Lila Anderson
Assim que Asher saiu, fiquei sozinha com Soraya, a mulher simpática que ele me apresentou como amiga da família. Ela me recebeu com um sorriso caloroso e perguntou se eu já tinha algo em mente para o que queria fazer. Balancei a cabeça, sem saber ao certo como responder.
- Não faço ideia, para ser sincera – confessei.
Ela não pareceu surpresa. Apenas me observou por um instante e depois sugeriu, em tom leve:
- Que tal cortar um pouco o cabelo? Nada radical, só até um pouco abaixo dos ombros. E talvez clarear algumas mechas. Vai iluminar o seu rosto.
A ideia me pegou desprevenida. Sempre mantive o meu cabelo do mesmo jeito — longo, escuro e simples. Mudanças nunca fizeram parte da minha vida, não porque eu não quisesse, mas porque nunca tive tempo ou dinheiro para pensar nisso.
- Ficaria bom? – perguntei, hesitante.
Soraya sorriu, confiante.
- Com a sua beleza, querida, ficaria perfeito.
O meu rosto esquentou. Sorri sem graça, porque, no fundo eu sabia que aquilo tudo não passava de uma encenação. Soraya acreditava que eu era namorada de Asher, quando, na verdade não passávamos de dois estranhos presos a uma farsa cuidadosamente construída.
Mas Soraya era tão gentil que me senti relaxar um pouco. Enquanto ela lavava os meus cabelos, conversamos. Gostei dela. Era o tipo de mulher que sabia como deixar alguém à vontade, cheia de histórias leves e comentários divertidos. Diferente de tudo o que eu esperava encontrar.
Quando começou a cortar, vi as mechas caírem no chão e senti uma estranha sensação de renovação. O comprimento foi diminuindo, até que o cabelo ficou logo abaixo dos ombros. Depois ela começou a separar mechas e aplicar o produto para clarear. O cheiro da química se espalhou pelo ar, e Soraya continuou me distraindo com conversas sobre viagens, clientes engraçados e até algumas histórias envolvendo a própria mãe de Asher.
Horas se passaram sem que eu percebesse. Quando finalmente ela secou os meus cabelos e modelou com ondas leves, quase não me reconheci. As mechas claras iluminavam o meu rosto, e a maquiagem básica — um pouco de rímel, blush e batom suave — transformou completamente a minha aparência. E enquanto ela me maquiava, ela me dava dicas de como fazer.
Fiquei encarando o meu reflexo no espelho, surpresa. Era como se outra versão de mim tivesse surgido, alguém que parecia mais confiante, mais viva.
E foi nesse momento que Asher apareceu atrás de mim.
Eu o vi pelo espelho. Os seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo, antes de ele pigarrear e recuperar a postura. Mas eu notei. Notei a surpresa genuína no seu olhar.
Soraya, sorridente, virou-se para ele.
- Então, Asher, gostou do novo visual da sua namorada?
Ele demorou um instante para responder, mas quando falou, a sua voz saiu firme:
- Está muito bonita, Lila.
O meu coração disparou. Virei-me para ele com um sorriso tímido, sem saber muito bem como reagir.
- Obrigada… – murmurei, envergonhada.
Depois que ele acertou os detalhes com Soraya, me despedi dela. Agradeci por tudo o que tinha feito, e ela, sempre amável, disse:
- Você é uma das clientes mais fáceis que já tive, não é nada exigente. Espero que volte, querida.
Sorri, prometendo que sim, mesmo sem saber se teria coragem de pisar naquele salão de novo.
O caminho até o carro foi em silêncio, mas eu sentia os olhos de Asher em mim. Aquilo me deixava nervosa. Não entendia o motivo daquele olhar. Talvez fosse apenas curiosidade com a mudança repentina.
Ele abriu a porta para mim e agradeci em voz baixa, entrando. Quando se acomodou ao volante, quebrou o silêncio:
- Quer comer algo?
A pergunta veio como um alívio. Eu estava faminta, mas relutei em admitir.
- Sim – respondi, assentindo.
- Alguma preferência?
- Qualquer lugar está bom – falei rápido, torcendo para que não me levasse a um restaurante sofisticado, daqueles em que eu nunca saberia como me portar.
Ele pareceu pensar por um instante, mas não comentou nada. Apenas dirigiu em silêncio. Quando finalmente estacionou, ergui os olhos e suspirei, aliviada.
Era uma pizzaria. Simples, aconchegante, com mesas de madeira e o cheiro irresistível de massa assando no forno. Nada de luxo, nada de etiquetas. Aquele era um lugar onde eu podia respirar sem medo de errar.
Entramos e fomos guiados a uma mesa. O aroma de pizza fresca tomou conta de mim, fazendo a minha barriga roncar alto. Por sorte, foi baixo o suficiente para que apenas eu notasse.
Sentamos. Asher pegou o cardápio e me olhou.
- Qual sabor você prefere?
- Queijo, se tiver.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas não comentou.
- Uma de queijo para você, e eu fico com marguerita.
Quando o garçom se afastou, ele me encarou de novo.
- Quer vinho?
Balancei a cabeça imediatamente.
- Não bebo.
- Não bebe, ou nunca bebeu? – perguntou, me analisando de forma que me fez enrubescer.
Engoli em seco e neguei outra vez.
- Nunca bebi.
Ele sorriu de lado, como se tivesse descoberto algo interessante.
- Então vai me acompanhar em uma taça hoje. Se não gostar, pedimos suco ou refrigerante para você.
Fiquei vermelha até a raiz do cabelo. Era constrangedor admitir que, aos meus vinte e anos, nunca tinha experimentado nada além de água e refrigerante ou suco. A sensação era a de que eu nunca tinha vivido de verdade, apenas existido para trabalhar e pagar contas.
Assenti, um pouco envergonhada.
- Está bem.
Depois de alguns minutos, a pizza chegou junto com o vinho. Asher serviu duas taças. Enquanto ele começava a comer, eu apenas olhava o copo, hesitando.
Ele percebeu.
- Não vai experimentar?
Suspirei e, tomando coragem, levei a taça aos lábios. O líquido tocou a minha língua, e me surpreendi. Não era amargo como imaginei. Era suave, adocicado, com um toque que esquentava a garganta de forma agradável.
- E então? – ele perguntou, atento.
- É… bom – admiti, levando outro gole. Depois mais um.
Foi quando senti a sua mão tocar a minha, segurando o copo. Olhei para ele, surpresa.
- Vai devagar, Lila. É sua primeira vez. Não quero ter que te carregar bêbada para casa - disse em tom divertido, com um sorriso no canto da boca.
Me senti corar.
- Desculpa…
- Não precisa se desculpar. É bom saber que gostou – comentou, com aquele olhar que parecia me atravessar.
Assenti, mordendo o lábio.
- Gostei sim. Obrigada.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio. Apenas o barulho do restaurante e o cheiro delicioso da pizza ao nosso redor. Mas havia algo diferente no olhar de Asher. Um brilho que eu não conseguia decifrar. Não era apenas curiosidade, nem simples cortesia. Era algo que me deixava nervosa, como se ele visse além da minha pele, além da personagem que eu estava tentando sustentar.
E aquilo me assustava, porém, ao mesmo tempo… me fazia sentir viva. Ou devia ser apenas o vinho fazendo efeito, e me fazendo imaginar coisas.