Capítulo 8

1329 Words
Asher Bianchi Meu pai não parava de ligar. O nome dele piscava na tela do meu celular pela terceira vez só na noite passada, como se insistir fosse suficiente para me convencer. Suspirei fundo, apoiando o braço no encosto do sofá do quarto do hotel e encarando o teto. Eu já sabia o que ele queria: que eu fosse ao noivado de Frederico e Ivone. O noivado perfeito. A celebração da “família unida”. O orgulho dos Bianchi. Uma merda. Essas eram as palavras que ecoavam na minha cabeça. Fred e Ivone... eles se passavam por anjos na frente da família. O casal exemplar, apaixonado, digno de admiração. Só eu sabia a verdade, só eu carregava nas costas a traição que eles cometeram comigo. E ainda assim, eu teria que ir sorridente participar daquele circo. Meu pai — o senhor Marco Bianchi, homem que sempre repetiu que “a nossa maior riqueza é a família” — ele era um dos motivos de eu não ter contado também, ficaria devastado se eu revelasse a verdade. Eu via o quanto ele se orgulhava da imagem de união, de lealdade, de tradição. Contar a ele sobre a traição de Fred e Ivone seria como enfiar uma faca no peito dele. Não importava o quanto eu quisesse gritar, não importava o quanto doía em mim. Eu não poderia destruir o coração dele assim. E esse era o motivo de eu ainda estar preso nesse teatro. “Vou pensar, pai”, eu tinha dito na última ligação. E, por um momento, o silêncio dele do outro lado da linha quase me convenceu de que talvez isso fosse suficiente. Mas eu conhecia o meu pai. Para Marco Bianchi, “pensar” não era a resposta. O amanhecer chegou, e eu já estava de pé, banho tomado, tentando organizar os meus próprios pensamentos quando decidi ligar para a recepção e pedir o café da manhã. Talvez a comida aliviasse o peso no meu estômago, mas duvidava. Antes do café chegar, caminhei até o quarto de Lila. Queria saber se ela já estava acordada. Quando iria bater, vi que a porta estava entreaberta. E foi nesse momento que ouvi a voz dela. Não sou o tipo de homem que fica escutando conversa alheia — pelo menos não costumo. Mas alguma coisa na tensão da voz dela me prendeu. - Eu vou dar um jeito, tia. Vou mandar o dinheiro assim que puder... — a voz dela era baixa, mas carregada de preocupação. O meu peito apertou. Dinheiro. Problemas. Ela estava desesperada, isso era óbvio. E foi aí que a ideia começou a se formar. Se meu pai queria tanto que eu levasse alguém ao noivado... talvez não fosse uma ideia tão rüim assim. Ele sempre dizia que eu precisava mostrar que era um homem sério, capaz de construir uma família. Talvez fosse a oportunidade perfeita de agradá-lo — e, ao mesmo tempo, ajudar Lila. Ela precisava de dinheiro. Eu precisava de alguém para fingir ser minha noiva. A equação parecia simples. Bati na porta, dessa vez com firmeza. A voz dela cessou, e logo Lila abriu, me encontrando parado no corredor. - Precisamos conversar. – falei antes que perdesse a coragem. O olhar dela imediatamente se encheu de preocupação. Provavelmente pensou que algo tinha acontecido. Fiz um gesto para que me seguisse até a sala, e nos sentamos no sofá. Eu podia sentir a minha própria ansiedade vibrando no ar, mas respirei fundo. - Não quero que me entenda m*l, Lila... – comecei, e vi a tensão se desenhar no rosto dela. – Mas acabei escutando a sua conversa ao telefone. Na mesma hora, o rosto dela ficou vermelho, e ela entrelaçou as mãos nervosamente. - Você costuma escutar a conversa dos outros assim? – disparou, na defensiva. - Não escutei por querer, – me apressei em explicar. – Estava indo te chamar e acabei ouvindo. Ela suspirou, fechando os olhos por um instante, como se estivesse decidindo se deveria ou não confiar em mim. - A minha mãe está internada... tem uma doença. – a voz dela saiu quase como um sussurro. Assenti, esperando que ela continuasse. - Esclerose múltipla. Os remédios são caros. Eu estava conseguindo manter tudo, mas agora... desempregada... – ela engoliu em seco. – Vou ter que mexer na reserva que guardei para emergências. A minha tia é quem fica com ela no hospital, para que eu possa trabalhar. Senti um aperto no peito. Lila carregava mais do que mostrava. E era exatamente por isso que a minha proposta faria sentido. - Tenho uma proposta para te fazer. – falei, decidindo não enrolar. Ela me olhou, surpresa. Os seus olhos se arregalaram e, antes que eu pudesse explicar, ela já estava de pé. Olha, não é porque eu preciso de dinheiro que eu vou fazer qualquer coisa para conseguir. – disse firme, quase como se quisesse me atingir. Não consegui evitar o meio sorriso que escapou dos meus lábios. Ela realmente pensava que eu faria uma proposta... indecente. - Não é disso que eu estou falando. – respondi, e a forma como ela corou tão rápido foi quase divertida. - Então é o quê? – retrucou, ainda com o corpo rígido. Suspirei, decidido a acabar com aquilo de uma vez. - Preciso comparecer ao noivado do meu primo. – falei, tentando manter o tom neutro. - Aposto que o que não falta para você é mulher. – ela cruzou os braços, me desafiando. Soltei uma risada. Ela não fazia ideia. - Mas não quero levar nenhuma delas. – olhei diretamente em seus olhos. – Quero te fazer uma proposta, Lila. Ela ergueu a sobrancelha, desconfiada, esperando. Então soltei de uma vez: - Você precisa de dinheiro. Eu preciso de alguém para fingir ser minha noiva. O silêncio que se seguiu foi tão denso que eu podia ouvi-lo pulsar entre nós. O choque estampou o rosto dela, e ela quase gritou: - O quê?! Dei de ombros. - É um acordo simples. Eu ajudo você. E você me ajuda. Ela começou a andar de um lado para o outro, como se precisasse se movimentar para não explodir. - Isso é loucura! – disse, passando a mão pelos cabelos. – Que tipo de pessoa precisa fingir ser noivo de outra? - Eu tenho os meus motivos. – respondi, firme, mas não dei detalhes. Não era hora de abrir as minhas feridas sobre Fred e Ivone. – Olha, Lila, não precisa se preocupar. Se acha que eu vou fazer algo com você, está enganada. Tudo não vai passar de uma farsa. Só não quero ir a esse noivado sozinho, entendeu? - Isso é loucura. – repetiu, mais baixo, como se tentasse convencer a si mesma. Ela me olhou e falou – E como sabe que não sou nenhuma maluca que vai ficar no seu pé depois. Soltei uma risada e disse: - Porque nenhuma maluca faria o que você fez pela sua amiga, e outra pelo pouco que vi em você… você não é nenhuma maluca. – falei firme. O olhar dela suavizou, tinha algo ali, não consegui identificar. Antes que ela pudesse continuar, fomos interrompidos por uma batida na porta. O carrinho do café da manhã havia chegado. Assinei rapidamente e pedi para deixarem ali dentro. Quando a porta fechou novamente, olhei para ela. - Não precisa me dar uma resposta agora. Vamos tomar café. Depois, você pensa e me diz. Ela me encarou, e percebi o olhar balançar. A tentação estava ali. A necessidade também. - Mas... eu posso ajudar com a sua mãe. – acrescentei, a voz mais baixa. Lila respirou fundo, desviou o olhar e, por fim, apenas assentiu. Sentamos à mesa em silêncio. Um silêncio estranho, carregado de pensamentos não ditos. E, ainda assim, enquanto eu observava ela corar cada vez que os nossos olhares se cruzavam, tive certeza de uma coisa: por mais loucura que parecesse para ela agora, Lila acabaria aceitando. Eu confiava nisso!
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