo sem entender muito bem o motivo. Ele me cumprimentou com um aperto de mão caloroso, e a sensação de estar sendo aceita, pelo menos por eles, me trouxe um alívio inesperado.
Mas o alívio durou pouco.
Do alto da escada, uma voz feminina soou.
- Então é essa a sua namorada, que Soraya disse que é linda?
Olhei instintivamente e vi uma mulher descer os degraus com um sorriso carregado de ironia. Ela era linda, de um jeito que quase doía — cabelos loiros perfeitamente lisos, maquiagem impecável, e uma postura que exalava confiança.
A irmã de Asher. Ele me falou dela, um pouco, disse que ela era mais nova.
Ela caminhou até nós e beijou o irmão no rosto, antes de me encarar dos pés à cabeça.
- Prazer, Lila. – disse, e o tom da sua voz deixou claro que o prazer era inexistente.
Senti o rosto queimar, e antes que eu pudesse responder, Sônia interveio, levemente reprovadora.
- Raffaella, querida, vamos receber bem a visita, sim? Ela é namorada do seu irmão, então a respeite.
- Claro, mãe. – respondeu ela, mas o sorriso não chegou aos olhos.
Asher colocou uma das mãos nas minhas costas, um gesto discreto, me causou um arrepio, porém, ao mesmo tempo, era reconfortante.
Sônia nos guiou para sentar, então começamos a conversar, ela queria saber sobre mim, perguntou sobre meus pais e falei a verdade, que perdi meu pai quando era adolescente e a minha mãe estava muito doente, e enquanto eu falava, Raffaella não parava de me encarar, então Asher disse que entrou em contato com um colega que é médico e já estão vendo a transferência da minha mãe para Chicago, aquilo me pegou de surpresa, olhei para ele, que disse:
- Estava esperando para ver se iria dar certo para te contar. – eu assenti emocionada.
O combinado era apenas ele pagar as despesas médicas, mas ele está fazendo muito mais.
Logo uma moça veio avisar que o almoço já estava servido e seguimos todos para sala de jantar, e a casa parecia respirar elegância em cada detalhe — os quadros, o aroma suave da comida já invadia a sala. Quando nos sentamos à mesa, o nervosismo voltou com força.
Sônia se sentou à cabeceira, Marco à frente, e Asher ao meu lado. Raffaella, claro, de frente para mim. E o olhar dela… bom, parecia atravessar a minha pele. E o assunto continuou na mesa, eu sabia que eles só queriam garantir que o filho estivesse com uma boa pessoa.
- Então, Lila – começou Marco, com um sorriso gentil – conte-nos mais um pouco sobre você.
Tentei sorrir, ajeitando o guardanapo no colo.
- Bom, eu… vim de Boston. E, até pouco tempo, trabalhava como empregada doméstica.
O silêncio que se seguiu fez o ar parecer mais pesado. Mas antes que eu entrasse em pânico, Sônia exclamou com doçura:
- Você então não tem medo de trabalhar! Nada como alguém que valoriza o trabalho honesto.
- Concordo. – completou Marco, erguendo a taça de vinho. – O caráter de uma pessoa está em como ela trata o trabalho, não no título que carrega.
Sorri, grata por aquela gentileza. Mas Raffaella, claro, não deixaria passar em branco.
- Empregada doméstica? – repetiu ela, com o tom fingidamente surpreso. – Uau, Asher, você sempre gostou de histórias improváveis, mas essa é realmente encantadora.
A provocação ficou suspensa no ar. Senti o meu coração apertar, e Asher se virou para a irmã com o maxilar travado.
- Raffaella. – disse em tom firme.
Ela deu de ombros, mexendo o vinho na taça.
- O que foi? Só estou dizendo que é… diferente.
- Diferente não é rüim. – disse Sônia, olhando para a filha com reprovação discreta. – E, se eu não me engano, Asher nunca se importou com o que os outros acham.
O silêncio voltou à mesa por um momento. Tentei respirar fundo e manter o sorriso no rosto, mesmo com o incômodo crescendo no peito.
Para quebrar o clima, Marco mudou de assunto, perguntando sobre Chicago, o trabalho de Asher e até sobre o tempo. Aos poucos, consegui relaxar. Sônia fazia perguntas sobre a minha cidade natal, e logo estávamos conversando sobre receitas e cafés locais. ela disse que me levaria para conhecer Chicago direito.
E, para minha surpresa, Asher me olhava de vez em quando, sorrindo. Um sorriso discreto, mas cheio de orgulho. Como se estivesse… admirando a forma como eu estava lidando com tudo.
Mas Raffaella não se deu por vencida.
- Então, Lila – disse ela de repente, cruzando as pernas. – Você e Asher se conhecem há quanto tempo mesmo?
- Pouco. – respondi com sinceridade. – Mas às vezes o tempo não define o que sentimos.
Ela arqueou as sobrancelhas.
- Que poético. – ironizou. – E rápido, pelo visto.
Antes que eu pudesse responder, Asher se adiantou:
- Quando é verdadeiro, não precisa de tempo. – ele pegou a minha mão e disse. – A pedi em casamento e ela aceitou. – levantou a minha mão para mostrar o anel.
O olhar que ele me lançou depois dessas palavras me desarmou completamente.
O meu coração disparou, e precisei desviar os olhos para o prato, antes que alguém notasse o rubor subindo pelo meu pescoço.
Sônia suspirou, sorrindo, nos dando parabéns, e dizendo:
- Vocês dois são lindos juntos.
Marco concordou.
- E combinam. Isso é raro, fico feliz que tenha superado o passado meu filho, – Asher ficou desconfortável, e desvio o olhar tomando a sua bebida.
Raffaella apenas sorriu de canto, sem dizer nada, mas o olhar dela dizia tudo.
O resto do almoço correu em meio a conversas leves. Aos poucos, fui me sentindo parte daquele ambiente, mesmo com o incômodo sútil vindo da ponta da mesa.
Quando nos despedimos, Sônia me abraçou com o mesmo carinho de antes.
- Espero que volte mais vezes, querida. Foi um prazer imenso conhecê-la. A vamos marcar ainda essa semana para fazermos algo juntas.
Assenti.
- O prazer foi meu. — respondi sinceramente.
Enquanto caminhamos até o carro, Asher manteve a mão nas minhas costas, como se quisesse ter certeza de que eu estava bem. Quando entramos, ele soltou um suspiro pesado e ligou o carro.
- Sinto muito pela minha irmã. – disse, com um tom baixo. – Ela tem o dom de estragar momentos.
Olhei para ele e sorri de leve.
- Está tudo bem. Eu já lidei com piores.
Ele riu, balançando a cabeça.
- Você é mais forte do que imaginei, Lila.
Fiquei em silêncio, encarando o anel no meu dedo. Talvez ele tivesse razão. Mas, naquele momento, eu só conseguia pensar em uma coisa: quanto mais eu tentava manter distância, mais Asher encontrava um jeito de se aproximar.