Conectados.
— Gilbert que bom que veio — disse Marilla o recebendo calorosamente com um sorriso.
— Obrigado srta. Cuthbert — ele diz sem graça.
— Me chame de Marilla por favor.
A encaro curiosa, desde quando Marilla se sente tão a vontade com Blythe? Ah lembrei, desde consentir com um relacionamento inexistente, o que foi muito esquisito.
— Vejo que finalmente Anne aceitou — ela desvia o olhar para mim que estou entrando com as coisas em casa.
— Na verdade, ainda não conversamos sobre isso — falo imediatamente — eu estava preocupada demais e decidimos conversar após o jantar.
— Sim — ele completa — ela estava ansiosa demais com esse suposto avô.
— Ainda bem Marilla que você é uma cozinheira de mão cheia, eu seria incapaz de conseguir preparar um jantar digno em menos de quatro horas.
Ela da um sorriso tímido enquanto terminar de ajeitar a porta de casa.
— O que a aflige? — a encaro — você parece estar...
— Preocupada — Matthew atravessa a soleira da porta com o rosto tanto quanto — e se esse homem quiser levá-la?
— Não irá — respondo com firmeza — ele só quer me conhecer melhor e vocês, sempre serão minha família, nada vai mudar — seguro nas mãos deles — eu prometo.
— Olá Gilbert — diz Matthew.
— Olá Sr. Cuthbert.
— Bom, já que Gilbert ficará aqui na cozinha com vocês, vou me preparar para esse jantar.
— Vá, vá. — Marilla me apressa.
Subo as escadas rapidamente e procuro uma roupa decente. Antes do banho é claro. Não posso usar branco, não, definitivamente. Se acontece um acidente eu sou capaz de correr para o celeiro como Matthew todas as vezes que está em um assunto complicado. Pego um jeans escuro, uma blusinha de manga longa vinho com as mangas sutilmente bufantes. Uma sapatilha bege com brilho, discreta porém elegante.
Depois de tomar banho pego meu perfume preferido, eu não usava muito. Somente quando era uma ocasião especial, como o dia em que fui a festa a fantasia. Essência de baunilha. Eu adorava aquele cheiro doce atalcado, que contagiava o ambiente.
Assim que me visto, contorno os olhos com um delineado gatinho, passo o iluminador que Cole me deu em pontos específicos, seco os cabelos e dou uma última borrifada do perfume de baunilha. Me olho uma última vez e estou pronta para sair. Escuto um carro, olho através da janela e lá estava um carro esportivo prata. Sinto cada célula minha reagindo aquela sensação e uma única questão que me deixava muito preocupada. O que aconteceria essa noite?
Abro a porta e meu corpo choca em Gilbert.
— Marilla mandou eu chamá-la.
Ele respira forte, como se estivesse processando o cheiro que estava se apossando do ambiente.
— Essência de baunilha — ele diz com um olhar comparativo.
O que pensar?
Se Roy Gardner é o @naoseievc, provavelmente eu o beijei. E tudo que senti? Meu cérebro estava em colapso por cada possibilidade.
— Sim... Isso te faz record...
Antes do término da pergunta, ele me puxa para perto e me beija. Sua mão apoia em minha nuca e quanto sobre para os meus cabelos meu corpo fica arrepiado, ele para me olha, seu nariz toca o meu e ele novamente me puxa. Sua mão desce em minha coxa e ele me ergue, deslizo as mãos em sua nuca, sinto os pelos arrepiados e ele me prende na parede. Seus lábios deslizam até meu pescoço. Sinto o corpo ferver, meu coração está acelerado e aquela sensação de que eu pertencia a ele flui com intensidade dentro de mim, se ele não era o garoto misterioso da festa, eu não sei mais quem poderia ser. Cada partícula minha acreditava, e a sensação quente dos nossos lábios em contato diziam o mesmo, e a bala, a bala de cereja refrescante, não era coincidência, não era. Óbvio que era o ele.
Paramos de nos beijar, ele se joga na parede oposta e nossos olhares ficam fixos.
— Quando a vi não aguentei — confessa — você está gata demais, ruivinha.
— Então, acho que esta mais do que resolvido esse lance entre nós, Blythe.
Ele sorri. Aquele sorriso maldito.
— Vamos? — ele me dá a mão.
Descemos as escadas juntos, sinto que minhas bochechas estão vermelhas, mas ignoro. Até ser recebida com um elogio muito significativo de Marilla.
— Que blush potente Anne.
Esse blush se chama beijo.
Gilbert desvia os olhos para mim como se esperasse que eu respondesse algo que nos entregaria.
Reproduzo em minha mente cada sensação, o toque, o calor, o envolvimento, a conexão. Certamente eu e Blythe tínhamos algo indescritível, éramos como uma chama incessante, que jamais poderia ser apagada.
Matthew abre a porta, nesse momento vejo John, Rick e uma garota de aproximadamente dez anos. Os três entram, e são recebidos cordialmente, apresento John a Marilla e a Matthew, e os três decidem conversar a sós.
— Rick, vamos — a garotinha atiça — quero conhecer cada canto dessa fazenda.
Estávamos sentados na sala, Gilbert e Rick trocando olhares como se conversassem em silêncio.
— Como se chama? — perguntei a garotinha.
— Ana — ela diz com orgulho — e esse é meu irmão Rick.
Os dois eram muito parecidos.
— Vocês... Moram com o John?
— Sim — ela diz — nossos pais morreram há alguns anos em um acidente.
— Quieta, Ana.
— Deixe-a falar. — peço a Rick que está bastante incomodado.
A garotinha se senta ao lado dele, e fica batendo os calcanhares no sofá como se estivesse entediada.
— Ana, se quiser vir aqui outro dia, eu te mostro toda a fazenda.
— É mesmo? — ela se levanta e me dá um abraço — você é maravilhosa e linda.
— Obrigada — dou uma risada — você é muito gentil.
— Gentil ela não é, mas é sincera — diz Rick.
Gilbert revira os olhos.
Meu corpo fica rígido a cada segundo.
— Hmm.. obrigada — respondo sem graça.
— Qual é? Você vai ficar elogiando a minha namorada assim sem nenhuma descrição?
— Pelo que saiba vocês não são namorados — o loiro retruca.
— Somos — respondo interrompendo — somos namorados, Galle.
A menininha se senta.
— Como você consegue namorar um garoto como esse? — ele diz indignado.
— Você não tem o direito de se opor a isso, você nem me conhece.
— Conheço seu avô, sua linhagem e tudo que você vai perder por estar com um garoto famosinho e egocêntrico.
Eu também achava que ele era egocêntrico. Gilbert tem facilidade em fazer com que as pessoas não gostem dele. Não sei se era por causa do jeito, sarcasmo, sorriso, olhar altamente tóxico e sedutor. Mas ele não era nenhum pouco egocêntrico. Tinha um coração enorme, e muito caráter.
— Eu não sou assim cara, está equivocado — Gilbert protesta em sua defesa — desculpe mas você não tem o direito de falar de mim.
— Não me importo, eu falo o que eu quiser.
— Você merece uma surra, isso sim.
Os dois levantam. Ficam frente um do outro, Gilbert cerra o punho.
— Vamos, faça isso. Mais um motivo para que Anne perceba o quanto não precisa de alguém como você.
— O que? — falo de imediato — você não sabe o que diz Rick.
— Quer saber, eu vou embora — Gilbert sai do centro da sala e caminha em direção a porta.
— Não Gilbert — seguro em sua mão — por favor — me ergo para falar em seu ouvido — eu preciso de você aqui.
— Se esse moleque me irritar.
— Você vai ignorar porque como disse, ele é só um moleque. Venha.
No mesmo instante Marilla aparece na porta e com um olhar de preocupação diz:
— O jantar está servido.