Sombras e Cicatrizes

1186 Words
Eu a peguei antes que ela atingisse o chão, sentindo o peso morto do seu corpo contra os meus braços. Alicia estava apagada, mas o terror ainda parecia impresso em cada traço do seu rosto pálido. Olhei para Lian, que observava a cena com um olhar pesado, uma mistura de julgamento e cautela que raramente via no seu rosto. — Leve-a para o carro, Lian! — a ordem saiu automática. Lian aproximou-se e estendeu os braços para pegá-la, mas, no momento em que ele fez menção de tocá-la, algo dentro de mim travou. Os meus dedos fecharam-se com ainda mais força em volta dela, prendendo-a contra o meu peito. O calor do corpo dela, mesmo desfalecido, era a única coisa que parecia real naquele i.n.f.e.r.n.o. — Esqueça — sibilei, estreitando os olhos. — Eu levo. Apertei Alicia contra o meu p.e.i.t.o. Senti o calor do corpo dela contra o meu terno rasgado. O sangue que escorria do meu ombro e dos meus braços cortados pelo asfalto na queda do carro. Agora manchava o uniforme branco de garçonete dela, marcando-a com o meu rastro. Caminhei entre os estilhaços de vidro e os corpos caídos de Vico e os seus capangas, sentindo o peso dela, como se fosse a única coisa real naquele caos. Lian abriu a porta traseira do Cadillac e eu entrei com ela no colo, acomodando a sua cabeça no meu ombro. Ele assumiu o volante, o motor rugindo enquanto as luzes de Toronto passavam como vultos lá fora. — Deixamos o Pietro vivo, chefe — Lian disse, os olhos fixos no retrovisor enquanto acelerava.— Levamos para o lugar de sempre. Vamos fazê-lo falar quem é que te quer morto. Eu não respondi. Os meus olhos estavam fixos no rosto pálido de Alicia, agora sujo com gotas do meu próprio sangue. A confusão nublava o meu julgamento. Por que ela tinha lutado tanto? Por que aquele terror nos olhos quando eu a beijei para salvá-la? O motor do Cadillac rugia, engolindo a estrada escura que nos afastava do caos de Toronto. No banco de trás, o ar estava carregado com o cheiro de pólvora e o ferro do meu sangue. Alicia despertou num sobressalto, mas seus olhos não enxergavam o interior do carro; eles viam um fantasma. — Não... não me toca... por favor... — ela balbuciou, a voz sufocada por um desespero que parecia vir da alma. Ela tentava se afastar, os dedos arranhando o couro da porta, fugindo do meu toque como se a minha mão fosse ferro em brasa. Ela agarrou o próprio pescoço, sentindo o ar faltar. — M.a.l.d.i.ç.ã.o, é uma crise de ansiedade. — Apertei os braços ao redor dela, sentindo-a tremer contra o meu terno ensanguentado. — Esqueça a mansão, Lian. Vá para a casa de campo. Voa! E coloque o Dr. Jin na linha. Se ele não estiver na porta quando eu descer com ela, ele vai descobrir da pior forma que ninguém deixa um Frost esperando. Fechei os meus braços ao redor dela com um cuidado que eu não sabia que possuía, sentindo-a tremer até apagar novamente. Eu iria descobrir o que aquela mulher escondia. Ao chegarmos, o cenário era de urgência. Carreguei Alicia, que m.a.l se sustentava, até o sofá. Lian informou ao médico sobre a crise de ansiedade enquanto eu narrava o que acontecera no restaurante. O Dr. Jin, um homem de sessenta anos de profissão, assumiu o controle. — Confie em mim, querida. Vou cuidar de você — ele disse suavemente. Recuamos para o corredor, deixando que Jin fosse o porto seguro que ela tanto precisava. Entre soluços e pausas agoniantes, Alicia revelou a raiz da sua agonia. O meu beijo não foi um salvamento para ela; foi uma condenação que a fez reviver o a.b.u.s.o de cinco homens de uma vez só. Jin a medicou para silenciar o pânico, mas o medo era mais forte que a droga. Antes de apagar, ela agarrou-se ao médico como se a vida dependesse disso, implorando que ele não contasse a ninguém. Ela vivia sob o peso de uma ameaça constante, e a verdade, para ela, era uma sentença de morte. Quando Jin se levantou para falar conosco, os seus olhos estavam marejados. — M.a.l.d.i.ç.ã.o! — soquei a parede. — QUEM SÃO ELES, JIN? — Eu não sei! Mas tem mais. Vi marcas nos braços dela; sinais claros de agressão. Ela sofre maus-tratos, Dominic! Está magra, como se não comesse há meses. Descubra quem está por trás disso e acabe com esses d.e.m.ô.n.i.o.s. — Eu farei, Jin! Prometo que vou eliminar um por um. Horas mais tarde, Alicia despertou abruptamente às 3:00 da manhã. O brilho do celular revelou chamadas perdidas do pai. — Meu pai... Ele vai acabar comigo! — Alicia exclamou, a voz trêmula beirando a histeria. Lian notou o suor frio na testa dela e a forma como ela evitava qualquer contato visual. Ele não questionou; o medo dela era um livro aberto que ele já sabia ler. — Dominic teve um imprevisto e precisou se retirar, mas eu ficarei com você. O que precisar, é só pedir — disse Lian, mantendo uma distância respeitosa. Alicia agarrou o próprio braço, as unhas cravando na pele do rapaz. — Você pode... por favor... me levar para casa o mais rápido possível? — implorou, os olhos fixos na porta como se o tempo estivesse se esgotando. Lian assentiu com um movimento rígido de cabeça, o rosto transformado numa máscara de gelo, e a conduziu para o Cadillac. Durante o trajeto, Alicia permaneceu encolhida contra a porta, tentando ocupar o menor espaço possível. O cheiro de couro caro e o silêncio de Lian a faziam questionar: quem era aquele homem, Dominic? E por que alguém como Tierry, que se julgava um deus naquele restaurante, havia quase desfalecido de terror ao ouvir o seu nome? Quando os faróis do carro iluminaram a fachada imponente da mansão dos Rizzuto, o pânico de Alicia tornou-se físico. Ela tentou dispensar Lian rapidamente, as mãos trêmulas tateando a maçaneta em busca de uma fuga; ela queria esconder a sua vergonha, enterrar a sua realidade doméstica brutal longe daqueles olhos estrangeiros. Mas o executor de Dominic permaneceu estático. Ele não desviou o olhar do portão que se abria. Olavo Rizzuto surgiu como uma sombra maligna sob as luzes da entrada. Ele não hesitou. Sem se importar com o Cadillac blindado parado à sua porta, ele avançou como um predador covarde e desferiu um tapa violento no rosto da filha. O estalo seco ecoou na noite e o impacto jogou Alicia contra o asfalto frio. Lian observou, através do vidro escurecido, os nós dos seus dedos branquearem ao redor do volante. Ele viu os seguranças de Olavo a arrastarem para dentro da casa como se ela fosse um fardo descartável, um animal sem dono. O portão de ferro fechou-se com um estrondo metálico, mas o destino de Olavo Rizzuto acabara de ser selado naquele exato segundo. Lian não precisava de ordens e.x.p.l.í.c.it.a.s; ele conhecia o seu mestre. Dominic Frost não perdoava dívidas, e Olavo acabara de contrair uma que seria paga com sangue.
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