Lila Anderson
O silêncio no carro era tão pesado que parecia preencher cada canto. Eu mantinha os olhos fixos na janela, observando as grades da mansão se afastarem pouco a pouco, como se eu precisasse ver, com meus próprios olhos, que aquele lugar ficava realmente para trás. Só quando o portão se fechou no retrovisor, senti os meus ombros relaxarem um pouco. Mas o nó no meu estômago ainda estava lá, firme, me lembrando do olhar de Ivan, da forma como a sua mão me agarrou sem a menor cerimônia, como se eu não passasse de um objeto que ele podia segurar quando quisesse.
A minha pele ainda queimava no ponto em que ele segurou o meu braço. Eu apertava as mãos uma contra a outra, como se pudesse apagar a sensação de sujeira, mas nada ajudava.
Asher não disse nada de imediato. Dirigia com o maxilar travado, os olhos fixos na estrada, os dedos segurando o volante com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. A presença dele era imensa dentro daquele carro — não pelo espaço que ocupava, mas pela intensidade do silêncio que carregava.
Eu quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, para quebrar aquele peso sufocante. Mas as palavras não vinham. A minha garganta ainda doía da pressão de ter engolido tanto medo em tão pouco tempo.
- Você está bem?
A voz dele cortou o ar como uma lâmina. Grave, baixa, mas firme. Não foi uma pergunta suave, foi direta, dura até, como se ele mesmo não conseguisse controlar o tom.
Engoli em seco.
- Eu... acho que sim.
Não era verdade. Eu estava longe de estar bem. A minha respiração ainda parecia errática, o meu coração batia em um ritmo que não acompanhava a calma que eu tentava mostrar. Mas o que eu poderia dizer? Que ainda sentia a sombra de Ivan atrás de mim? Que, por mais que estivesse a quilômetros de distância, ainda tinha medo de vê-lo surgir do nada?
Asher me lançou um rápido olhar de canto, avaliando, mas não respondeu. Voltou os olhos para frente. E aquele silêncio voltou a crescer entre nós.
De repente, as palavras dele na mansão ecoaram de novo na minha mente. “O namorado dela.”
Os meus dedos tremeram em cima da bolsa no meu colo. Como alguém conseguia dizer aquilo com tanta firmeza, tanta convicção, como se fosse uma verdade absoluta? Eu não sabia o que pensar. Parte de mim queria questionar de imediato. Outra parte... não tinha coragem.
Mas a curiosidade venceu o medo.
- Por que você disse aquilo? – a minha voz saiu baixa, quase um sussurro, mas o espaço fechado do carro fez parecer que ecoava.
Aher não respondeu de imediato. Apertou mais forte o volante, inspirou fundo, e só depois falou:
- Porque era a única forma de fazer ele soltar você.
Eu pisquei algumas vezes, tentando absorver.
- Você podia ter dito qualquer coisa... que era meu irmão, um amigo, qualquer coisa. Mas você escolheu isso.
Ele me olhou de novo, rápido, e dessa vez não desviou tão depressa.
- Escolhi o que funcionaria melhor. Ivan não respeita ninguém, Lila. Nem mulheres, nem empregados, nem amigos. Mas ele respeita uma coisa: território.
A palavra me fez estremecer. Território. Como se eu fosse... propriedade.
Cruzei os braços, tentando me proteger do frio que senti de repente, mesmo que o carro não estivesse com o ar gelado ligado.
- Eu não sou território de ninguém.
- Eu sei. – a resposta veio rápida, quase dura. Depois, a voz dele suavizou um pouco. – Mas eu precisava que ele acreditasse que você era.
Fechei os olhos por um momento. O alívio de estar fora da mansão lutava contra a indignação por ter sido tratada como algo que precisava de um dono para estar a salvo. Mas, no fundo, eu sabia: se Asher não tivesse aparecido, não tivesse dito aquilo, eu talvez ainda estivesse presa naquela casa, ouvindo os insultos de Ivan, sentindo a mão dele me apertar até roxear.
Virei o rosto e encarei Asher. A tensão no rosto dele ainda estava ali, marcada em cada linha da mandíbula, nos olhos semicerrados. Ele parecia pronto para voltar e enfrentar Ivan outra vez se fosse necessário.
O silêncio voltou a se instalar entre nós, mas dessa vez parecia diferente. Antes, era sufocante, cheio de medo, como se qualquer som pudesse atrair Ivan de volta. Agora, havia algo mais. Uma espécie de corrente invisível que me prendia ali, entre o medo que ainda pulsava em mim e a presença implacável de Asher ao meu lado.
Desviei os olhos dele e voltei a encarar a janela. As luzes da estrada passavam rápido, borradas, como se o mundo lá fora fosse mais simples, mais fácil de lidar. Eu queria me perder nelas, me esconder nelas, mas era impossível ignorar a forma como o ar parecia carregar o cheiro dele — discreto, amadeirado, masculino demais para que eu conseguisse fingir indiferença.
- Ele não vai encostar em você de novo. E em nenhuma mulher mais.
A frase dele veio sem aviso, firme, quase uma promessa gravada no ar. Os meus olhos se moveram sozinhos até encontrarem os dele, mesmo que apenas de perfil.
- Você fala como se pudesse controlar isso.
- Posso.
Soltei uma risada sem humor, curta demais para ser genuína.
- Você realmente acredita que pode controlar tudo?
Ele virou a cabeça na minha direção, e por um segundo tive a impressão de que iria sorrir, mas o que vi foi apenas seriedade.
- Não tudo!
A forma como ele disse aquilo me arrepiou inteira. Não era brava, não era arrogância barata. Ele acreditava de verdade. Era como se Asher fosse feito de uma convicção que eu nunca tinha visto em ninguém.
Apertei as mãos no colo, tentando encontrar coragem para perguntar algo que martelava na minha mente desde o momento em que ele surgiu ali naquela mansão.
- Por que você se importa? – a minha voz saiu mais fraca do que eu queria, mas não retirei a pergunta.
Asher demorou a responder. A sua expressão ficou mais dura, e por um instante achei que ele simplesmente ignoraria. Mas então ele disse, baixo, quase um murmúrio:
- Porque eu sei o tipo de homem que ele é. E mulher nenhuma merece passar pelo que a sua amiga passou nas mãos dele.
Fiquei esperando mais, mas nada veio. Ele voltou a fitar a estrada como se aquela fosse a resposta definitiva.
Ele respirou fundo, e pude ver a forma como os músculos do braço dele se moveram quando ajustou a mão no volante.
Mas eu estava cansada demais para insistir. Apoiei a cabeça no vidro frio da janela e fechei os olhos por alguns segundos. O som do motor, constante, se misturava à minha respiração ainda descompassada.
Foi então que senti. Não o toque dele, porque Asher não se moveu. Mas a intensidade do olhar dele sobre mim. Era como se pesasse em cada centímetro da minha pele.
- Você está com medo de mim?
Os meus olhos se abriram de repente, e encontrei os dele me observando de lado. A pergunta me pegou desprevenida, como se ele tivesse entrado direto nos meus pensamentos.
- Eu deveria estar? – retruquei, tentando soar firme.
Ele ergueu uma sobrancelha, e só então percebi que um canto da sua boca se curvou, sutilmente. Um quase-sorriso.
- Boa resposta.
Revirei os olhos e voltei para a janela, mas o calor subiu pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. Droga.
O carro seguiu em frente, e aos poucos a tensão mudou de forma. Não era mais o medo do que deixamos para trás. Era algo novo, incômodo e, ao mesmo tempo… viciante.