Você me acalma

1142 Words
— Não estou interessado em suas tentativas arrogantes de menosprezar tudo que digo. – Dylan fala sem se virar. Vejo ele organizar algo no armário do grande banheiro em silêncio durante longos minutos. — Peço desculpas se magoei você. – Minha voz sai baixa. – É difícil pra mim acreditar nessas coisas... na verdade é difícil acreditar que estou vivendo isso, que não é um pesadelo e que a qualquer momento irei acordar com meu pai me dizendo que está tudo bem. Dylan me olha em silêncio estudando minhas expressões faciais. Olho para meus pés, ainda era muito difícil acreditar que nunca mais veria meus pais novamente. — Eu ainda acordo todos os dias pensando que o meu pai vai entrar no quarto e dizer que estava me esperando para o café da manhã. – Ri nervosa. – Mas eu sei que isso nunca vai acontecer, que é apenas meu cérebro me torturando diariamente. — Essa tristeza vai diminuir? Essa falta? – O olhei com desespero. – Eu só quero que essa dor vá embora. Eles estão mortos por minha causa, Dylan. Dylan se aproxima em passos largos e segura meu rosto entre as mãos me forçando olhar em seus olhos cor de mel. — Não diga isso nunca mais. – Sua voz é nervosa. – Não se culpe pela morte de sua família, não faça isso com você mesma, Violet! A imagem do sorriso do meu pai ecoa em minha mente, sua voz doce. Seu último abraço. Ele era a pessoa mais doce e gentil com quem convivi; seu amor e carinho eram tão bonitos e comoventes. — Se eu não tivesse ido aquela floresta aquele homem não teria... – Meu suspiro impede de continuar minha fala. – Eles ainda estariam aqui. Sinto o ar faltar em meus pulmões ao lembrar de seu corpo caído, enquanto ele lutava para atrasar o homem, para que eu conseguisse fugir. Até o final de sua vida, ele foi o meu herói; até o último segundo, ele se preocupou comigo. — Não é sua culpa! – Ele fala pausadamente. Nego com a cabeça. – Você sabe que eu é verdade. Ele mesmo disse que eu o convidei. — Violet, você está ouvindo suas palavras? – Dylan ri nervoso. – Isso é loucura! Como você iria saber que isso tudo iria acontecer? Você não pode conviver com essa culpa, isso é ridículo! Sinto meu coração pulsar descompassadamente, cada batida ecoando a perda insuportável. Um aperto intenso no peito quase me rouba o fôlego, e as lágrimas, que antes resistiam, agora escorrem como uma torrente, desenhando o rastro da dor em meu rosto. Meus soluços ecoam pelo banheiro enquanto as lembranças daquele fatídico dia invadem minha mente. Eu jamais os veria novamente, não importa o quanto tentasse. Nada irá trazê-los de volta à vida... e tudo que me resta é conviver com isso. Com a certeza de que eu os matei. Sou surpreendida pelos grandes braços de Dylan me envolvendo em um abraço forte. Nunca pensaria que uma pessoa tão fria e rude como ele seria justamente a mesma pessoa que iria me acalmar em um momento como esse. Demoro a retribuir o abraço; assim que o faço, afundo meu rosto em sua barriga, sentindo minhas lágrimas molharem sua blusa. Meus soluços altos são abafados por seu corpo. Meu grito de fúria é sufocado pela maciez de sua barriga enquanto desfero socos em seu corpo, impulsionados pela revolta. — Vai ficar tudo bem. – Dylan sussurra, me envolvendo com força em um gesto protetor. Pela primeira vez em muito tempo, sinto-me protegida; seus braços transmitindo uma calma que eu jamais imaginaria encontrar na rudeza de Dylan. Ficamos em silêncio por um momento, e eu me pego absorvendo o som compassado da respiração de Dylan. Cada inspiração e expiração parece um eco tranquilizador, como se aquele ritmo fosse capaz de afastar temporariamente as sombras que assombram minha mente. Minha mente começa a se acalmar, assim como minha respiração. Desfaço o abraço assim que me dou conta de que estou fazendo. — Aconteceu alguma coisa? – Dylan pergunta confuso. Seco minhas lágrimas e dou uma risada envergonhada. Eu estava abraçada com Dylan, um homem que eu m*l conhecia e que até a poucos dias atrás não era nem um pouco empático comigo. — Não é nada. – Digo e suspiro. – Estou melhor, obrigada pela ajuda. — Você tem certeza? – Ele pergunta com preocupação. — Estou bem, de verdade. – Sorri envergonhada. Dylan me olha confuso com minha mudança rápida de emoções. — Aliás, Pensei que você só fosse chegar a noite. – Mudo de assunto. — Sim... mas aconteceu alguns imprevistos e acabei voltando mais cedo. – Dylan fala se sentando. Me pergunto mentalmente qual teria sido o verdadeiro de sua viagem e qual imprevisto o fez retornar cedo. Mas deixo esses questionamentos pra trás pois sabia que não tínhamos i********e pra tal conversa. — E você. – A voz de Dylan é firme me assustando. — Eu? – Pergunto receosa. — Me lembro de ter te dado uma ordem direta. – Ele arqueia uma sobrancelha. – Eu ordenei que não saisse de seu quarto, Alaric deveria estar cuidando de você. Sinto as minhas bochechas ficarem vermelhas com seu olhar questionador. Dylan se reclina pra frente impaciente. — Espero que tenha um bom motivo para ter cometido essa insubordinação. – Sua voz sai mais grossa que o habitual. — Eu... bem.. – Gaguejo. Droga, esse seu jeito autoritário me deixava tão irritada que não conseguia pensar em mais nada. Seus olhos me estudavam atentos, uma expressão sarcástica surge em seu rosto. — Estou esperando. – Dylan fala gesticulando. — Alaric teve que resolver algumas coisas e eu fiquei dormindo, mas quando acordei aconteceu uma coisa estranha. – Minha voz sai mais baixa do que pretendia. Observo seu rosto por alguns segundos antes de voltar a falar. — Eu estava dormindo e a Ivy me acordou desesperada. Ela disse que uma pessoa havia invadido a casa. – Gaguejo. — Invasão? – Dylan indaga com desconfiança. – Impossível, nós teríamos sentido o cheiro do invasor antes mesmo que ele entrasse na vila. — E foi isso que deixou Ivy tão perturbada. – Suspiro. – Ela disse coisas que não consegui entender, algo sobre uma magia camuflar ele. Dylan me ouvia em silêncio, como se estivesse analisando minhas palavras e julgando sua veracidade. — Se não acredita em mim, pergunte a ela. – Falo dando de ombros. Dylan se levanta e me olha com uma expressão enigmática em seu rosto. — E eu farei isso.– Sua voz grossa faz meu coração acelerar. Antes que ele saia da sala, Dylan me lança um olhar furioso. — Não pense que vou deixar passar impune essa sua desobediência. – Ele abre a porta. – Não saia daqui ou sua punição será pior.
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