Capítulo 7

1223 Words
Lila Anderson O silêncio era tão denso que parecia preencher cada canto do saguão do hotel enquanto eu esperava Asher terminar de falar com a recepcionista. O ambiente era sofisticado demais, com lustres de cristal, mármore no chão e funcionários que pareciam ter saído de uma revista de moda. Eu me sentia deslocada ali, como se todos os olhares soubessem que eu não pertencia àquele lugar. Ele dizia que o hotel era discreto. Bom, se aquilo era ser discreto, então eu não tinha noção do que era luxo. Talvez fosse só eu, não acostumada a ambientes tão refinados, que enxergava aquele exagero. Mesmo assim, não conseguia parar de pensar em como estar ali, ao lado dele, chamava atenção de qualquer um. Os meus pensamentos estavam uma bagunça. Onde Emily teria conhecido esse tal de Logan? Será que ela realmente podia confiar nele? Emily já havia sofrido tanto, e agora, grávida, merecia um pouco de paz. A ideia de Ivan encontrá-la me causava um arrepio tão forte que precisei esfregar os braços para afastar a sensação. Não, aquilo não podia acontecer. E então, havia Asher. Por que ele ajudava tanto? Quais eram seus motivos? Eu o observava de lado enquanto ele terminava a conversa com a recepcionista, e a resposta que vinha à minha mente não fazia sentido: ele era bonito demais. Não era o tipo de beleza que eu estava acostumada a ver no meu dia a dia, de homens comuns com olheiras, roupas simples e semblante cansado. Não, Asher tinha algo diferente. Uma imponência silenciosa, como se soubesse exatamente o efeito que causava. Será que tinha namorada? Ou talvez fosse casado? Não parecia. Alguém casado não teria falado que era meu namorado para Ivan, claro que olhei o dedo dele a procura de uma aliança, e nada. Mas solteiro também não devia ser. Homens como ele nunca estão sozinhos. Balanço a cabeça, tentando dissipar esses pensamentos ridículos. Eu nunca namorei. Nunca tive tempo para isso. Desde que meu pai morreu, o meu mundo virou responsabilidade e trabalho. Enquanto as meninas da minha idade passavam as tardes no shopping com as amigas, eu estava ajudando a minha mãe a pagar contas e cuidando da casa. E o pior… nunca nem fui beijada. Eu, uma mulher de vinte anos, nunca tinha sentido a boca de um garoto na minha. Soava tão patético que o meu rosto ardeu só de pensar. Antes que a minha mente continuasse vagando por esse caminho humilhante, Asher voltou. - Está tudo certo. – a sua voz grave me arrancou dos meus devaneios. Engasguei num pigarro, como se fosse pega no flagra de pensamentos proibidos. - T-tudo bem. – respondi rápido demais, sentindo as minhas bochechas queimarem. – Espero que esse quarto tenha pelo menos duas camas, já que vamos dividir. – falei a primeira coisa que veio na minha cabeça, para tentar disfarçar o desconforto que estava sentindo. Ele arqueou uma sobrancelha e deixou escapar um meio sorriso que só aumentou a minha vergonha. - Não se preocupe, Lila. Ele disse aquilo com tanta naturalidade que, por um segundo, me perguntei se ele adivinhava o que se passava na minha cabeça. Engoli em seco e apenas assenti, deixando que ele guiasse o caminho até o elevador. O silêncio entre nós parecia ganhar peso a cada andar que subíamos. Aquele tipo de silêncio que não é confortável, mas que também não pode ser facilmente quebrado. Eu apertava a barra da minha blusa com os dedos, como se isso me ajudasse a não pensar besteiras. Quando as portas do elevador se fecharam, criei coragem para perguntar: - E depois, Asher? O que vamos fazer? Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos de um jeito distraído que deixou alguns fios caírem sobre a testa. - Vamos passar por três cidades de carro. De lá, pegamos um avião para Chicago. Ivan não vai conseguir chegar até Emily. A segurança com que ele disse aquilo me deu algum alívio, e eu apenas assenti. Chegamos ao nosso andar, e quando a porta do quarto se abriu, eu prendi a respiração. O quarto era enorme. Parecia um pequeno apartamento: sala de estar com sofá macio, carpete felpudo, cortinas pesadas em tom de vinho e uma varanda com vista da cidade. Mas o que mais me chamou atenção foram as duas portas ao fundo. Dois quartos. Eu quase suspirei em alívio. A tensão que me acompanhava desde a recepção finalmente se dissolveu um pouco. - Pode escolher em qual ficar. – Asher deixou a minha mala perto da porta. – Vou pedir algo para comer. Está com fome? - Não, obrigada. Só quero um banho e dormir. Ele apenas assentiu, sem insistir, e se afastou. Escolhi o primeiro quarto que vi. Era acolhedor demais para ser real: cama king size, roupas de cama brancas e macias, um armário embutido e um banheiro tão impecável que eu poderia viver ali dentro. Agradeci baixinho, peguei a minha mala e a arrastei para dentro. Enquanto ligava o meu celular, vi três ligações perdidas da minha tia. O meu coração disparou. Será que aconteceu alguma coisa com a mamãe? Mas se fosse grave mesmo, haveria mais ligações, mensagens, insistência. Respirei fundo, tentando me convencer disso. Coloquei o celular para carregar, peguei uma roupa simples — short de algodão e uma camiseta larga — e fui para o banho. A água quente desceu pelos meus ombros, levando junto um pouco do peso que eu carregava. Quando saí, os cabelos úmidos caindo pelas costas, me deitei na cama. O cansaço venceu em minutos, e o mundo apagou. {...} Acordei cedo, antes mesmo do sol. O relógio marcava 6h20. Eu nunca conseguia dormir mais do que isso, não importava o quanto tentasse. Levantei-me, espreguicei e fui direto para outro banho, dessa vez rápido, só para despertar. Escovei os dentes, vesti uma calça jeans surrada e uma camiseta preta básica. Deixei os cabelos secarem naturalmente, ainda um pouco úmidos. Estava pronta para sair quando o celular tocou. - Lila? – era minha tia. – Os exames da sua mãe… precisamos de mais dinheiro. O meu peito apertou tanto que parecia que não havia ar suficiente. - Eu vou dar um jeito, tia. Vou mandar o dinheiro assim que puder. Eu tinha algum dinheiro guardado. Mandaria para ela hoje mesmo, mas sabia que, em algum momento, essa reserva acabaria. Precisava urgentemente de um emprego. Talvez Logan soubesse de alguma casa precisando de alguém. Talvez até Asher. Conversamos um pouco. Perguntei sobre a minha mãe, e ela disse que estava bem, mas precisava desses exames com urgência. Confirmei mais uma vez que enviaria o dinheiro ainda hoje. Assim que desliguei, fiquei ali parada, encarando o celular como se ele pudesse me dar uma solução. Fiz a transferência, suspirando fundo. Um nó se formava na minha garganta. Eu precisava arrumar um jeito de me sustentar, mas como? Antes que pudesse mergulhar de novo nessa avalanche de pensamentos, ouvi batidas na porta. Abri, e encontrei Asher parado ali. A expressão no seu rosto não era a de sempre. Estava sério demais, a mandíbula travada, o olhar firme. - Precisamos conversar. O meu coração errou uma batida. Ele entrou sem esperar resposta, e eu apenas assenti, engolindo em seco. Alguma coisa estava prestes a mudar. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para o que saiu da boca dele em seguida.
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