Melissa segurava firme a alça da mochila enquanto o carro preto cruzava os portões altos da mansão no Batel, o dia que ela mais temia havia finalmente chegado. A sua nova casa tinha um jardim perfeitamente aparado, as flores simétricas, o silêncio quase ensurdecedor. Nada ali parecia acolher. Ali naquele lugar pelo e sem vida a sensação era de estar sendo observada a cada passo que dava.
— Bem-vinda à sua nova casa. — Disse Vitor, lhe dando um beijo no topo da sua cabeça sem qualquer emoção, enquanto abria a porta principal. — A partir de agora, disciplina e bons modos filha, será a prioridade.
Melissa olhou ao redor. O chão de mármore brilhava como se nunca tivesse sido pisado. Os quadros nas paredes mostravam paisagens frias, sem rostos. A casa parecia um museu bonito, mas sem vida, sem calor humano e sem o cheio do café e o bolo de fubá.
Na sala, uma mulher elegante levantou-se do sofá. Vestia um vestido bege impecável, os cabelos presos num coque perfeito.
— Melissa, querida, seja bem-vinda. — Disse ela, com um sorriso que não alcançava os olhos. — Sou Helena a esposa do seu pai, ainda não nos conhecemos, mas é um prazer conhecer você, minha criança. Espero que se sinta confortável.
Melissa assentiu, tímida sem pronunciar uma única palavra.
— Esta é Rafaela. — Continuou Helena, apontando para a menina sentada ao piano, linda como a uma boneca de porcelana. — a sua irmã.
Rafaela virou-se e sorriu. Um sorriso treinado, gentil, sem falhas.
— Oi, Melissa. Que bom que veio, estou muito feliz.
Melissa tentou sorrir de volta, mas algo nela encolheu-se, no fundo, ela soube naquele momento que não seria feliz ali.
Nos dias seguintes, tudo era novo e tudo era estranho. A rotina começava cedo, com café da manhã servido por uma funcionária que não falava. Melissa deveria se vestir com discrição, sentar-se ereta, falar apenas quando perguntada. A tarde depois da escola ela tinha aulas de francês, piano e etiqueta com uma professora esnobe que a todo momento a corrigia, Melissa tinha medo ate de respirar perto dela.
— Não use gírias. — Dizia Helena, ao corrigir Melissa pela terceira vez, quando ela falava sem pensar. — Isso não combina com uma Sampaio.
— Mas eu só disse “beleza” ... — Murmurava cabisbaixa.
— E isso é vulgar, uma dama não fala assim, Melissa.
Rafaela, por outro lado, parecia flutuar pelas regras. Sabia exatamente o que dizer, como se portar, como agradar o pai. Melissa a observava com uma mistura de admiração e desconforto, mesmo com pouca idade ela sabia que ser como a irmã não era vida.
Na escola nova, o sobrenome Sampaio abria portas, mas fechava corações, ela não tinha amigos. Os colegas a tratavam com reverência, não com amizade. Os professores a elogiavam por antecipação, não por mérito, ela poderia ser medíocre que mesmo assim seria considerada a melhor da turma.
Em casa, cada gesto era corrigido.
— Não cruze as pernas assim. — Dizia Helena.
— Fale mais baixo. — Dizia Vitor.
— Jamais questione ou de sua opinião, apenas sorria. — Dizia Rafaela, com um sorriso, e agora Melissa sabia que a irmã interpretava muito bem o papel de filha perfeita.
Melissa começou a se calar. A espontaneidade que tinha com a mãe, os risos, as perguntas, os abraços, ficou no passado foi substituída por uma versão polida de si mesma. Ela sorria sem vontade. Concordava sem pensar. E, aos poucos, foi se apagando.
Certa noite, deitada na cama de lençóis brancos e travesseiros duros, Melissa olhou para o teto e sussurrou:
— Mãe, será que você ainda me reconheceria?
O silêncio daquele quarto perfeito respondeu a sua pergunta.