A sombra que veio de além do mar

1325 Words
O silêncio que ficou na sala após a leitura da carta não era comum. Luna estava trêmula. Um cenário pior que o outro. Uma alma errante de criança controlada por uma dama da água corrompida. Prostitutas sendo assassinadas por um lunático que se achava Deus para julgá-las: Jack, o estripador. E agora esse caso de seres bebedores de sangue. Onde foi que ela se enfiou? No mais profundo poço do inferno, provavelmente. Era um silêncio que respirava. Depois de sentir prazer com Clara, deveria estar relaxada, leve, distraída pelo calor do corpo da valquíria e o sabor dela ainda em sua língua. Mas só veio mais dor de cabeça, como se o prazer tivesse aberto ainda mais seus sentidos para o invisível. Luna manteve o papel entre os dedos por alguns segundos, os olhos presos nas palavras dragão e serpente. Algo nelas vibrava. Como se o pacto dentro de sua alma tivesse reconhecido um nome antigo. A serpente era símbolo de Essex, tangível, heráldica, política, parte do mundo humano e de seus jogos de poder. Ela entendia serpentes. A serpente rasteja, observa, ataca quando necessário. Já o dragão… Era um animal místico. Antigo. Devastador. Um símbolo que ultrapassava reinos e atravessava séculos. Fogo, soberania, tirania, conhecimento proibido. O dragão não se curva. Que dor de cabeça. Massageou as têmporas. Hadria inclinou levemente a cabeça. — Interessante… — murmurou, com aquele tom que não revelava se estava divertido ou faminto. Talvez os dois. Luna semicerrrou os olhos escuros para ele. Eles tinham noções muito diferentes de gravidade da situação. Para ele, aquilo era um jogo novo. Para ela, eram vidas humanas. Clara já estava vestida, embora ainda houvesse algo de vulnerável em sua postura. Seus cabelos loiros estavam soltos sobre os ombros, contrastando com a firmeza de seus braços de guerreira. Aproximou-se da cadeira de rodas de Luna e pousou as mãos sobre seus ombros, muito intimamente, como quem ancora alguém à realidade, e massageou os ombros da jovem que pareciam carregar um fardo invisível. Luna pegou uma mão da mulher e a beijou solenemente. Clara corou. — Transilvânia… e Drácula — disse a valquíria, pensativa, mirando Hadria, continuando a massagem docemente em sua Luna. — Esse nome carrega guerras antigas. Não é apenas um conde… Eu já ouvi esse nome antes em algum lugar… quando estávamos no inferno. Hadria sorriu de lado. — Boa memória, Brunhilde. — Pontuou o mordomo infernal. Caminhou até a janela. A noite londrina pulsava lá fora, envolta em névoa espessa e lampiões a gás que pareciam pequenas estrelas artificiais. — Humanos adoram fingir que seus monstros usam títulos nobres. Esse conde… hm… não passa de um homenzinho patético brincando com poderes que não entende. Mas havia algo em sua voz que não era puro desprezo. Era reconhecimento. Luna dobrou a carta com cuidado exagerado, como se dobrasse uma sentença. — Holmes investigará o sumiço do advogado… e nós investigaremos o monstro. — Nós? — o demônio ergueu uma sobrancelha, teatral. — Minha senhora, a coroa pediu por você. — E eu nunca vou sozinha. — Sua voz saiu firme, apesar do tremor que ainda corria sob a pele. — Você é minha arma mágica … e Clara as minhas pernas. Clara apertou levemente os ombros de Luna, num gesto silencioso de lealdade. Não era submissão. Era escolha. Hadria sorriu. — Ah… como é belo quando mortais falam de escolha… Aproximou-se novamente, parando diante de Luna. Havia algo mais volátil nele agora. Ele a tinha observado fazer amor com Clara. Tinha visto sua devoção, sua entrega, sua coragem. — Sabe o que me incomoda nessa história, minha senhora? Luna ergueu o olhar e arqueou a sobrancelha escura. — O quê? — Um navio não se despedaça sozinho. Diários não falam de monstros se não houver olhos para vê-los. Capitães não invocam Deus à toa. Ele se inclinou, ficando à altura dela. O cheiro de fumaça e algo levemente adocicado o cercava. — Há algo antigo caminhando por Londres… e não fui eu quem abriu essa porta. Seus olhos escureceram. — Estou irritado. Um arrepio percorreu Luna. Não era medo. Era reconhecimento. Desde que fizera o pacto, ela sentia quando algo no mundo tocava o invisível. Como uma corrente elétrica por baixo da pele, como se suas veias fossem fios condutores do sobrenatural. Era como se tivesse ficado mais sensível ao que rasteja entre os mundos. — Você conhece esse tal Drácula? — perguntou Clara, direta. O sorriso de Hadria não se desfez. — Conhecer é uma palavra tão forte… Digamos que já ouvi esse nome sendo sussurrado em lugares onde a luz não chega. Um homem que blasfema contra Deus e age como demônio chama a atenção no inferno. Luna segurou a mão da valquíria. Era como escutar uma história de terror ganhar carne e respiração. Sua vida já era uma sucessão de horrores, mas aquilo tinha um sabor diferente. Algo mais antigo que seu próprio pacto. — Se ele for o que a carta sugere… se houver mesmo algo bebendo sangue em Londres… Ela respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. — Então é meu dever… nosso dever… impedi-lo. Clara agachou-se diante dela, desamparada. — Seu dever não precisa custar mais partes suas. Você tem um pacto. Deixa que Hadria resolva e eu cuide de você, minha adorada. Nada nem ninguém vai te fazer m*l enquanto eu estiver aqui. Eu sou uma guerreira poderosa, eu juro. Apenas deixe que seus servos resolvam. Os olhos de Luna suavizaram. — Eu não vou sacrificar nada dessa vez. — Avisou a Hadria. — Use o que tem à sua disposição. Pare de fazer exigências insanas. Hadria riu baixo. — Vê, Brunhilde? Ela aprende. A valquíria lançou-lhe um olhar cortante. — Não me chame assim. Meu nome nesta vida é Clara. Mas o demônio apenas a contemplou, curioso por aquela nova coragem. Ele estendeu a mão, e por um segundo as sombras da sala se alongaram como serpentes obedientes, deslizando pelas paredes, contornando móveis, lembrando às duas quem realmente comandava os limites do impossível. — Partiremos ao amanhecer. Antes disso, minha condessa, recomendo que durma. — Eu não durmo bem desde que te conheci — retrucou Luna, maldosa. — E ainda assim continua me escolhendo acima de tudo. E aceitando meus presentes… como nossa doce Clara. — Ela não é um objeto para você tratá-la como moeda de troca! — gritou Luna. O ar pareceu vibrar. Houve outro silêncio carregado. A carta sobre a mesa parecia mais pesada do que papel deveria ser — como se estivesse encharcada de presságios. Clara ergueu Luna com cuidado da cadeira de rodas, conduzindo-a em direção ao quarto. Os passos da valquíria eram firmes, mas havia tensão em seus ombros. Antes de sair, Luna olhou para Hadria. — E se esse monstro for pior que você? O que faremos? O demônio inclinou a cabeça. Seus olhos brilharam com algo perigoso. — Então finalmente terei concorrência. — Você e essa sua arrogância maldita… — rebateu a jovem dama, suspirando. — Caso precise de mais poder para lidar com isso, te cederei minha outra perna para que ancore sua energia demoníaca. Contudo… apenas se for realmente necessário. Ela sustentou o olhar dele. — Boa noite, Hadria. Ele sorriu devagar. — Boa noite, minha senhora. Naquela mesma noite, longe dali, na margem do mar, algo se movia dentro de um dos caixões resgatados dos destroços do Deméter. A neblina cobria o cais como um sudário. A tampa rangeu. Foi empurrada para cima com lentidão quase cerimonial. Uma mão pálida emergiu da escuridão. Os dedos eram longos demais, as unhas levemente escurecidas, como se tivessem escavado terra por séculos. O ar da Inglaterra foi respirado pela primeira vez. E dois olhos antigos e vermelhos abriram-se em solo inglês. Olhos que já haviam visto impérios ruírem. Olhos que não temiam demônios. Londres não sabia ainda. Mas havia convidado a noite para morar em suas veias. E a noite aceitara.
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