Lila Anderson
- Meu Deus, Emily! Como você está? Você está segura? – ao mesmo tempo que eu estava aliviada por ouvir a sua voz, a estava preocupada também, poxa ela estava sozinha e grávida, fugindo de um louco.
Então ela respondeu tranquila, a sua voz estava calma, e tinha uma emoção contida nela,
- Estou bem, Lila. Estou segura. E você, como está?
- Estou bem, mas… – eu fiz uma pausa sentindo o alívio tomar conta de mim. – Depois que você fugiu, Ivan voltou de viagem e parecia um demônio. Ele colocou todos os empregados e seguranças contra a parede, queria respostas, mas ninguém sabia de nada.
Eu fiquei com medo, Emily, mas fiz o que precisava ser feito. Agora estou esperando o momento certo para pedir demissão e sair daqui de vez.
Ouvir ela suspirar, parecia se sentir culpada, mas não tinha motivos para isso, então ela voltou a falar.
- Lila… eu preciso da sua ajuda de novo.
Eu fiquei em silêncio por um instante antes de responder, pois ouvir um ruído vindo do lado de fora, e então falei:
- O que você precisar, Emily. Eu faria tudo de novo.
Ouvir ela respirar fundo, e então ela continuo:
- Eu encontrei pessoas dispostas a me ajudar. Eu… eu quero me divorciar. Mas isso será mais fácil se eu tiver alguém disposto a testemunhar sobre tudo o que eu passei naquela casa.
Eu entendi imediatamente o que ela queria. Então a minha voz ganhou uma firmeza que nem mesmo eu sabia que tinha.
- Eu testemunho. Eu conto tudo. O que ele fez com você, o estado em que você ficava depois que ele te machucava… Eu conto tudo, Emily.
Ouvir ela fungar, ela estava chorando, e isso me fez chorar também, Emily não merecia nada do que passou nesta casa, e se tivesse uma chance dela se livrar de Ivan de vez, eu a ajudaria sem pensar duas vezes.
- Obrigada, Lila… obrigada… – a voz dela estava embargada.
- Você não precisa agradecer. Você merece se livrar dele. Só me diga o que eu preciso fazer. – falei.
Então quase imediatamente escutei uma voz grave do outro lado da linha.
- Lila, sou Logan Foster. Eu estou ajudando Emily com o divórcio e com a segurança dela. Podemos garantir que você fique protegida também. Posso mandar alguém buscá-la em Boston e trazê-la para Chicago. Você não precisa se preocupar com nada.
- Oi, tudo bem eu farei tudo para ajudar Emily, só me prometa em deixá-la em segurança. – falei, e torcia para que esse tal de Logan fosse mesmo uma pessoa boa que estivesse disposto a ajudá-la.
- Ótimo. Vou providenciar tudo. Alguém entrará em contato com você em breve. – ele disse, e então desligamos.
Fiquei com o celular na mão por alguns minutos, com a voz de Emily ainda ecoando na minha mente. Ela parecia cansada, mas havia uma centelha de esperança na forma como falava de Logan. E tudo o que eu queria era que aquilo fosse verdade. Que aquele homem realmente estivesse disposto a cuidar dela. Emily já tinha sofrido o suficiente. Agora grávida, ela estava ainda mais vulnerável, mais frágil... e completamente sozinha.
Eu confiava no meu instinto, e ele dizia que era hora de dar o próximo passo. Ajudar Emily não era só uma escolha — era a coisa certa a fazer. Então, mesmo que o medo de Ivan ainda pairasse sobre mim como uma sombra constante, eu estava pronta para enfrentar o que fosse. Três dias depois, recebi a tão esperada ligação. Era de um número desconhecido, mas eu já imaginava quem era.
- Sou Asher. Amigo do Logan. Estou indo para Boston amanhã. Podemos nos encontrar? Pode escolher um local público. Preciso conversar com você sobre como vamos fazer isso.
O meu coração acelerou. Respondi rapidamente, marcando em uma cafeteria discreta no centro. Era uma das minhas favoritas — com janelas grandes, o cheiro constante de café fresco e uma playlist tranquila de jazz que sempre me ajudava a clarear os pensamentos.
Na manhã seguinte, me arrumei com cuidado. Nada demais, claro — calça jeans escura, uma camisa branca simples e uma jaqueta cinza. Mas ainda assim, queria parecer minimamente apresentável. Fui até o centro de metrô, olhando os rostos das pessoas no vagão, imaginando quem seria aquele homem que dizia querer ajudar.
Cheguei na cafeteria com alguns minutos de antecedência. Escolhi uma mesa perto da janela, pedi um café preto e fiquei olhando para a porta a cada som da sineta. O meu olhar vasculhava cada novo rosto, mas nenhum parecia combinar com aquela voz firme e gentil que ouvi pelo telefone.
Enquanto esperava, me peguei pensando em como pediria demissão. Eu sabia que precisava parecer segura, confiante. Não podia levantar suspeitas. Ivan era esperto e c***l, e qualquer deslize poderia custar caro. Foi nesse momento, perdida nesses pensamentos, que ouvi a voz.
- Lila?
Levantei os olhos devagar, e por um segundo, achei que estivesse vendo errado. O homem que se aproximava tinha cabelos castanho-claros com um leve ondulado nas pontas, como se o vento tivesse acabado de passar por eles. Os olhos… eram indescritíveis. Não consegui definir se eram verdes ou azuis. Mudavam de cor conforme a luz da cafeteria os atingia. Era alto, ombros largos, porte atlético. Usava um suéter escuro e jeans, e ainda assim parecia ter saído de uma propaganda de revista.
- Asher? – perguntei, tentando disfarçar o quanto estava surpresa.
Ele sorriu, um meio sorriso com covinhas discretas nas bochechas, e assentiu.
- Eu mesmo.
Fiz menção de me levantar, mas ele ergueu uma das mãos, gentil.
- Pode ficar. Posso sentar?
Assenti, e ele se acomodou à minha frente. Durante alguns segundos ficamos apenas nos olhando. Acho que ele percebeu que eu o avaliava, porque os seus lábios se curvaram em um sorriso de canto, e então ele quebrou o silêncio:
- Imagino que essa situação toda seja um pouco fora da sua zona de conforto.
- Um pouco… é pouco. – murmurei, e dei uma risadinha nervosa.
Ele soltou uma risada leve, e o meu estômago deu um leve salto. Até a risada era bonita.
- Logan me falou muito bem de você. Disse que sem a sua ajuda, Emily não teria conseguido fugir. Ele quer garantir que você fique segura agora também.
- E eu quero garantir que ela continue segura. – respondi firme. – O que ele... Logan... disse que vai fazer? Como pretende ajudar?
Asher inclinou-se levemente para frente, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa.
- Logan está fazendo o possível para manter Emily em sigilo. Mas precisamos do seu depoimento. Ele está reunindo provas e seu testemunho sobre os abusos pode ser decisivo. Eu vim te buscar, Lila. Logan quer te levar para Chicago. Estar perto dela, te manter segura e com a sua ajuda poderemos acabar com tudo isso logo.
A minha respiração ficou presa na garganta. Olhei pela janela, processando tudo.
- Ele nunca machucaria ela, certo?
Asher pareceu surpreso pela pergunta, mas depois assentiu com firmeza.
- Logan é incapaz de machucar alguém. – ele disse com tanta firmeza.
Ficamos em silêncio por um momento, e então ele voltou a falar.
- Então... você vai mesmo fazer isso? – ele perguntou.
Assenti.
- Eu vou. Já suportei demais dentro daquela casa. E mesmo com medo, sei que não posso continuar lá. Ivan pode descobrir, que eu ajudei Emily a fugir… e se for para proteger a Emily, vale a pena.
Ele sorriu, e por um instante, os nossos olhares se cruzaram em silêncio. Era como se ele estivesse vendo além das minhas palavras.
- O primeiro passo então, é você pedir demissão. Não precisa inventar muitos detalhes. Pode dizer que conseguiu um emprego em outro estado, aposto que ele nem vai se importar com isso.
Assenti. Era um bom plano.
- Obrigada, Asher. Por... por isso tudo.
Ele balançou a cabeça devagar.
- Não precisa me agradecer. Você está fazendo algo corajoso. É você quem está arriscando tudo.
Conversamos por mais alguns minutos sobre os detalhes da viagem e sobre como manter tudo discreto. Quando terminamos o café, ele se levantou e estendeu a mão para mim. Quando a minha mão tocou a dele, um choque percorreu o meu braço. Arregalei os olhos e, reflexivamente, puxei a mão de volta.
Ele me olhou como se tivesse sentido o mesmo. E por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
- Até logo, Asher. – murmurei, mordendo o canto da boca e me levantando.
- Até logo, Lila. – respondeu ele, com um olhar indecifrável.
Saí dali sentindo algo que não conseguia explicar. Algo novo. Como se aquela simples troca de olhares e aquele toque tivessem mudado alguma coisa dentro de mim. Emily precisava de mim, e eu estava pronta. Mas uma parte de mim já começava a se perguntar o que mais poderia acontecer, até então, era só por justiça.