Capítulo 17

1185 Words
Asher Bianchi Quando levei Lila para comprar roupas e depois para o salão da Soraya, eu não fazia ideia de que a mudança seria tão grande. Eu já a achava linda antes — mesmo de calça jeans surrada e camiseta simples. Mas quando Soraya terminou de mexer nos cabelos dela e realçou aqueles traços suaves com uma maquiagem leve… porrä, me faltaram palavras. Lila estava deslumbrante. E a reação dela, tão tímida, tão insegura, só fez aumentar a intensidade do que eu senti. Soraya disse que eu era um homem de sorte e eu tive que pigarrear para não deixar escapar a verdade: que talvez eu realmente tivesse sorte. Na pizzaria, outra surpresa. Nunca imaginei que ela jamais tivesse provado vinho. Lila está sempre tão no controle, tão focada em responsabilidades, que eu não havia parado para pensar em quantas coisas simples ela nunca viveu. Mais uma vez, fui eu que a conduzi a uma “primeira vez”. Primeiro, o beijo. Agora, o vinho. E, de algum modo, isso alimentou o meu ego de uma forma absurda. Eu sabia que não deveria pensar dessa forma, mas não consegui evitar. Ontem, quando a vi solta pelo efeito do vinho, rindo de qualquer besteira, percebi um lado dela que ninguém deve ter visto antes. Um lado leve, despreocupado, inocente e, ao mesmo tempo, encantador. Eu gostei daquilo mais do que deveria. Muito mais. Agora, ela está sentada à minha frente, tomando café com a testa ainda franzida pela dor de cabeça da ressaca, e tudo o que me vem à mente é um pensamento que não quero admitir: a vontade de continuar proporcionando a Lila mais primeiras vezes. Não que eu devesse. Não que fosse certo. Mas a ideia me consome. - Eu queria ver a Emily. – a voz dela me tira dos meus devaneios. – Falamos muito rápido aquele dia e… queria ter certeza de que ela está bem. Essa preocupação dela com os outros me desmonta. Enquanto a maioria das pessoas nesse mundo só pensa em si mesma, Lila se desgasta se preocupando com o próximo. E, droga, isso só faz eu admirá-la ainda mais. Assinto de imediato. - Vou ligar para o Logan e avisar que estamos indo lá. Ela sorri, agradecida, e termina o café. Eu a observo em silêncio, tentando disfarçar os pensamentos que insistem em me rondar. - A dor de cabeça melhorou? – pergunto, erguendo o olhar da caneca que acabei de esvaziar. - Um pouco. – ela assente, ajeitando a mecha loira recém-clareada que caía sobre o rosto. – Obrigada pelo remédio. Respondo apenas com um aceno de cabeça e me levanto para começar a recolher a mesa. Não tenho empregada fixa, só a Dafne que aparece duas vezes na semana para limpar o apartamento. No resto do tempo, sou eu mesmo que dou conta do básico. Começo a juntar os pratos quando ouço a voz dela: - Pode deixar, eu faço isso. - Já estou acostumado. – digo, erguendo os ombros. Ela arqueia a sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios. - Eu também estou. Você preparou o café, deixa que eu limpo. Ela me lança aquele olhar insistente, e então acontece. Ela lambe os lábios distraidamente, provavelmente sem nem perceber. Mas eu percebo. Os meus olhos vão direto para a boca dela e, por um segundo, sou tomado pela lembrança do beijo que já dividimos. O gosto suave, a doçura inesperada… um beijo inexperiente, mas, ao mesmo tempo tão bom que me marcou. Os meus dedos chegam a coçar com a vontade de puxá-la e repetir aquilo. Mas não. Péssima ideia. Eu não posso. Ainda bem que o celular começa a vibrar no meu bolso, me trazendo de volta ao mundo real. Solto um pigarro forçado e tiro o aparelho para ver quem chama. - Vou atender, já volto para te ajudar. - Não precisa. – ela responde com aquele tom prático que é só dela. - Não tem problema. – forço um meio sorriso antes de sair da cozinha. Olho o visor. Minha mãe. Claro. Respiro fundo e atendo. - Oi, mãe. - Tudo bem, querido? – a voz dela vem doce, carregada daquela intromissão disfarçada de carinho que só as mães conseguem. - Tudo. E aí, o que houve? - Eu que pergunto. Quando ia nos contar sobre a sua namorada? Fecho os olhos por um instante. Soraya. Só pode ter sido. - Foi a Soraya, não foi? – passo a mão pelos cabelos, já prevendo a encrenca. Ela solta uma risadinha satisfeita. - Liguei para marcar de ir lá hoje e imagina a minha surpresa quando ela me disse que sua namorada é linda e simpática. Sinto um nervosismo leve, nada de novo vindo de dona Sônia. Tento responder de forma controlada: - Vou levá-la para vocês conhecerem, mãe. - Ótimo! – ela diz sem hesitar. – Amanhã, no almoço. Quero muito conhecê-la, não aceito desculpas. Me encosto na parede, exalando devagar. Não tenho saída. - Tá bem. Amanhã, então. - Estarei esperando vocês. – ela conclui antes de se despedir. Quando desligo, sorrio sozinho. Pelo jeito, não vou conseguir escapar de dona Sônia. Volto para a cozinha e encontro Lila na pia, terminando de lavar a louça. Aproximo-me devagar, encosto ao lado dela e começo a secar os pratos com o pano. - Amanhã vamos almoçar com meus pais. – solto, tentando parecer natural. O efeito é imediato. Ela quase deixa o copo escorregar da mão, se virando para me encarar com os olhos arregalados. - Seus pais? – a voz dela é um misto de horror e descrença. Assinto. - É. Com meus pais. Ela desliga a torneira e se apoia na pia, nervosa. - Asher, eu não estou pronta. E se eles desconfiarem de alguma coisa? Vou ficar conhecida na sua família como a maior mentirosa da história. Vejo o pânico refletido nos olhos dela e tento tranquilizá-la: - Eles são tranquilos, Lila. Relaxa. Vai dar tudo certo. - Mas amanhã? – ela insiste, quase suplicando. – Não podia ser… sei lá, daqui a um mês? Dou um meio sorriso e balanço a cabeça. - Confia em mim. Vai dar certo. Enquanto seco o último prato, o meu olhar cai para a mão dela. O dedo anelar. Está faltando algo. - Mas tem uma coisa… – comento, em voz baixa. - O quê? – ela estreita os olhos, desconfiada. - Mais tarde conversamos. – desconverso, guardando o prato no armário. - Asher… mas tem o quê? – ela insiste. - Fica tranquila, Lila. – digo apenas, mantendo o mistério. Ela solta um suspiro impaciente e sobe as escadas, provavelmente para se trocar e se preparar para visitar Emily. Eu fico ali, sozinho na cozinha, segurando o pano de prato, com a mente já ocupada. Não dá para aparecer amanhã na casa dos meus pais com Lila e dizer que é minha noiva sem um anel no dedo dela. Minha mãe iria questionar. Ela sempre questiona. Sorrio sozinho, imaginando a cara nervosa de Lila quando eu colocar aquele anel. Já estou até vendo. É… eu preciso providenciar isso hoje mesmo.
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