O céu ainda estava escuro quando o taxi que Melissa pegou na rodoviária de União da Vitoria estacionou diante do portão do centro de instrução militar. O ar da manhã era frio e úmido, e o silêncio do lugar parecia mais pesado que o uniforme que ela ainda não vestia.
Vestia calça jeans, tênis e uma blusa cinza de algodão. O cabelo preso num r**o de cavalo firme. Sem maquiagem, sem joias. Pela primeira vez em anos, ela se sentia leve como se tivesse deixado o peso do sobrenome em casa, consigo apenas tinha um envelope na mão com seus documentos.
Na recepção entregou o envelope a um atendente militar. O sargento de expressão dura folheava os documentos dela com atenção. O ambiente era austero, com paredes pálidas e cheiro de desinfetante de pinho dominavam o ar. Melissa mantinha a postura, tentando parecer invisível e seria ao mesmo tempo.
— Sampaio... — Murmurou o sargento, franzindo a testa. — Esse nome é conhecido, e eu já vi você nos jornais.
Melissa gelou, fingiu não ouvir. Olhou para o relógio na parede, como quem espera pela pergunta que sempre é feita quando é reconhecida, ela esperava ao menos ter disfarçado um pouco a sua aparecia abandonar o tom loiro iluminado que era obrigada a mantes, pela cor natural castanho do cabelo.
— Você é parente do senador Vitor Sampaio?
Ela sorriu constrangida, e respondeu com naturalidade:
— É um sobrenome comum. Tem muitos Sampaio por aí.
O sargento a encarou por um instante, como quem tenta decifrar um enigma e ela soube que ele a reconheceu. Depois, soltou um “hum” e carimbou a ficha.
— Vai ser interessante ver como você lida com a realidade daqui, “Sampaio”.
Melissa assentiu, sem se abalar, ela estava ali e nada no mundo a faria mudar de ideia.
— Com todo o respeito senhor. — Falou firme. — Estou aqui pra aprender.
Ao sair do centro de instrução, o sol começava a nascer. Melissa dirigia com as janelas abertas, sentindo o vento frio bater no rosto. A cidade parecia diferente. Ela também.
Mas ao chegar em casa, a fachada imponente da mansão no Batel a lembrou de onde vinha. O portão se abriu automaticamente. O carro deslizou pela entrada de pedras polidas. E lá estava ele Vitor Sampaio, parado na varanda, com as mãos cruzadas atrás das costas e o semblante fechado como sempre.
Melissa estacionou, saiu do carro e caminhou até ele. O pai não disse nada de imediato. Apenas a observou, como quem avalia um adversário.
— Podemos conversar? — Disse ele, finalmente.
Melissa assentiu, sem emoção, mas nada que o pai falasse a faria mudar de ideia, em uma das mãos havia outro envelope com os documentos do divórcio que ela assinou e fez com que Jairo assinasse também.
Entraram no escritório. A porta foi fechada. O ambiente era silencioso, decorado com livros de direito, fotos emolduradas e uma bandeira nacional em pé no canto, era bonito e de muito bom gosto, mas era frio e sem vida.
— Fiquei sabendo da sua inscrição. — Começou Vitor, direto como sempre. — Você pretende mesmo seguir com isso?
— Pretendo. — Respondeu ela, firme.
— Melissa, você é uma Sampaio. Isso não é uma carreira para você. É uma exposição desnecessária. Já não chega todos os jornais noticiando o seu possível divórcio.
— Eu não estou pedindo permissão, pai. Vim aqui apenas para lhe entregar isso.
Vitor estreitou os olhos.
— E quanto ao seu casamento? Jairo está arrasado e sua irmã, esta internada na clinica com uma crise de nervos. Foi um momento de fraqueza dos dois.
Melissa cruzou os braços.
— Pai, já acabou, eu não quero mais ficar casada com ele. Você sabe disso.
— Não oficialmente. E não vai acabar. — Ele se aproximou, a voz baixa e controlada. — Jairo é importante. Para mim. Para você. Para nossa imagem. Vocês são o casal perfeito. Separar-se agora seria um desastre político.
Melissa respirou fundo. O coração acelerado, mas a voz firme e jogou o envelope sobre a mesa do pai.
— Eu não sou mais parte da sua vitrine política pai. E o divórcio foi assinado.
— Você é minha filha. Isso não muda.
— Mas muda o que eu aceito ser.
Vitor se calou por um momento. Depois, virou-se para a janela, visivelmente irritado.
— Pense bem. Ainda dá tempo de recuar.
Melissa caminhou até a porta. Antes de sair, olhou para ele uma última vez.
— Eu já recuei por tempo demais.
E saiu.
Naquele instante, ela não era mais a filha obediente. Nem a esposa decorativa.
Era apenas Melissa Sampaio.
E estava pronta para lutar por si mesma.