— Querida, sem sua presença, não haverá festa.
Isabella Ramos de Melo, ou melhor, Isabella Nigro Almada, deu um sorriso de canto de boca, que escondeu ao levar o copo de suco aos lábios. A sua volta, suas três melhores amigas m*l conseguiam disfarçar o quão ansiosas estavam por sua resposta.
O tempo e as circunstâncias são mesmo coisas engraçadas. Um dia você está rindo das pessoas, no outro precisa delas para conseguir respirar. Na época da escola, aquelas três figuras competiam para descobrir quem conseguia maltratar mais Isabella. Foram anos de piadas, humilhações, brincadeiras cruéis. Que eram apenas brincadeiras, claro!
E mesmo diante de tanta crueldade, com uma espécie de síndrome de Estocolmo própria dos perseguidos, por anos um dos maiores sonhos da agora senhora Almada foi fazer parte daquele grupinho fechado. E agora que finalmente havia conseguido, percebeu que tola foi.
Agora, eram as barbies que precisavam dela.
Após tomar um pequeno gole da bebida gelada, colocou o copo sobre a mesa e olhou para o belíssimo e muito caro solitário em seu dedo anelar esquerdo. Escolha espalhafatosa do marido surpreendeu Isabella, mas ela logo percebeu que o homem pensava longe. Aquele anel despertava a cobiça, a inveja e validava sua posição de esposa de um homem poderoso. Fingiu-se distraída pelo brilho da pedra gigante. O suspense antes da resposta era proposital. Havia um prazer sádico em ter o poder de brincar com o desespero de suas amigas.
— Eu não sei...
Ao fazer a pausa dramática, percebeu que as outras mulheres prenderam a respiração. Queria testar até que ponto elas iriam para agradar à senhora Heitor Nigro Almada. Se os boatos sobre uma possível falência da produtora e assessoria de impressa em que os maridos das três eram sócios estivessem corretos, elas precisariam de toda a ajuda amiga que pudessem conseguir. Um contrato com as organizações Almada seria de uma ajuda inestimável, claro, porém não precisavam de tanto. A proximidade com a esposa de um homem muito poderoso, já atrairia os contratos que elas tanto precisavam para sair do buraco.
Como era mesmo que dona Mimi falava?
“Quando pisar em alguém, tenha certeza que essa pessoa nunca mais seja capaz de se levantar.”
Uma pessoa evoluída estaria se solidarizando com as amigas.
Isabella... tinhas páginas e mais páginas em seu caderninho do rancor preenchidas com os feitos daquelas três... é claro que jamais ajudaria aquelas escrotas, queria apenas assistir na primeira fila o belíssimo naufrágio das suas ambições, mas elas não precisavam saber disso agora.
— Preciso perguntar ao meu marido. Heitor é um tanto controlador, não gosta que eu faça nada sem consultá-lo. — a senhora Almada tentou usar um tom dócil que acreditava ser o usado por uma esposa submissa. Estava se divertindo muito ao desempenhar a personagem. Sua fantasia mais secreta sempre foi se tornar uma atriz famosa. Pena não haver uma plateia para apreciar sua performance.
— Ah, querida, você está apaixonada e como recém-casada, quer fazer o possível para agradar, eu compreendo, mas deixa-me contar o segredo de um casamento feliz: desde o primeiro momento, você precisa deixar bem claro quem manda. Ronaldo sabe que lá em casa quem resolve tudo sou eu. Ele manda nos empregados dele lá na produtora, no mais, escreve tudinho conforme a minha cartilha. E como sua amiga, eu vou ajudar: você vai a nossa festa e eu não aceito “não” como resposta. E se seu marido reclamar, mande que ele me ligue.
Isabella não comentou o ultimato. Apenas bebeu outro de gole para esconder a repulsa que aquelas interesseiras causavam a ela naquele momento.
“Só quando o inferno congelar vou deixar você de conversinha com meu marido”.
Pensou, enquanto mantinha uma expressão neutra.
Sabia que tudo o que elas queriam era uma oportunidade de se tornarem íntimas do esposo da “mondronga”. Estava claro que não conseguiam entender como aquele ser ridículo acabou por fazer o melhor casamento de todo o grupo: um marido jovem, bonito e poderoso.
Era demais para a cabecinha daquelas criaturas essa surpresinha do destino.
Aquele era um jogo divertido. De rainhas a peões. De peão a rainha. Quatro meses antes a filha do senador Tito Ramos estaria implorando para sair com aquelas socialites. Exatamente quatro meses antes, o trio fez uma viagem sem maridos para Las Vegas e deixaram bem claro que Isabella não era bem vinda a se juntar ao grupo.
“Meu amor, a gente já foi obrigada a te suportar na época da escola. Sua presença só estragaria nossa viagem. Ninguém gosta de você aqui. Ninguém nunca gostou. A gente só tinha pena.”
Martinha agora agia como se aquele momento pavoroso e suas duras palavras nunca houvesse existido e era óbvio que estava sendo muito difícil para ela e suas duas parceiras, Jessiquinha e Marcelinha, engolirem o orgulho e puxar o saco da “mondronga”.
Mas a mondronga não havia esquecido de nada. Nem tinha planos de esquecer.
Decidiu que era hora de acabar com a brincadeira do dia.
— Eu lamento, mas essa é uma decisão que não posso tomar sozinha. — Sorriu, tentando não parecer maldosa enquanto pensava no que poderia fazer para atormentar ainda mais suas amigas, antes de finalmente informá-las que estaria indisponível para o evento.
Ah, as voltas que o mundo dar. Quem um dia pensaria que Isabella Ramos de Melo se tornaria presença VIP em um grande evento da Martinha?
Bobagem, a filha do senador Tito Ramos não era ninguém. A presença VIP ali era da nora dos Almada. Sorrindo consigo mesma, olhou para o anel em seu dedo. Quem poderia imaginar que aquela coisinha bonitinha fosse transformar tanto a sua vida?
Ao entrar em casa, Isabella pretendia ir direto para seu quarto, mas a governanta a informou que o marido queria vê-la.
— Ele a aguarda em seu escritório.
Todo o humor do encontro da tarde findou-se ali. O rei havia solicitado uma audiência. Nada de bom poderia vim daquele encontro.
— Obrigada, informe para ele que já cheguei, vou apenas...
— Senhora, ele explicitou que quer vê-la imediatamente a sua chegada.
Sem alternativa, Isabella rumou ao encontro do marido, tentando pensar por qual besteira seria repreendida daquela vez.
Heitor aguardava atrás de sua mesa. Olhos concentrados no notebook a sua frente, a inseparável bolinha ante estresse em uma das mãos. Ao ver a mulher, se recostou confortavelmente na cadeira. Em seu olhar, algo de implacável que a fez tremer.
— Entre.
Exigiu, uma vez que a esposa ficou perto da porta entreaberta, como se estivesse pronta para correr diante de qualquer perigo... o que não deixava de ser verdade.
Hesitante, ela obedeceu, querendo acreditar que a mesa seria uma barreira segura entre eles.
Heitor nada disse. Deteve-se em examinar a Isabella. Meticulosamente. Aquele tipo de exame já era uma punição para a mulher. Nunca teve uma aparência desejável, logo, ter alguém atento a sua pessoa a fazia ciente de cada pequenino defeito.
Sabia que o intuito do homem era deixá-la nervosa... como ela havia deixado as amigas mais cedo.
Carma não é mesmo uma c****a c***l?
— V-vo-cê-e queria f-fa-lar comigo?
Ela quis morrer quando gaguejou, principalmente por que isso não comoveu Heitor, ao contrário, ele franziu a testa, irritado. Amassava a bolinha em sua mão cada vez com mais força, como se precisasse controlar a raiva.
Então, depois do que pareceu uma eternidade, ele colocou a bolinha sobre a mesa e começou a brincar com um papel que estava sobre ela. Isabella olhou meio de lado, tentando de descobrir do que se tratava... e gelou.
“Ah, inferno, era a p***a da fatura do cartão de crédito!”
Entendia perfeitamente o desagrado do marido.
“Quero deixar bem claro que se Heitor me matar, a culpa é sua!”
A mensagem foi enviada para Lícia logo após a filha do senador Tito estar segura em seu próprio quarto. Desde o começo ela sabia que aquela ideia era absurda, mas como sempre, sua melhor amiga de verdade conseguiu convencê-la a fazer merda.
E a resposta ao seu desabafo desesperado foi curta e grossa, em forma de sugestão que era uma piada interna.
“Chave de perna!”
O sangue de Isabella ferveu. Seu primeiro impulso foi ir ao encontro da nanica e matá-la com as próprias mãos. Infelizmente esse era um luxo ao qual não poderia se permitir. Primeiro por que ao sair do quarto, poderia cruzar com o marido e ele estava furioso. Segundo, ela não podia se dá ao luxo de perder a única amiga em quem podia de fato confiar.
“Vaca!”
Respondeu apenas pelo sagrado direito de dar a última palavra, já que não podia fazer mais nada.
A p***a da conta daquela fatura seria paga por ela mesma... e apostava que Heitor exigiria o pagamento de cada centavo em dobro! De um jeito ou de outro.
Talvez se ligasse para Francisco... besteira, falar com o avô do marido só criaria mais um ponto de tensão entre eles.
A melhor estratégia seria fazer o que ela fazia de melhor: fingir-se de morta até os ânimos acalmarem.
Afinal, o que era uma fatura salgada para um homem tão rico?
“Você tem ciência que sua dívida comigo só cresce?”
Era a pergunta que o homem fazia a cada deslize seu.
Sim, Isabella compreendia que cada dia que passava estava mais e mais comprometida com o marido. Ele nunca escondeu que o arranjo entre eles era muito benéfico para ela, mas possuía um preço alto. Preço esse que um dia seria cobrado.
“Você é louca! Vai mesmo se meter com um homem como esse?! Ele vai te devorar no jantar sem nenhum remorso e não será de um jeito que você apreciará. ”
Num raro momento de lucidez, Lícia tentou alertar a amiga sobre suas escolhas equivocadas, mas como sempre, quando colocava uma coisa na cabeça, Isabella ia até o fim.
E a ideia perversa havia se infiltrado na cabeça da moça na primeira vez que havia ficado a sós com o neto do amigo.
“Então você é a amiguinha de meu avô...”
Heitor Nigro Almada era ótimo em destilar ironias e logo, a filha do senador Tito percebeu que a coincidência de ficar a sós com ele na biblioteca da família não foi uma coincidência. Aliás, se havia uma coisa que ela sabia sobre aquele homem era que nada deixava ao acaso.
Na ocasião, chocada com o fato do homem estar perdendo tempo com ela, simplesmente foi incapaz de pensar em uma resposta apropriada.
“Acha que consegue?”
“O quê?”
“Trepar com um homem que poderia ser o seu avô? É seu pai ou você que pensa ser capaz de entrar nos bolsos do velho?”
Isabella precisou de breve momento para compreender a insinuação. Outro breve período para segurar a resposta grosseira que quase escapou de seus lábios. Apagou a expressão chocada do rosto, xingando-se intimamente por deixá-lo perceber o quão revoltante as acusações foram para ela. Abaixou a cabeça e voltou a atenção ao livro que esteve lendo antes da chegada do homem. Se havia uma coisa que ela havia aprendido com os anos de politicagem do pai, é que explicar-se para algumas pessoas era uma completa perda de tempo.
“Garota esperta!”
Essas foram as últimas palavras do sujeito antes de sair. A moça finalmente ergueu a cabeça e ficou olhando a porta. Heitor não foi o primeiro parente de Francisco a insinuar que a amizade dela com ele tinha cunho s****l, mas foi o primeiro que de fato incomodou Isabella. Primeiro porque não foi uma mera insinuação: ele foi direto ao ponto, segundo porque ela estava tão concentrada no livro de fantasia que as palavras do homem tiveram o peso de arrancá-la do mundo dos sonhos. Num momento cavalgava por uma bela planície com um guerreiro viril e no momento seguinte estava diante do próprio demônio.
Quando deixou a casa naquele dia, nem mesmo se despediu do amigo. Dali em diante, também abriu mão do conforto da magnífica biblioteca, onde se refugiava quando a vida ficava muito difícil.
Se pensasse bem, foi exatamente aquele dia que a levou onde estava. Uma raiva cega a dominava cada vez que lembrava das palavras do neto do amigo... e quando a raiva cegava a filha do senador Tito, era certo que ela faria alguma bobagem para se vingar.
Definitivamente, todo orgulho precede a queda.