Capítulo dezesseis.

1381 Words
Surpresas e mais surpresas. Assim que levantei de manhã, senti que o tornozelo já estava menos dolorido, mesmo assim, eu não podia esquecer de que ele estava machucado e enquanto eu não melhorasse, não poderia ficar me aventurando. A festa havia sido bastante esquisita, e ao mesmo tempo, esclarecedora. Eu precisava saber se Gilbert e Winifred ainda estavam juntos, e sai de lá com a resposta, apesar deles... Terem se beijado. Sinto pena dela, e ao mesmo tempo inveja. Eu não podia esquecer do simples fato de que, eu queria beijá-lo também. — Bom dia Anne — Marilla entra no quarto com o olhar inexpressivo — vim lhe trazer mais uma mensagem de seu avô, quero dizer, o homem que diz ser seu avô. Sinto um nó se formar na ponta do meu estômago, eu havia me esquecido completamente de responder a carta dele. Os dias estavam sendo tão corridos e cheios de aventura que eu não pude me sentar e pensar com calma na carta reveladora, apesar de ser um dos maiores sonhos da minha vida. — Como eu pude ser tão distraída? — sinto meu cérebro entrar em colapso — eu me esqueci completamente de responder essa carta. Pego a outra carta e coloco na bolsa. — Vou tirar um tempo do meu café no colégio para ler — respiro fundo encarando a Marilla. Ela somente assente. Era óbvio que estava preocupada com a minha reação e o que acarretaria me entregar aquela carta, queria que ela tivesse a certeza de que, eu era dela desde o dia em que me tiraram daquele lugar deplorável. — Está tudo bem minha querida Marilla — lhe dou um beijo na bochecha — nada vai mudar entre nós. . . . — Isso é tão bonito sabe — Diana diz enquanto enrola uma mecha de seus cabelos escuros no indicador — escrever cartas, eu adoraria ter alguém para conversar por cartas. — Eu acho perfeito, mesmo sendo ansiosa, acho que se eu tivesse vivido no tempo em que tudo era carta, ficaria o dia todo frente a porteira de Green Gables esperando que o homem das correspondências viesse em seu belíssimo alazão marrom com a bolsa de cartas e um sorriso de "finalmente sua carta chegou". Ela morde o lábio. — Tem algo a mais chegando — ela olha para o garoto que caminha com uma jaqueta de couro preta. Suas bochechas estavam avermelhadas e de sua boca saia fumaça por causa do atrito do ar quente com o ar frio. — Como vai Anne? — Vou bem e você, Blythe? Diana em um pulo se levanta e assim que vê Cole e Margot caminhando do outro lado do pátio das flores corre até eles apressada. Meus amigos são ótimos em ser discretos. — Sinto muito por tudo que aconteceu ontem, eu não tive tempo de me desculpar, se que parte da culpa é minha. — Não necessariamente — sorrio — bom, garotas sempre tem o talento em se precipitar quando o assunto é... relacionado a uma amiga. Eu ia dizer amor. — Eu já suspeitava disso — ele ergue os ombros e sem convite se senta ao meu lado — mas você acredita em mim, não é? — No começo eu até diria que não acredito em você Blythe. Mas posso dizer com sinceridade que atualmente está mais fácil de acreditar. Encaro o relógio, tenho que ir para a aula do Sr. Philips antes que ele entre em colapso por causa dos meus atrasos. — Sei que eu disse que não preciso de ajuda, mas você pode por favor me ajudar a ir até a sala do Sr. Philips? — imediatamente ele se levanta e me ajuda a levantar oferecendo a mão. — Sim, é claro — ele arqueia a sobrancelha surpresa — o tornozelo ainda não voltou ao normal? Assim que termino de arrumar minhas coisas, ele pega minha mochila, e passa o braço em minha cintura, me deixando firme. No mesmo instante que ele me puxa, sinto meu coração palpitar. Droga de efeito que ele causa em mim. Nossos olhos se fixam. — Vamos não posso chegar atrasada. Eu não me importava com os olhares que eram lançados para nós, mesmo que eu não achasse bom ser o centro das atenções, estava sendo bom, pois eu estava com ele. Abro a porta da sala com ele ao meu lado, sem sequer bater. E damos de cara com o professor Philips no meio de um beijo caloroso com Prissy Andrews. — O que — solto imediatamente. Gilbert fecha a porta e me puxa sentido oposto. — Eu não acredito que vimos isso — ele encosta em um dos armários com as bochechas ainda mais vermelhas. — Eu acabei de cavar minha própria cova nessa aula — levo as mãos a testa — ele vai me sacrificar, mas eu disse da última vez que cheguei atrasada que eu seria a primeira a chegar. Quem diria que ele e Prissy... Meu Deus eu nem sei o que dizer! Estou tão consternada com o que vi, como olharei para eles novamente sem lembrar daquilo? Gilbert continua com a gargalhada, seus olhos estavam cheios d'água. — Não serei capaz de entrar novamente naquela sala — disparo — vou fazer alguma coisa mas não vou entrar naquela sala. — Então venha comigo — ele segura em minha mão — vou te levar em um lugar que só eu conheço. O que seria um lugar que só ele conhece? — Mas a próxima aula... É da professora Stacy e ela vai iniciar os testes para a competição de química. — Quem disse que o lugar é fora daqui? — ele sorri — venha, vamos aproveitar que não tem ninguém nos vigiando. Seguro em sua mão, e ele novamente me envolve em seu braço para me dar um apoio melhor para andar. Passamos no meio do pátio, atravessamos o corredor da ala leste, caminhamos até a biblioteca, e de repente, ele abre uma das estantes para dentro de um cômodo grande e cheio de desenhos. — O que é isso? — lhe encaro. — Um lugar que meu pai vinha quando era jovem — ele diz — você sabe que todo mundo praticamente estudou aqui não sabe? Assinto. — Ele disse que vinha aqui com Marilla Cuthbert quando eles queriam fugir das aulas. — Marilla fugia das aulas? — pergunto um tanto perplexa — aquela Marilla? Ele concorda com um sorriso de "ops", acabei de entregar que Marilla não é tão certinha assim. Eu me sento em um sofá já velho, porém com as espumas não muito gastas. O local era deslumbrante, apesar da pouca luz, tinha desenhos espalhados nas paredes, desenhos como caricaturas. Dentre elas, tinha uma minha. — Foi você quem fez isso? — pergunto visualizando o papel. — Sim, e esse aqui foi meu pai — ele mostra um desenho da Marilla quando jovem. — Esse lugar é incrível Gilbert. Ele se senta ao meu lado, sua mão tira uma mecha que estava em meu rosto, seus olhos estão mais acinzentados do que verdes, e seus dedos estão quentes. — Diga-me a verdade Anne — ele pede enquanto se aproxima ainda mais de mim — você é a mulher gato, não é? O que custava responder aquela pergunta? Nada. Apesar de para mim aparentemente soar como um insulto. Tudo isso, o lugar, o cavalheirismo, a companhia, para me perguntar se eu era a mulher gato? Então ele não estava interessado em mim, ele estava interessado na possibilidade de a mulher gato ser eu. E se não fosse eu? E se fosse outra garota? Ele me chutaria como se eu não fosse nada para simplesmente correr para os braços da possível garota de cabelos negros e dança perfeita? — Por que você tem tanta certeza que a garota sou eu? — me afasto e seus mãos se desvencilham do meu rosto. Esse era o momento perfeito para um beijo Gilbert, por que você tinha que estragar ele? — Eles estão ali! — a porta abre e Prissy Andrews aponta para mim e Gilbert. Meu corpo ferve quando percebo que o diretor está ao lado deles. — Anne Shirley-Cuthbert e Gilbert Blythe, para a minha sala, agora! A Prissy Andrews, o que é seu está guardado.
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