Melissa ajustou o vestido azul-marinho diante do espelho. O tecido era impecável, o corte elegante, o colar de pérolas discreto. Tudo nela estava no lugar como lhe foi ensinado, menos ela mesma e essa sensação de vazio crescia dentro dela.
— Está perfeita, amor. — Disse Jairo, entrando no quarto com o paletó já abotoado. — O evento de hoje é importante. O ministro vai estar lá, e sabe como é a esposa dele, uma lady.
Ela sorriu. Um sorriso treinado, sem alma.
— Claro. Estou pronta amor, não se preocupe. Você será perfeito como sempre, vai deixar o papai orgulho.
Desceram juntos a escadaria da casa, onde um carro oficial os aguardava. No caminho, Jairo revisava mentalmente os tópicos do discurso. Melissa olhava pela janela, observando as ruas de Curitiba passarem como cenas de um filme que ela não podia tocar, ela era uma prisioneira dentro da própria vida.
No evento, tudo era brilho. Luzes, câmeras, cumprimentos ensaiados. Melissa sabia exatamente como se portar: postura ereta, sorriso leve, olhar atento. Sabia o que vestir, o que dizer ou melhor, o que não dizer.
— A senhora está deslumbrante, como se sente ao saber que você é uma referência para o público jovem feminino? — Perguntou uma jornalista do evento, estendendo o microfone.
— Obrigada. É uma honra estar aqui, e quanto a sua pergunta, não me sinto uma referência, sou apenas uma mulher apaixonada e uma filha devotada. — Respondeu Melissa, com a voz doce e neutra, enquanto sentiu um leve aperto no braço, e quando olhou para o marido ele sorria, e em meio aos flashes ela recebeu um beijo castro nos lábios.
— Você foi perfeita. — Jairo sussurrou em seu ouvido.
Ela era a esposa do deputado, a filha do senador. Um rosto bonito ao lado de homens importantes. Um reflexo do que esperavam que fosse.
Mas por dentro, o vazio crescia.
À noite, quando os holofotes se apagavam, Melissa se refugiava em pequenos gestos. Lia escondida no quarto de hóspedes, onde ninguém entrava. Escrevia em cadernos que guardava dentro de uma caixa de sapatos. Caminhava sozinha pelas ruas do bairro durante a madrugada, com óculos escuros e roupas simples, tentando sentir o mundo sem filtros.
Certa tarde em uma das suas fugas, estava sentada num banco da Praça da Espanha, ela observava as pessoas passarem. Um casal ria alto. Uma senhora alimentava pombos. Um menino corria atrás de uma bola enquanto a mãe o cuidava de longe.
Melissa fechou os olhos e respirou fundo, o pai e o marido a estavam pressionando para que ela engravidasse, afinal eles já estavam casados a tempo e um filho era o esperado.
— Você está bem? — Perguntou uma voz atrás dela.
Ela se virou. Era uma mulher desconhecida, de expressão gentil e um sorriso genuíno como a muito ela não via.
— Sim... só precisava de um pouco de ar.
— Você parece triste, menina.
Melissa hesitou. Depois sorriu.
— É só cansaço, e as vezes não me sinto forte o suficiente.
— Isso é complicado menina, mas tenha cuidado ninguém precisa ser forte o tempo todo. A vida passa muito rápido, e quando você se dá conta já passou o tempo, e você só se preocupou com problemas superficiais.
Melissa assentiu e a mulher sorriu se afastando, talvez ele devesse mesmo engravidar, um filho poderia ajudá-la a se sentir viva.
Melissa ficou ali, sentindo o peso do que não podia dizer.
Quando chegou em casa naquela tarde, Jairo a esperava com um novo convite.
— O governador quer que você participe da campanha “Mulher Jovem na Política” as pessoas gostam da sua imagem, a equipe de Marketing, explicou que você parece um anjo sereno. Por isso sua presença é essencial. E claro que eu confirmei.
Melissa olhou para ele. Para o homem que um dia a fez rir de forma tão leve, e se perguntou onde ele estava. Seu pai, seu marido a transformaram em um manequim para o mundo, com uma vida em forma de vitrine.
— Claro! — Disse ela, engolindo a vontade de gritar, que ela não era uma boneca a ser colocada em uma vitrine e vendida pela melhor oferta.
Naquela noite durante a madrugada escondida no quarto de hospede, escreveu em seu caderno:
"Não sou mais Melissa. Sou o reflexo de um papel que não escolhi. Mas ainda estou aqui. E um dia, vou me reencontrar...