Capítulo 16

1096 Words
Lila Anderson O caminho de volta para o apartamento foi tranquilo, quase confortável, como se o vinho tivesse quebrado um pouco do gelo entre nós. Eu estava mais leve, com aquela sensação estranha de que talvez, só talvez, a vida pudesse ter momentos bons no meio do caos. Asher dirigia em silêncio, mas eu conseguia sentir os seus olhares rápidos na minha direção de vez em quando, como se estivesse curioso com a minha reação a tudo aquilo. Quando estacionamos, ele abriu a porta para mim novamente, esse gesto dele estava começando a me deixar sem saber como reagir — educado demais, talvez esse seja o jeito dele com todas as mulheres. Entramos no apartamento, e eu estava prestes a agradecer por tudo e ir direto para o meu quarto, quando ele me surpreendeu: - Quer tomar mais uma taça de vinho comigo? – perguntou, já colocando a chave sobre o balcão da cozinha, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Olhei para ele, surpresa. A lembrança do gosto adocicado do vinho ainda estava na minha boca. Era bom, mais do que eu esperava. Porém, eu não estava tão acostumada com álcool. - Ah… eu não sei, Asher. – balancei a mão, incerta. – Já tomei hoje… e… não quero passar vergonha. Ele arqueou a sobrancelha, claramente achando graça. - Uma taça não vai te fazer m*l, Lila. Prometo que se você começar a ficar bêbada, eu aviso. Revirei os olhos, mas o sorriso dele era quase contagiante. Suspirei e, contra todas as minhas precauções internas, assenti: - Está bem… só mais uma. Asher pegou duas taças e serviu o vinho com calma, como se fosse parte de um ritual. Eu me sentei no sofá, meio desconfortável no começo, até que ele veio e se acomodou ao meu lado, entregando-me o copo. Brindamos sem muitas palavras, apenas um leve “à noite agradável” dito por ele, e eu me obriguei a relaxar. O primeiro gole desceu fácil, o segundo ainda mais. Logo, percebi que estava sorrindo mais do que deveria e rindo de coisas que, normalmente, não teriam graça alguma. - Você fica engraçada, quando relaxa. – ele comentou, cruzando os braços e me observando como se eu fosse um experimento curioso. - Não estou engraçada! – protestei, mas minha própria risada entregava que sim, estava. – Só estou… leve. É diferente. Ele inclinou a cabeça, claramente se divertindo. - Leve, hein? E o que uma Lila “leve” faz? - Não sei… – parei, pensando, e acabei rindo ainda mais. – Talvez eu tenha que descobrir. - Posso te ajudar com isso. – ele provocou, e aquele olhar dele, com certeza era o vinho me fazendo imaginar coisas. Eu arregalei os olhos, e tomei mais um gole do vinho tentando disfarçar, porém, eu senti o meu rosto pegando fogo. Como se soubesse exatamente o efeito que estava causando em mim, ele sorriu, satisfeito. - Mas… confesso que prefiro ver você assim. Mais solta. Menos preocupada. Aquilo fez o meu coração dar um pulo estranho. Fiquei em silêncio por alguns segundos, encarando o líquido rubi no copo, tentando disfarçar o quanto aquelas palavras mexeram comigo. Então, para quebrar o clima, bebi mais um gole. - Cuidado – ele advertiu, mas ainda com aquele riso contido. – Não quero ter que te carregar até o quarto. - Não vai precisar. – declarei com firmeza, mas o próximo bocejo que escapou de mim provou o contrário. Asher apenas balançou a cabeça, rindo baixinho, enquanto eu encostava no sofá, sentindo o calor do vinho subir pelo corpo. A conversa seguiu em assuntos bobos, histórias aleatórias da minha infância que eu mesma nunca tinha contado a ninguém, e ele parecia atento, interessado, como se estivesse descobrindo um lado meu que nem eu mesma mostrava. Não lembro em que momento a taça ficou vazia, mas sei que Asher a tirou gentilmente da minha mão quando percebi que os meus olhos estavam quase se fechando. - Pronto. Hora de dormir, Lila. – ele disse em um tom baixo, quase suave. Tentei protestar, mas o sono e o efeito do vinho já tinham vencido. A última coisa que me lembro é dele me ajudando a levantar e me guiando até o quarto. {...} O dia seguinte foi um verdadeiro desastre. Acordei com a cabeça latejando como se tivesse um tambor dentro dela. A boca seca, o estômago revirando, e uma sensação geral de arrependimento. Me arrastei até o banheiro, lavei o rosto e me encarei no espelho. - Ótimo, Lila. – murmurei para mim mesma. – Primeira vez que você bebe na vida e já paga esse mico. Revirei os olhos para meu próprio reflexo e voltei para o quarto, desejando que Asher tivesse saído cedo para o trabalho. Mas, claro, a minha sorte não era tão grande assim. Assim que saí do quarto, lá estava ele, sentado na bancada da cozinha, tomando café tranquilamente como se fosse a cena de um comercial de TV. Ao me ver, ergueu uma sobrancelha. - Bom dia, dorminhoca. - Fala mais baixo. – reclamei, apertando as têmporas. Ele riu. Riu! Sem o menor pudor. - Não estou gritando. Mas você parece ter sido atropelada por um caminhão. - Eu sei, estou me sentindo péssima. – falei ainda com as mãos na cabeça, Ele levantou pegou uma xícara, um copo de suco e comprimido para mim, me deu primeiro o comprimido e o suco, e depois a xícara de café. - Você vai se sentir melhor. - Obrigada. – agradeci. – Eu não devia ter bebido mais que uma taça, não estou acostumada. - E eu falei pra ir devagar. – ele me lançou aquele olhar divertido, como quem saboreava a minha vergonha. – Mas, admito, valeu a pena ver você rindo por qualquer coisa. Foi… interessante ver esse seu lado. Senti as minhas bochechas queimarem. - Eu fiz alguma besteira? – perguntei em voz baixa, morrendo de medo da resposta. Ele deu de ombros, tomando mais um gole de café antes de responder com a maior calma do mundo: - Nada grave. Só me contou que quando era criança sonhava em ser astronauta e que foi a primeira vez que se divertiu. Afundei o rosto nas mãos. - Ai, meu Deus. Ele riu mais uma vez, balançando a cabeça. - Relaxa, Lila. Foi divertido. Tentei não sorrir, mas a vergonha ainda me dominava. Eu só conseguia pensar que, em menos de vinte e quatro horas, tinha deixado Asher me ver como ninguém mais tinha visto. E, pelo jeito, ele estava gostando disso.
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