Capítulo 18

1251 Words
Lila Anderson Quando subi para o quarto, decidi tomar um banho. Precisava disso mais do que qualquer coisa. A água quente deslizando sobre a minha cabeça parecia aliviar o peso que ainda sentia — um misto de ressaca, vergonha e ansiedade. A dor de cabeça tinha melhorado um pouco, mas ainda latejava, insistente, como um lembrete de que eu não devia ter tomado tanto vinho na noite anterior. A verdade é que eu não fazia ideia de quanto havia bebido. Só lembrava de rir demais, de falar demais, e de ver o olhar de Asher — aquele olhar intenso, como se me observasse e tentasse entender algo que nem eu sabia explicar. Senti o rosto queimar só de lembrar. Que vergonha. Prometi a mim mesma que não beberia mais nenhuma gota de álcool nunca mais. Fechei os olhos e deixei a água escorrer livremente, tentando me concentrar no barulho do chuveiro em vez da lembrança do sorriso dele. No fundo, eu sabia que não tinha motivos para me sentir envergonhada — afinal, não fiz nada demais. Só… me soltei. E isso, para alguém como eu, já era o suficiente para parecer um escândalo. Enquanto lavava o cabelo, pensei em tudo o que ainda estava por vir. Eu queria ver Emily, precisava vê-la. Mas o que não saía da minha cabeça era o que Asher quis dizer mais cedo, quando falou que “faltava uma coisa”. O tom dele, a expressão no rosto… tinha alguma coisa ali. O que será que ele está aprontando? Suspirei. Bom, não adiantava adivinhar. Ia ter que esperar pra descobrir. Depois do banho, vesti uma calça jeans escura, uma camiseta branca e uma jaqueta leve por cima. Simples, como sempre. Peguei o secador que vi no banheiro e fiquei um bom tempo secando o cabelo — coisa que eu nunca fazia. Mas, já que teria que me acostumar a viver com Asher por um tempo, talvez fosse bom começar a me cuidar um pouco mais. Enquanto passava o secador, lembrei das dicas de Soraya no salão. “Nada de exageros, querida. Realce o que você já tem.” Tentei seguir o conselho. Passei uma base leve, um pouco de blush, rímel e batom nude. O básico, só pra parecer… apresentável. Quando terminei, olhei o meu reflexo no espelho. Ainda era eu, mas um pouco diferente. Mais… confiante, talvez. Calcei uma sapatilha bege, borrifei um pouco do perfume que Asher havia me dado junto com as compras e peguei a minha bolsa — que agora, finalmente, não parecia tão fora de lugar quanto antes. Coloquei o celular, uma bolsinha com maquiagem e só. Eu não tinha muito o que carregar. Respirei fundo. A lembrança de ontem me atravessou de novo, e quase desejei poder desaparecer. Eu devia ter falado menos. Devia ter parado na primeira taça. Devia ter agido como uma adulta equilibrada. Soltei um pigarro, tentando disfarçar o nervosismo, e desci. Asher estava na sala, sentado no sofá, com o celular na mão. Quando ergueu o olhar para mim, senti o meu estômago se contrair. Ele tinha aquele olhar de novo. O tipo de olhar que me fazia esquecer como se respira. - Estou pronta – anunciei, com um sorriso tímido. – Podemos ir. Ele assentiu, guardando o celular no bolso. - Certo. Descemos até o estacionamento em silêncio. O som dos passos ecoava no chão de mármore e o clima estava… estranho. Não tenso, mas também não exatamente confortável. Era aquele tipo de silêncio que carrega mais pensamentos do que palavras. Assim que entramos no carro, Asher quebrou o silêncio: - Preciso passar em um lugar antes. Tudo bem? - Claro. – respondi, tentando parecer despreocupada. – Você que está no comando. Afinal, ele estava me fazendo um favor. Eu não tinha o direito de questionar. O carro avançou pelas ruas movimentadas de Chicago, e por alguns minutos, o único som era o do rádio tocando algo suave. Fiquei mexendo nas mãos, sem saber por que estava tão nervosa. Mordi o lábio, indecisa, e decidi quebrar o silêncio: - Seus pais… – comecei, hesitante. Ele desviou os olhos da rua por um instante para me encarar. - O que tem eles? - Eles são… como você? – perguntei, sentindo a voz falhar no final. Ele arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso surgindo no canto da boca. - Como eu? - Quero dizer… sérios, reservados… – fiz um gesto vago com a mão. – E com esse ar de que nada pode te atingir. Ele soltou um riso leve, quase imperceptível. - Não se preocupe, Lila. Meus pais são tranquilos. Você vai gostar deles. - E se eles não gostarem de mim? – insisti. – Asher, somos de mundos diferentes. Eles podem achar que eu estou… sei lá, interessada no seu dinheiro. O que não deixava de ser parcialmente verdade, pensei, sem coragem de dizer em voz alta. Ele suspirou e manteve o olhar na estrada. - Eles não vão pensar isso. Meus pais têm dinheiro, status, mas tratam todo mundo com respeito. Te garanto. Assenti, mas a verdade é que isso não me tranquilizou em nada. Eu nunca estive na casa de pessoas ricas quer dizer a não ser para limpar. m*l sabia como me comportar. Só a ideia de tentar parecer alguém que eu não era já me deixava enjoada. - E que lugar é esse que você vai passar antes? – perguntei, tentando mudar de assunto. - Só uma loja. Preciso pegar uma encomenda. – respondeu, simples. – Quer ir comigo? - É rápido? - É. Pensei por alguns segundos e acabei negando com a cabeça. - Acho que prefiro esperar no carro. - Tudo bem. – disse, estacionando próximo a um pequeno shopping. – Não vou demorar. Ele saiu, fechando a porta atrás de si, e eu fiquei ali, observando as pessoas passando do lado de fora. Cruzei os braços e recostei no banco. A curiosidade começou a me corroer. Que encomenda era essa? Ele tinha dito que seria rápido — e realmente foi — mas quando o vi voltando, percebi que estava com as mãos completamente vazias. Nenhum pacote, nenhuma sacola, nada. Ele abriu a porta, entrou e ajeitou o cinto, como se nada tivesse acontecido. - Pronto. Podemos ir. – falou, ligando o carro. O motor ronrou e ele saiu calmamente do estacionamento. Olhei para as mãos dele e depois para o banco de trás. Nenhum sinal de encomenda. - Ué… cadê a encomenda? – perguntei, tentando soar casual, embora a curiosidade quase me fizesse explodir. Ele desviou o olhar da estrada por um segundo e deu um leve sorriso. - Está guardada. - Guardada? Onde? Você voltou com as mãos vazias. - Surpresa. – respondeu, dessa vez com um sorriso maior, claramente se divertindo com o meu incômodo. Revirei os olhos, cruzando os braços. - Você adora fazer mistério, né? - Só quando vale a pena. – respondeu, e o tom da voz dele me deixou ainda mais confusa. Fiquei em silêncio o resto do caminho, mas a minha mente não parava. Que tipo de “encomenda” era essa que ele não podia me mostrar? Tentei me distrair olhando pela janela, mas o pensamento insistia em voltar. Primeiro, aquele comentário sobre “estar faltando algo”. Agora, essa tal encomenda misteriosa. Asher podia até tentar parecer frio, mas algo me dizia que ele estava preparando alguma coisa. E o pior é que, mesmo sem saber o quê… uma parte de mim m*l podia esperar para descobrir.
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