Lila Anderson
O peso da vida caiu sobre mim mais cedo do que eu imaginava. Quando meu pai morreu, o mundo pareceu rachar em duas partes — uma que chorava e outra que precisava lutar. Mesmo minha mãe insistindo para que eu estudasse, que abrisse mão do trabalho, terminei o ensino médio, porém, eu sabia que ela, sozinha, não conseguiria arcar com as contas da casa. Foi quando a doença dela se agravou.
Não era câncer, nada parecido. Era uma doença autoimune progressiva, a esclerose múltipla em estágio inicial, que, ao longo do tempo, começou a tirar-lhe o equilíbrio, a energia para andar, para cuidar de nós. As consultas se multiplicaram, os remédios custavam uma fortuna, e as hospitalizações se tornaram rotina. Minha tia, irmã da minha mãe, chegou a nos ajudar, mas, honestamente, o esforço só segurou a barra por pouco tempo. O resto caiu sobre mim — eu, com os meus dezenove anos.
Percebi que o meu único jeito de manter a minha mãe viva naquela rotina era trabalhar. Então me inscrevi em tudo que aparecia: lanchonete, farmácia, escritório... até que uma oferta surgiu para ajudar na casa de um tal Petrov, em Boston. Foi uma sorte — o salário cobria remédios e consultas que estavam a ponto de me deixar louca de tanta angústia.
No primeiro dia, senhor Petrov parecia um homem polido, quase charmoso. Comprou flores para minha mãe; me perguntou se eu estava bem. Achei que tinha acertado. Mas, aos poucos, o véu foi caindo. Meus colegas começaram a sussurrar. Ouvíamos — ouvíamos mesmo — os gritos de Emily por todo o canto da casa. Suplicando para que ele parasse. Eu corria para ajudá-la depois, ninguém se prontificava ajudá-la com os ferimentos. Nas horas em que o senhor Petrov estava por perto, ninguém ousava erguer os olhos ou dizer algo. O ambiente se tornava hostil, todos temiam ele, e eu só ficava pelo salário.
Eu continuei ali por meses, porém, naquele dia algo mudou, eu fui informada que acompanharia Emily até o médico, e quando ela saiu do consultório, eu vi, no seu rosto, o sinal claro de medo. Ela estava pálida, e aquilo foi um alerta. E então ela sussurrou:
- Estou grávida.
Eu abracei apertado.
- Eu preciso fugir, Lila. Não posso mais viver naquela casa. Ivan não pode saber sobre esse bebê.
Não hesitei, nem por um segundo. Eu sabia do seu medo, e eu não poderia virar as costas para isso, então eu disse:
- Eu vou te ajudar.
Ela me agradeceu em silêncio e então voltamos para casa. Sabíamos que o senhor Petrov viajaria na manhã seguinte e essa era a chance perfeita de Emily fugir desse inferno.
Na manhã seguinte, arrumei uma mochila para ela. E assim que Ivan passou pelos portões, eu fui até Emily e perguntei:
- Está pronta? – ela assentiu, incapaz de falar pelo nervosismo. Me aproximei e abracei.
Entreguei um papel a ela dizendo que era meu número e assim que estivesse segura, para ela me ligar. Ela me agradeceu, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Então descemos juntas até os fundos da casa, eu ia na frente para ver se não esbarramos com ninguém no caminho, e não sei por algum milagre, ninguém apareceu.
Quando chegamos aos fundos da casa, eu a abracei novamente e desejei boa sorte, fiquei aqui esperando ela passar pelo portão, e então Emily se virou uma última vez e acenou. Os meus olhos inundaram-se de esperança e receio. Eu torcia para que ela fosse para um lugar seguro e que Ivan nunca a encontrasse. Respirei fundo e sequei uma lágrima que caiu e voltei para dentro.
Comecei a fazer os meus afazeres na cozinha, e então um tempo, uma das empregadas perguntou:
- Cadê a senhora Emily?
Fingi naturalidade, e falei:
- Deve estar no quarto.
Ela disse que veio de lá e não encontrou, procurou pela casa e nem sinal dela, essa hora o meu coração já disparava de medo, ansiedade e preocupação, pois eu sabia que se Ivan a encontrasse seria o fim dela.
Então a empregada que perguntou de Emily, interfonou na a portaria. Os guardas se agruparam em alerta.
Ligaram para Ivan, e informaram o que estava acontecendo e, ao saber, disse que estava voltando imediatamente para casa. A casa inteira estava apreensiva com que ele poderia fazer.
Mas, naquele momento, eu sabia: ela estava livre. E eu fiz aquilo acontecer, e faria tudo de novo.