Sofia Narrando.
Me chamo Sofia Moretti, tenho 17 anos, nascida e criada na Itália, criada só pela minha mãe, que foi uma guerreira até o fim.
Vi a minha vida virar de cabeça para baixo dentro de um mês. Perdi a única pessoa importante para mim, a única que cuidou e me amou de verdade: a minha mãe.
O câncer tirou ela de mim de uma hora para outra e da pior forma possível.
Ela não merecia isso.
Ela sempre lutou para não me deixar faltar nada, trabalhava mais do que deveria para manter as contas, a casa e as minhas vontades.
Não consigo não me sentir culpada por isso. Sempre fui rebelde, sempre exigi demais. Ela não tinha tempo para ela, só para a menina rebelde que ela criava sozinha, e isso me consome por dentro.
Talvez, se eu não fosse assim, teria prestado mais atenção nela, teria descoberto a doença dela quando ainda tinha tempo de tratar.
Mas não, eu tinha que ser assim. Cobrar um pai ausente, do qual eu nunca soube o nome, cobrar por sermos pobres e ela ter que trabalhar, cobrar, cobrar e cobrar por coisas fúteis que hoje eu vejo que não tinham necessidade.
Depois da sua morte, eu vim para Nápoles, a cidade de origem dela, viver sob os cuidados de um amigo dela que sempre ajudou ela em tudo que pôde, até nisso, em cuidar da sua filha.
Conheço ele desde que me conheço por gente. Ele sempre esteve presente. Eles eram como irmãos, por isso eu chamo ele de tio até hoje.
O mundo dele é diferente do nosso, diferente do que eu já vivi ou do que minha mãe conseguiu me proporcionar.
Se eu estou feliz com isso? Não.
Porque, mesmo com todo esse dinheiro e luxos que eu sempre sonhei, falta alguém. Falta ela, e isso, para mim, não significa nada sem a minha mãe na minha vida.
Eu sei que um dia isso vai passar, que é muito recente, e eu vou superar.
Mas, e até lá, eu vivo sozinha e trancada em um apartamento do qual eu só posso sair com um armário do dobro do meu tamanho.
Não perdi só minha mãe, perdi minha liberdade também.
Uma coisa que eu pretendo fazer é fazer a tão sonhada faculdade que minha mãe sempre quis para mim. Escolhi medicina, com especialidade em oncologia, para tratar de pessoas que passam pelo mesmo que minha mãe. Eu cuidei da minha mãe no final, vi o seu sofrimento e tomei essa decisão.
Ela merece que pelo menos isso eu faça certo por ela.
Hoje eu me vejo em um apartamento de luxo, com uma vista linda, empregada e uma conta cheia de dinheiro, mas sozinha.
E agora eu vejo como a solidão é triste.
Minha mãe costumava me dizer que eu tenho espírito livre e que um dia eu iria aproveitar isso. Eu dava risada e falava: com que dinheiro?
Agora eu tenho dinheiro, mas não tenho vontade. Parece que meu espírito livre morreu junto com ela.
Eu sempre gostei de me divertir, curtir a vida, dançar, me aventurar. Sempre tive muitos amigos e homens se jogando aos meus pés, mas nunca passei de beijos. Nunca me senti segura para isso. Minha mãe sempre me alertava que sexo era importante e que, se eu fizesse com qualquer um, eu me arrependeria depois e poderia acabar como ela. Então, coloquei isso na minha cabeça e nunca fiz nada.
Eu tinha um namorado na minha cidade, mas ele ficou para trás junto com a minha vida de antes.
Do mesmo jeito que tenho minhas qualidades, tenho meus defeitos. Sou teimosa e odeio as pessoas que vêm querendo me dar ordens, e, desde que eu cheguei, isso é a única coisa que o tio Hugo faz.
Sofia faz isso.
Sofia não faz aquilo.
Sofia se comporta.
Sofia só sai com Marcos.
Sofia, Sofia, Sofia.
Já estou até cansada de tanto ele falar meu nome. Isso porque já tem uma semana que estou aqui e ainda não saí de casa.
Mas hoje é o dia em que eu vou sair pela primeira vez. Preciso ir à faculdade fazer minha matrícula, mas vou começar só ano que vem. Quero primeiro organizar minha vida e minha mente.
Por mim, eu ia ano que vem, mas o tio Hugo só vai sossegar quando eu fizer isso. Para garantir que eu faça a faculdade, ele me manda mensagem todos os dias perguntando.
Então, resolvi ir logo.
E vou ter que chamar o armário do meu segurança.
Liguei, e ele não atendeu.
Tive que ligar três vezes.
- Fala — ele atendeu.
- Educação é de graça — falei.
- Quem é? — ele perguntou.
- Sofia. Preciso ir à faculdade. Te espero em meia hora — falei e desliguei.
Eu não sei por que, mas eu não gosto dele, e olha que eu gosto de todo mundo.
Tomei um banho e me arrumei. Passou mais de uma hora e ele não chegou.
"Ele só pode estar de brincadeira."
Liguei e ele só me atendeu na segunda vez.
— Está atrasado — falei nervosa.
- Está achando que eu não tenho nada para fazer, pirralha? Vou quando eu tiver tempo — falou.
- Meu nome é Sofia. Se você não chegar em meia hora, eu vou sozinha. Depois você se resolve com o meu tio Hugo — falei nervosa.
- Você pode até tentar sair, mas duvido que consiga — falou e desligou.
"Odeio esse cara, filho da mãe."
E o filho da mãe chegou uma hora depois.
Ele tocou a campainha. Quando eu abri, ele estava com um sorriso no rosto que me deu vontade de pular no pescoço dele.
— Está atrasado — falei, saindo.
— Não me lembro de ter marcado hora com você — falou, me acompanhando.
— Eu te liguei — falei.
— Da próxima vez, avisa um dia antes, para eu poder me programar — falou quando entramos no elevador.
Ele apertou o botão.
— É meu guarda-costas, sempre tem que estar disponível para mim — falei nervosa.
— Não sou seu guarda-costas, estou fazendo um favor aqui, e favor a gente faz no nosso tempo, pirralha — falou sério.
Olhei feio para ele.
"Odeio quando ele me chama assim."
— Não me chama assim — falei nervosa.
Ele abriu um sorriso e deu de ombros.
"Idiota."