Capítulo 14

1234 Words
Asher Bianchi Eu sabia que Lila não estava à vontade aqui. Não precisava ser um gênio para perceber isso. Ela era transparente demais, como um livro aberto que se recusava a esconder as suas páginas. A cada olhar desconfiado, a cada gesto contido, ela deixava claro que aquele apartamento — e, por consequência, a minha vida — não era o lugar dela. Ontem à noite foi a prova. Eu fui até o quarto chamá-la para jantar, mas ela recusou. Disse que estava cansada e que iria dormir. Eu não insisti, mas vi nos seus olhos que aquilo não tinha nada a ver com cansaço. Ela não se sentia parte daquele espaço. Talvez nem quisesse. Hoje cedo, quando a encontrei na cozinha, não foi diferente. Ela parecia perdida, como se tivesse medo de encostar em algo e quebrar. Como se cada detalhe luxuoso gritasse que ela não pertencia ali. E isso me incomodava. Eu precisava deixá-la mais confortável, fazê-la entender que, mesmo sendo uma farsa, nós íamos viver juntos por alguns meses. E conviver em constante desconforto seria insuportável para ambos. Tomamos café juntos. O silêncio entre nós foi quebrado quando ela, com uma franqueza desarmante, perguntou por que eu a escolhi, mesmo com tantas outras mulheres à minha disposição. Eu fui honesto. Disse a verdade nua e crua: escolhi porque ela não se apaixonaria por mim, e eu não me apaixonaria por ela. Eu não estava aberto para relacionamentos. Não me leve a m*l, Lila é linda, mas isso não muda nada. E nem aquele beijo, foi bom? Mais do que eu esperava, porém, não muda o fato de que não quero um relacionamento. No instante em que as palavras deixaram a minha boca, vi o desconforto dela. Aquela forma de desviar os olhos, como se tivesse levado uma pancada invisível. Mas eu não corrigi. Era melhor assim: deixar claro desde o início, sem espaço para interpretações erradas. No fim do café, mencionei que sairíamos para fazer compras. Lila tinha apenas uma mala pequena. Roupas básicas, sem opções. Eu sabia que, em algum momento, estaríamos diante da minha família — e principalmente diante de Ivone, minha ex, que adorava medir as pessoas pela aparência. E eu não queria que Lila se sentisse ainda mais deslocada. Não foi por m*l. Não era para humilhar. Era para protegê-la. O caminho até o shopping foi em silêncio. Ela não reclamou, mas senti a sua resistência. Quando chegamos, fomos direto a uma das lojas favoritas da minha mãe, um espaço amplo e elegante, repleto de araras impecáveis e vitrines que exibiam vestidos que pareciam peças de arte. - Fica à vontade para escolher o que quiser. – falei, tentando soar natural. Ela me olhou como se eu tivesse acabado de pedir para que decifrasse um código secreto. - Eu… eu não faço a mínima ideia do que escolher. Antes que eu pudesse responder, uma vendedora se aproximou com um sorriso profissional. - Posso ajudar? - Pode sim – falei, voltando-me para ela. – Ajude a minha namorada a escolher o que quiser. A palavra namorada ainda soava estranha nos meus lábios, mas fazia parte do teatro. A vendedora sorriu e se voltou para Lila. - Claro, senhorita. Se me acompanhar, podemos ver alguns estilos que combinam com você. Lila lançou um olhar para mim, insegura, mas seguiu a mulher. Eu me sentei em uma poltrona confortável próxima aos provadores. Outra funcionária se aproximou oferecendo algo, e pedi apenas um café. Enquanto aguardava, vi Lila caminhando entre as araras, respondendo de forma tímida às perguntas da vendedora. Logo começaram a separar algumas roupas, e ela desapareceu no provador. E então aconteceu. Quando saiu com a primeira peça, quase engasguei com o café. Era um vestido simples, em tons claros, mas parecia ter sido feito sob medida para ela. O tecido caía em curvas suaves, realçando a sua silhueta de forma sutil, sem exageros. O decote discreto mostrava um pouco da clavícula, e eu precisei desviar os olhos por um segundo, como se tivesse sido pego fazendo algo errado. Droga. Na sequência, ela apareceu com uma saia lápis preta e uma blusa de seda azul. As suas pernas — mais longas do que aparentava — ficaram expostas de maneira elegante. E foi aí que percebi: Lila tinha uma beleza escondida, discreta, quase apagada pelas roupas simples que usava. Mas quando realçada pelas peças certas, era impossível não notar. Enquanto ela desfilava, ainda hesitante, mordendo o lábio e olhando para a vendedora em busca de aprovação, eu lutava contra o impulso de dizer em voz alta o que realmente pensava: que ela estava incrível, que cada detalhe realçava algo que até então tinha passado despercebido. Mas me calei. Eu não podia me permitir ir por esse caminho. Depois de alguns conjuntos escolhidos, seguimos para a seção de sapatos. Lila parecia intimidada diante da variedade, mas deixei que a vendedora conduzisse. Apenas observei de longe enquanto ela experimentava pares diferentes — sandálias, scarpins, botas. Cada troca parecia arrancar dela uma nova faceta. Em seguida, fomos para bolsas, perfumes, maquiagens, cremes. Ela relutou no início, mas a vendedora era habilidosa demais para deixá-la escapar. Depois de algumas horas, finalmente Lila se sentou ao meu lado, visivelmente cansada, enquanto a funcionária embalava tudo. - Se divertiu? – perguntei, cruzando os braços. Ela soltou um meio sorriso, que quase me fez rir junto. - Não sabia que fazer compras era tão cansativo. - É – concordei. – E olha que você nem viu metade da loja. Ela riu baixo e balançou a cabeça. - Mas e você? Como consegue ter tanta paciência para ficar sentado aqui por horas? - Sempre acompanhei a minha mãe e a minha irmã – respondi com naturalidade. – Com o tempo, a gente aprende a ter paciência. Ela me olhou com um brilho curioso nos olhos, como se estivesse tentando descobrir quem eu era de verdade. Pouco depois, a vendedora retornou. Paguei a conta, dei o endereço e ela garantiu que as compras seriam entregues ainda hoje. Ao sairmos, informei: - Ainda temos mais um lugar para ir. Lila apenas assentiu, exausta demais para discutir. Quando paramos diante de um salão de beleza, ela se virou para mim, surpresa. - Um salão? - Achei que você fosse gostar de fazer as unhas, o cabelo… sei lá, mais o que vocês, mulheres, costumam fazer. Ela franziu a testa. - Asher, não precisa. Você já gastou muito comigo. Sério. O incômodo era nítido, mas eu tentei tranquilizá-la. - Você vai gostar, Lila. Confia em mim. Eu volto depois, vou até a praça de alimentação. Quer alguma coisa? - Não, obrigada. Acompanhei-a até a recepção do salão e a apresentei a Soraya, uma amiga de longa data da minha mãe. - Soraya, essa é Lila, minha namorada. Soraya sorriu largo e abraçou Lila como se a conhecesse desde sempre. Isso pareceu desconcertar Lila, porém, ao mesmo tempo, suavizou a sua expressão. Deixei as duas conversando e me afastei. Enquanto caminhava em direção à praça de alimentação, uma sensação estranha me atingiu. Eu só queria que ela se sentisse bem, que não passasse vergonha diante da minha família. Mas a verdade é que, cada vez que a via transformada pelas roupas, pelos detalhes, eu começava a perceber algo que não esperava. Lila não precisava de nada daquilo para ser bonita. Ela já era. E talvez eu fosse o único que não queria admitir isso.
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