Uma carta inesperada.
— Vá — Gilbert movimenta a cabeça enquanto impede o Sr. Flyn de entrar na lanchonete.
— Como vai Sr. Flyn — ele pousa a mão em seu ombro e antes que eu pudesse ouvir o rumo que a conversa tomaria, sou puxada por Margot.
— Ande logo Anne, se troque antes que ele veja você assim — ela morde o lábio inferior enquanto encara minha roupa de líder de torcida.
Corro para ao banheiro, visto rapidamente minha roupa e pego meu avental, sem dobrar as peças que tirei coloco bruscamente dentro da mochila. Encaro-me, meu cabelos estavam espetados e meu nariz tão vermelho quanto o de um palhaço - obrigada sol.
Assim que cruzo a porta ainda ajeitando a blusa dentro da calça, avisto os dois caminhando no centro do estabelecimento enquanto o Sr. Flyn, mostra cada canto decorado.
— Um ótimo gosto — o moreno encarou-me enquanto afinava os lábios fingindo que aquela conversa estava sendo agradável.
— Anne Shirley — diz o mais velho com a expressão séria — venha cá.
Margot me encara enquanto monta uma sacola de entrega. Caminho imediatamente até o dois, que até então pareciam bem íntimos.
— O nosso garotão aqui quer gravar um vídeo para divulgar a lanchonete.
— É sério? — troco olhares com Gilbert, que por sua vez acredita que estava me fazendo um grande favor.
— Sim, é sério, ruivinha.
O Sr. Flyn admira as palavras de Gilbert e o enaltece com o olhar como se ele fosse, um deus grego seminu.
De onde eu tirei isso?
Reviro os olhos como resposta.
— Será ótimo ter você como um garoto propaganda Gilbert, sabe, eu fico lisonjeada — ergo os ombros involuntariamente procurando alguma palavra que não tenha saído com sarcasmo.
Seus olhos vacilam. Anne e sua facilidade em tornar momentos desagradáveis.
— Anne — Margot chama — preciso de ajuda.
— Com licença.
Vou até ela que está bastante enrolada na cozinha.
— Me desculpe, me desculpe — começo a me livrar da louça que se acumulou na pia — Winifred Rose atrasou junto com suas marionetes, depois o pneu da bicicleta furou, corri por mais ou menos dez minutos até Gilbert aparecer e me dar uma carona, ele deixou Roy no meio do caminho acredita? Eu fiquei tão confusa com o que ele fez que naquele momento ele se tornou minha pessoa favorita, naquele momento apenas — respiro — e agora, fiquei sabendo que todo esse favor dele vai custar uma gravação aqui na lanchonete, você tem noção? As garotas vão frequentar aqui só pra terem a sorte de se encontrar com ele e eu não posso negar que isso me deixa muito...
— Enciumada? — ela sorri irônica enquanto fecha o copo do capuccino.
— Eu não sei — encaro-a.
Seu sorriso se abre deixando a mostra seus marfins reluzentes.
— Seus dentes são lindos — elogio.
— Fala sério Anne — ela pega o copo e sai.
. . .
Por um momento posso acreditar que Margot era a dona de toda razão, por qual motivo a mais eu ficaria tão cheia de ódio por saber que "garotas frequentariam a lanchonete" só por causa dele?
— Você me ouviu? — disse a senhora balançando o guardanapo na direção de meus olhos.
— Estou enfrentando um impasse — desço meus olhos para ela que me encara.
— Sente-se aí — ela pede — vai, conta logo.
— Ficar irada por saber que "garotas" só frequentam lugares por causa de um garoto específico tem algum significado mais profundo?
— Talvez, você fica irada por causa do garoto, ou porque não se conforma em como uma menina com os hormônios a flor da pele pode se rejeitar a isso?
Me sinto confusa, apesar de entender completamente o que aquela senhora quis dizer com aquilo. No mesmo instante, o sino da porta de entrada toca e viro-me para olhar quem era.
Gilbert, o esquadrão das loiras e Roy. Uma entrada lenta, cabelos ao vento, sorrisos falsificados e um belo beijo rápido antes de se sentarem na mesa.
— Não me diga que o garoto é aquele ali.
Me levanto rapidamente passando a mão no avental a fim de distrair-me.
— E aquela garota é a namorada dele.
— Não sei se sinto pena dele, ou se acho bom por todo o seu egocentrismo ser acompanhado por uma garota tanto quanto.
— Não sei se peço um café, ou uma vodka. — ela responde — toda essa cena melodramática me deixou entediada. Me traga algo bem forte.
— Não vendemos bebidas alcoólicas — respondo — pode ser um cafezinho mesmo?
— Com duas colheres de açúcar.
— Ok.
Assim que termino de coar o café e colocar as duas colheres como o desejado, vou até a mesa da senhora coma a aparência bastante jovem.
— Preste atenção, observei você desde que saiu, e só pude notar o quanto ele a procura quando você não está em sua vista.
— É sério? — olho para ele e sinto uma onda de choque atingir-me devido ao contato imediato de nossos olhos.
— Viu? Ele esperava por isso.
— Fantástico — digo com admiração — como sabia que ele estava prestes a fazer isso?
— Eu conheço com certeza um homem apaixonado quando vejo, e certamente aquela garota que preenche todo o egocentrismo dele, não é a dona legítima daquele coração jovem e pulsante.
— Não acho que eu deveria me apegar a isso, bom hoje pela manhã ele foi um pouco rude comigo, tudo bem que depois ele me deu uma carona até aqui pois eu estava atrasada — seus olhos se erguem para mim — e depois, ele se ofereceu para ser o garoto propaganda da loja.
— Você não me parece ser uma garota tão fácil de lidar — ela saboreia o café com classe — certamente ele está buscando formas de chegar até você sem que seja invasivo demais.
— Desde quando Gilbert Blythe se importaria com isso?
— Desde quando ele descobriu que possivelmente tem uma queda por você.
Meu coração palpita forte.
— A senhora acha mesmo que ele...
— Acredito fielmente nisso, minha querida.
. . .
Assim que chego em casa, vou direto para um banho, meu estômago estava vazio e eu precisava muito saciar a fome intensa que me deixava tão nervosa.
— E então como foi o dia?
— Tirando tudo que foi bom, h******l.
Marilla trocou olhares significativos com Matthew, enquanto eu pegava o arroz e o feijão para colocar no prato.
— Precisamos conversar Anne.
Sento encarando-os, deixo o prato no canto da mesa. Marilla segura um pedaço de papel.
— Anne, recebemos uma carta da Nova Escócia.
— E isso significa que...
— Descobrimos que você tem um parente vivo lá, um avô, Josh Linderman.
— Deixe-me ver — peço esticando a mão para pegar o pedaço de papel.
Antes de tudo, quero que saiba que descobri agora sua existência, minha querida neta. Sua mãe fugiu de casa com Walter Shirley há muitos anos, e eu nunca mais tive notícia dela, tempos atrás decidi realizar o sonho de minha falecida esposa, sua avó, saber o rumo que a vida de Bertha tomou, e acabei descobrindo de uma forma bem peculiar que você existia. Através de uma carta, enviada a mim guardada em uma gaveta velha e mofada, a qual eu só tive coragem agora de abrir.
Nela dizia:
Pai, estou indo embora para o meu descanso eterno, mas em meio a esse momento de dor não por deixar esse mundo mas sim, deixar algo valioso nesse mundo, lhe deixo Anne, minha doce e querida Anne, para que o Sr. A ame de todo o coração. Ela é uma parte minha, a qual nunca deverá ser deixada para trás. Assim que eu partir, ela será deixada no orfanato de Saint' albans. Com uma bonequinha de pano, não que isso seja necessário para reconhece-la. Ela é igualzinha a mim.
Sinto a lágrima quente deslizar em minha bochecha. Marilla me abraça, um abraço reconfortante e mais que necessário. Respiro fundo e torno a olhar o pedaço de papel.
Assim que Anne morreu, minha esposa, em meio a minha ira, lembrei-me da carta deixada por minha filha, e me deparei com uma notícia inesperada, mas ao mesmo tempo, o refrigério para minha alma envelhecida e mofada devido as durezas da vida. Após isso, preparei as coisas e corri para o orfanato, mas logo soube que você foi adotada, consegui o endereço e agora estou lhe enviando essa carta. Espero que me responda, com amor seu avô:
Josh Linderman.
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Perdi a fome assim que terminei de ler as doces e sinceras palavras depositadas na folha, a ansiedade me deixava cada vez mais impaciente e depois de uma longa conversa com Marilla e Matthew, eu decidi responder a carta de Josh, meu suposto avô. Aproveitando minha total liberdade em meu quarto, tento pensar em uma forma não muito desesperadora para conhecer minha linhagem, diante disso, sou atingida vagarosamente pelo sono renovador.
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