Capítulo 21

972 Words
Lila Anderson Eu ainda estava processando o que acabou de acontecer. A porta m*l tinha se fechado e eu sentia o sangue pulsar nas têmporas. Não consegui acreditar no que vi — Asher praticamente ameaçando o entregador como se... como se ele tivesse algum direito sobre mim. Coloquei as sacolas sobre a mesa, tentando controlar o tremor nas mãos. Ele ficou ali, parado, me observando como se esperasse uma explicação, e aquilo só piorava a minha irritação. - Lila… – ele começou, num tom mais baixo agora. Levantei o olhar para ele e falei o que estava entalado. - Por que fez aquilo, Asher? O rapaz só estava trabalhando. Ele franziu o cenho. - Trabalhando? Ele estava te olhando como se fosse um pedaço de carne! Revirei os olhos. - Ele só me olhou, não tinha nenhuma segunda intenção ali, Asher. – rebati, cruzando os braços. — E, por favor, não seja ridículo. - Ridículo? – ele retrucou, com a voz mais firme. – Você atendeu a porta vestida assim, o que esperava que ele fizesse? Foi aí que perdi a paciência. Olhei para baixo, para o meu corpo, depois voltei os olhos para ele. - Vestida assim? Por acaso estou indecente? – perguntei, erguendo o queixo. – É um short, Asher. Um short normal. Por um instante, ele pareceu perceber o quão idiotä estava sendo. O olhar dele mudou — ficou mais brando, quase arrependido. - A sua roupa não tem nada a ver com isso. – disse, num tom mais calmo. — O problema é que aquele entregador estava te olhando como se fosse um pedaço de carne. E isso eu não vou tolerar. Aquilo me pegou de surpresa. O jeito que ele falou… não foi só raiva. Tinha algo mais ali — algo que eu não sabia nomear, mas que me fez sentir um nó na garganta. Afastando-me um pouco, comecei a tirar as coisas da sacola. - Tanto faz, Asher. – murmurei. – Da próxima vez eu deixo você receber o pedido. Assim ninguém vai correr risco de ser ameaçado. Ele soltou um suspiro pesado e se calou. O silêncio tomou conta do ambiente. Senti o coração acelerado, e, para disfarçar, comecei a montar os pratos. Asher pegou os talheres e os colocou na mesa, ainda quieto. Parece que quando ele percebe que me irritou, prefere não insistir — e talvez isso seja o melhor que ele faz. Comemos quase em silêncio. De vez em quando, eu sentia o olhar dele em mim, e cada vez que isso acontecia, um arrepio subia pela minha espinha. Era desconfortável. E, ao mesmo tempo, eu odiava admitir — mas uma parte de mim não conseguia ignorar o fato de que o ciúme dele, por mais irracional que fosse, me fez sentir... notada. Ridículo, eu sei. Ele não tem nenhum motivo para sentir ciúme, e eu muito menos para gostar disso. Somos apenas duas pessoas presas num acordo temporário. Nada mais! Ainda assim, o modo como ele reagiu mexeu comigo. Por um segundo, imaginei o entregador me olhando daquele jeito e, ao lembrar do tom de voz de Asher, algo em mim se contorceu — como se aquele instinto protetor dele tivesse despertado algo que eu não estava pronta para encarar. Quando terminamos, comecei a juntar as coisas, mas ele me deteve. - Deixa que eu limpo. Você já fez o suficiente hoje. Assenti, sem discutir. Ele recolheu os pratos, e eu aproveitei para me afastar um pouco e ir para o quarto. A cozinha parecia pequena demais com ele ali. Fechei a porta, encostando as costas nela por um instante, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Asher sempre fora calmo, contido — quase frio. Mas, naquele instante, ele tinha explodido de uma forma que me deixou sem ar. Não vou mentir: uma parte de mim se sentiu bem, notada. Havia algo estranhamente reconfortante no fato de alguém se importar o suficiente para perder o controle daquele jeito. Mas a outra parte... bem, essa estava completamente confusa. Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento t**o. - Não tem nada a ver, Lila – murmurei para mim mesma. – Ele só agiu assim por causa do acordo. E podia ser mesmo. Ele só estava protegendo a história que criamos. Nada além disso. Ouvi batidas leves na porta, e o meu coração disparou. Respirei fundo antes de abrir. Asher estava parado ali, me observando em silêncio. Aquele olhar… Deus, aquele olhar. Era intenso demais. Sempre me deixava desconfortável, talvez porque eu nunca soubesse o que fazer com o que via nos olhos dele. Às vezes parecia raiva. Outras, curiosidade. E, nas raras vezes como essa, eu jurava ver algo mais. Soltei um pigarro, tentando quebrar o clima estranho. - Está tudo bem? – perguntei. Ele pareceu despertar do próprio transe e coçou a cabeça, um pouco sem graça. - Sim, está tudo bem. – respondeu, finalmente. – Podemos conversar um minuto? Assenti e dei passagem para ele entrar. Deixei a porta aberta, talvez como um lembrete silencioso de que eu precisava manter alguma distância. Apontei uma poltrona perto da janela, e ele se sentou. Eu permaneci na cama, esperando que ele dissesse o motivo daquela visita inesperada. Por um instante, ele pareceu hesitar. Depois, levou a mão ao bolso da bermuda e tirou uma pequena caixinha azul. O meu coração quase saiu pela boca. - Amanhã vamos almoçar na casa dos meus pais – começou, a voz calma e firme. – E... minha mãe é um tanto observadora. Ele deu um meio sorriso, como se a palavra “observadora” fosse uma forma gentil de dizer “detalhista até demais”. - Quando dissermos que estamos noivos, a primeira coisa que ela vai reparar é no anel em seu dedo. Olhei para a caixinha e, por um segundo, fiquei sem reação.
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