Asher Bianchi
Para ter certeza de que Ivan não mandaria a seguir, achei melhor irmos para o aeroporto da cidade próxima. O silêncio no carro era tão espesso que parecia um terceiro passageiro. Lila estava sentada ao meu lado, olhando fixamente pela janela, como se a paisagem noturna pudesse oferecer algum tipo de resposta que nem eu tinha. As luzes da estrada passavam rápido demais, mas mesmo com o barulho constante do motor e o som abafado dos pneus no asfalto molhado, a tensão entre nós se sobressai.
Eu sentia o seu desconforto. Claro que sentia. Ela não queria estar aqui, não comigo, não nessa situação. Mas a verdade é que eu também não queria estar dirigindo a quilômetros de distância de Boston, em plena madrugada, com o coração latejando de raiva depois de ver aquele desgraçado do Ivan agarrando o braço dela, como se fosse dono da vida dela.
Fecho os dedos com força no volante, lembrando da cena. Ele estava com o olhar cheio de ódio e desconfiança, e tudo que me veio à cabeça foi dizer: sou o namorado dela. Nem pensei, apenas saiu. O jeito que Lila me olhou naquela hora — surpresa, sem conseguir disfarçar — quase me fez rir da ironia. Eu, que tinha prometido a mim mesmo nunca mais me meter em confusão por causa de mulher, agora estava metido até o pescoço.
Mas a verdade é que tudo começou antes. Dois dias antes, quando fui encontrá-la naquele café em Boston.
Quando Logan me pediu para ajudar Emily, eu pensei em recusar. Não porque não confiasse nele, mas porque eu não queria me envolver. Já tinha problemas demais na minha vida. Mas depois que ele explicou a importância de Lila como testemunha contra Ivan, e sabendo o tipo de homem que aquele verme é… não consegui dizer não, e sabia também que em algum momento cederia, Logan é meu melhor amigo.
E foi assim que entrei naquele café. Eu a vi logo de cara. Ela estava sozinha, mexendo distraída na xícara de café, e bastou um olhar
para saber que era ela. Tinha algo na sua postura, naquele jeito doce, mas firme, que me chamou atenção. Eu já tinha ouvido a história de como ajudou Emily a fugir das garras de Ivan — um cara que não apenas seduzia mulheres vulneráveis, mas também as destruía. Ele não tinha só os negócios limpos, ele mexia com tudo, drogas, chantagens, e até tráfico de mulheres. Nada comprovado oficialmente, claro, mas eu conhecia bem o tipo, e ouvi muitos rumores sobre ele.
E Lila? Ela tinha tido coragem de ajudar alguém que corria perigo.
Conversamos pouco, apenas o suficiente para combinarmos tudo. Eu liguei para Logan depois e disse que estava certo: dois dias, e
eu a levaria para Chicago. Dois dias. Fácil, pensei. Entretanto esses dois dias se arrastaram com o peso do inferno.
Meu pai não parava de ligar. Eu sabia exatamente por quê. Ele queria que eu fosse ao noivado do meu primo Frederico. O canalha. O mesmo que me traiu com a mulher com quem eu ia me casar.
Respiro fundo, lembrando da cena que nunca vai sair da minha cabeça.
Eu tinha chegado em casa mais cedo, era de tarde, não tinha o costume de chegar nesse horário. Algo me dizia que tinha algo errado, uma sensação estranha. O apartamento estava em silêncio, mas ouvi um barulho vindo do quarto. Abri a porta — e lá estavam eles. Ivone e Frederico. Minha noiva e meu primo. Se agarrando como dois animais.
Até hoje lembro da sensação que me tomou: não foi só raiva, foi traição no nível mais profundo. A gargalhada amarga saiu sozinha, como se o meu corpo precisasse expelir aquela cena de algum jeito. Eles tentaram se justificar, balbuciando que “não era o que parecia”. Patético. Eu só fui até o armário, joguei as roupas dela numa mala, arrastei até a porta e mandei embora. Mas não antes de quebrar a cara do meu primo com uns socos bem dados.
E mesmo assim… deixei que todos acreditassem que eu era o vilão. Que eu tinha traído Ivone, que eu a abandonei. Preferi carregar esse peso a destruir a imagem que os meus tios tinham do filho “perfeito”. Eu amava demais aqueles dois para esmagar as suas ilusões. Minha mãe até me deu um sermão, acreditando na versão de Ivone, e isso doeu ainda mais. Mas paciência. Melhor eu ser o canalha da história do que fazer os meus tios sofrerem.
Por isso, quando meu pai ligava insistentemente pedindo que eu fosse ao noivado, eu tinha vontade de vomitar. Ele falava de família, de laços, de como eu precisava superar. Como se fosse tão simples ignorar a punhalada nas costas. Ele até teve a audácia de sugerir que eu levasse uma “moça” para mostrar que segui em frente. Quase ri. Eu segui em frente, sim, mas sozinho. E com uma promessa feita a mim mesmo: nunca mais me deixar enganar por mulher nenhuma.
Então, por que diabos eu não consigo parar de olhar para Lila agora?
Desvio os olhos dela e volto a focar na estrada. Algo me incomoda. Olho pelo retrovisor pela terceira vez em poucos minutos e a sensação só aumenta. Estamos sendo seguidos. O carro preto atrás de nós não diminui nem aumenta a distância.
- Droga… – murmuro baixo, mas Lila percebe.
- O que foi? – a sua voz é baixa, mas firme.
Dou um meio sorriso, tentando acalmá-la.
- Nada com o que você deva se preocupar.
- Isso não me convence, Asher. – ela rebate, finalmente me encarando. O olhar dela é penetrante, como se conseguisse atravessar as minhas defesas, ela olha para o retrovisor e pergunta. – Estamos sendo seguidos?
Não adianta mentir.
- Sim. – Suspiro. – E não é coincidência. Ivan não vai desistir tão fácil.
Ela engole em seco, e por um instante vejo o medo nos seus olhos. Mas também vejo determinação.
Ele deve ter desconfiado de algo. Então é melhor me afastar de Emily. Se ele descobrir que sou a ligação dela…
- Ei. – interrompo, firme. – Nós vamos dar um jeito. Fique calma que tudo vai dar certo.
Ela me encara de novo, como se estivesse tentando decifrar se eu realmente acreditava no que dizia. Eu acreditava. Pelo menos queria acreditar.
Dou a seta e viro para uma estrada secundária, acelerando. Não adianta levar direto para o aeroporto agora. Quem está atrás de nós não pode saber para onde vamos. Em minutos, chego a uma pequena cidade e paro diante de um hotel discreto.
O silêncio volta a nos envolver, mas é diferente agora. Não é apenas tensão. É como se algo invisível nos conectasse, mesmo que nenhum de nós quisesse admitir.
Entro no estacionamento e desligo o carro. Olho para ela antes de sair. Os seus cabelos caem sobre o rosto, e ela tenta ajeitar a mala pequena no banco de trás. Apenas uma mala. Uma vida inteira resumida em tão pouco.
Talvez seja isso que me prenda tanto. A coragem dela. A força escondida naquela doçura aparente.
Mas balanço a cabeça, afastando o pensamento. É só encantamento. Só isso. Eu sei muito bem que promessas de mulheres acabam em facadas nas costas.
E mesmo assim, aqui estou. Querendo protegê-la como se já fosse minha.