Episódio III- Mascarado abusado!

3019 Words
Ando de um lado pro outro. Ele esta demorando. Apollo pediu para que eu o esperasse em seu escritório, enquanto ele ainda conversava com o "garoto da máscara". Esse garoto esconde algo tenho certeza. Consegui fazer com que Bryan permanecesse na academia. Mas ainda não pude conversar com Apollo sobre isso. Argh, que droga eles tanto conversam? Bufo novamente e decido olhar ao redor. O escritório está cheio de livros sobre treinos entre outros. Não gosto de livros, não gosto nenhum pouco. Até por que a maioria gosta de relembrar o Passado. E convenhamos meu passado não é lá essas coisas. Por isso prefiro viver longe de antiguidades. Passo lentamente os dedos pela mesa de Apollo e faço círculos no centro de uma folha branca. Essa espera tá me cansando. A mesa está empilhada de folhas, algumas com inscrições e outras com recomendações da academia. — Pronto agora sou todo seu.— Surge Apollo entrando e fechando a porta atrás de si. Reviro os olhos. Só espero que ele tenha mudado de humor também. Me jogo na cadeira giratória ao lado e o observo sentar na sua cadeira de couro. Após esperar falo: — Okay, vamos direto ao ponto. Por que tá brigando com todo mundo sem motivos? Sorrindo de lado ele balbucia: — Sem motivos, sem motivos? Inclino a cabeça pra trás, encostando-a na parede. — Exatamente. — Que tal, eu sou o dono dessa academia e meu dever é zelar por ela.— Dispara colocando as mãos sobre a mesa e apoiando o queixo sobre elas. Cruzo as pernas e resmungo: — Sim, zelar e não esbravejar em cima de todos como se não dependesse de ninguém aqui. Ele dá um sorrisinho de g**o estampado na cara. — E não dependo. Só dependo de você, por que és minha protegida.— Entorto a boca. Ele tá fazendo seu jogo de persuasão. Sempre faz isso. Tentando me fazer desistir. Mas não vou ceder. Levanto da cadeira e acrescento: — Pra inicio de conversa para de falar e me escuta caramba. Em silencio ele meneia o queixo indicando pra que eu continue. — Bem, você ataca todo mundo. Chamou o Bryan de inútil coisa que tecnicamente eu não concordo, poxa foi sem querer aquilo e não me machuquei tanto assim... Não sou uma bonequinha, tou acostumada com as porradas que a vida dá. E e outra por que fica tão agitado quando lembra que tenho uma luta hoje? Está com medo que eu perca é isso?— Quando pergunto ele suspira. Fico ainda mais curiosa. —... Nunca, você é boa e não duvido de sua capacidade... Agora, sou assim pequena e todos me conhecem. Já deveriam estar acostumados e isso inclui você também. — Responde com desdém. Bato forte na mesa e todos os livros caem ao chão. Apollo arregala os olhos assustado. — Sim eu sei, mas não precisa ser um babaca presunçoso.— Rebato virando pra porta. É ele não tá afim de conversar e eu sem paciência. Mas ao perceber que vou embora diz: — Espera... Vou te dizer por que estou assim... Me dá só alguns segundos pra respirar... — Viro rapidamente pra ele. — O engraçado é que eu te dei mais de "segundos", você ficou aqui com aquele "mascarado" mais de horas...— Dou ênfase em mascarado. Não sei se irritado ou nervoso, mas seus movimentos se iniciam primeiro ele coça a nuca sem parar e depois leva as mãos ao rosto. — Tudo bem...— Diz fechando os olhos e os abrindo — Essa garota que vai lutar com você participa da academia da Europa... Seu treinador é Kane um dos meus antigos rivais... Sua voz está baixa, mas não deixa de ser intrigante. — Sim e dai? Se lutamos é óbvio que teremos rivais, normal também Apollo.— Acrescento franzindo o nariz. — Pequena me escuta, porra.— Rosna de cara amarrada. Aperto a boca e murmuro: — Desculpa. Respirando e amassando um papel pra se distrair fala: — O fato é quando jovem eu lutava com ele e ele sempre perdia. Era pra ser só na diversão sabe. Todos me elogiavam por isso, já que ninguém conseguia derrotá-lo. Mas eu lutava sem raiva no coração entende? Pra mim era só um jogo e nada mais importava... Espero que ele continue, mas ele apenas olha pro chão, como se as lembranças estivessem passando por seus olhos. — Continua Apollo, por favor.— Decido sentar na cadeira. Ele levanta o olhar pra mim e esboça um meio riso. — Bem, já tinham me dito que ele estava irritado com isso e como "m*l perdedor" ele queria revanche. Eu estava todo feliz...— Suspira e amassa outro papel— Eu sorria e dizia que estava ganho que por mais que ele quisesse nunca me ganharia...Tu sabe todos os lutadores são assim. Basta sentir o gosto da vitória que pronto, parece que tudo gira ao nosso redor. Confirmo com a cabeça, sei bem o que ele tá falando. Me sinto assim quando venço. — Hum... Sei como é. Segundos depois diz: — Então como um merda que eu era, aceitei a p***a da luta. Na época eu tinha uns quinze ou dezesseis anos não sei bem. Como combinado Kane me esperava no ringue, na verdade era mais um vale tudo. Onde já tinham umas duzentas ou mais pessoas. Fico boquiaberta. Duzentas? — Caraca, todos a espera dessa luta? Com um sorriso de orelha a orelha, comenta: — Pois é pequena, antes as lutas eram mais clássicas sabe. Sorrimos um pro outro e ele continua: — m*l começou a luta eu já estava ganhando, dava tantos socos em Kane que ficava impossível contar... Mas de repente, enquanto eu levantava os braços e sorria pra todos que me olhavam, aquele maldito me golpeou... Foi tudo tão rápido... Ele simplesmente puxou meu pescoço e iniciou suas séries de chutes, murros, fazendo o uso do bloqueio eu consegui proteger apenas meu rosto... Tinha caído de costas no chão e doía muito. Tentava levantar mas não conseguia...— Vejo algumas lágrimas querendo escapar de seus olhos, mas ele logo as limpa com a costa das mãos. Homens e seu grande ego. — E então Apollo, e então?— Me odeio por pressionar ele assim, mas a curiosidade em mim não tem tamanho. — Perdi né pequena. Acordei no hospital e tudo parecia bom, mas ao entrar a doutora disse uma coisa que mudou a minha vida pra sempre.— Responde olhando pras mãos. Me aproximo dele e toco em suas mãos. Entrelaço as mesmas e permanecemos assim. — Eu não poderia lutar, nunca mais... Aquele i*****l feriu feio minha coluna vertebral. É o que eles chamam de fratura por explosão... Me sinto bem, mais não é mais a mesma coisa. Tive que passar por cirurgias pra que pudesse sequer andar e por isso eu não poderia continuar nem se quisesse.— Sua voz embargada ecoa na sala inteira. Fico em silêncio. Ele nunca me contou sobre isso. Já tinha percebido algo realmente diferente em sua coluna principalmente quando anda meio torto, mas essa noticia me deixou ainda mais preocupada. Posso imaginar sua raiva diante desse Kane. Esse cara é mesmo barra pesada. Não sobreviveria se faltasse em uma de minhas lutas. — Oh... Me desculpe por te obrigar a desenterrar seu passado Apollo... Suas mãos tocam meu rosto e ele fala: — Não pequena, eu já deveria ter contado a você. — Mas ninguém viu o que ele fez? Você não fez nada contra ele, nenhum processo? Soltando um longo suspiro intervém: — Não tinha como. Na época ninguém se importava, se você morresse ou se terminasse como um inválido feito eu. Até por que a própria policia estava lá na hora e não fez nada.— Afirma cerrando os dentes. Faço o mesmo. — Sinto muito... — Tudo bem, foi bom desabafar com alguém e ele veio aqui alguns anos atrás também, antes de você entrar e bem antes de te conhecer eu tinha uma lutadora ótima, Lohana era seu nome. Ela era boa, assim como você... E Kane queria competir novamente. Engulo em seco. Novamente? — Espera, mas você não podia...— Digo-lhe nervosa. — Não comigo pequena, mas com a Lohana. Engulo em seco. — Acredite se quiser, ele também treinava jovens e trouxe uma garota ruiva. Seu nome era Tina Sánchez. Uma tremenda mulher, claro que eu acreditava em Lohana, elas duas eram demais. Só que no fundo eu sentia que algo estava prestes a acontecer. Kane não joga limpo... Foi quando no meio da luta Tina aproveitou a oportunidade e deu um chute nas pernas de Lohana.— Franzi o cenho enquanto fala. — Sim, normal isso.— Arqueio as sobrancelhas. Já dei chutes e levei chutes também. Isso nunca me impediu de nada. — Não pequena, não é normal... E se era pra ser não foi.— Grita dando um soco na mesa. Me assusto. — Calma Apollo... Ele levanta da mesa e bufa várias vezes. — Ela quebrou as pernas da Lohana. Literalmente... Acabou com o sonho daquela garota— Arregalo os olhos — Por isso toda essa minha agitação. Esse meu nervosismo. Por que eu sei que o Kane quer a todo custo ser melhor que eu. Sei disso e ele usará você dessa vez.— Pisco suspirando. Se aproximando de mim Apollo me abraça apertado. Quebrar? Como assim? A não ser que seu chute tenha sido proposital e em seu sapato tivesse algo metálico. Fico pensativa. — Já disse que te desculpo por tudo Apollo...— Murmuro pela milésima vez e ele sorri me apertando em seu abraço. Depois de conversar sobre seu passado nada bom e sobre seus rivais. Decidimos parar e com um esforço ele prometeu que tentaria mudar seu temperamento. Mas algo bem dentro de mim me impedia de acreditar. — É pequena eu sei mas...— Solta hesitante e coça a nuca. Abro um riso brincalhão. — Mas se você quiser realmente se desculpar deve fazer isso com todos aqui e principalmente com Bryan.— Ele joga a cabeça pra trás e arregala os olhos. —... Até com ele? Bufo. Ele não tá levando a sério. — Ah, qual é Apollo. Poxa tu sabe que foi errado o que tu fez cara.— Falo cruzando os braços e ele os desfaz sorrindo. — Okay, okay não discuto mas... Onde que ele tá mesmo?— Pergunta abrindo a porta e girando os olhos pela academia. — Ficou sentado no ringue... Mas Apollo.— O chamo e ele suspira cansado. — Que foi agora pequena?— Levanta os braços em rendição. — Tenta pedir com carinho por favor.— Aviso dando um tapa de leve em sua cabeça. — Ei, eu sei ser carinhoso tá mocinha. Aliás se tem um cara carinhoso esse alguém sou eu.— Gargalho do seu jeito de falar. Com ele não tem como ficar irritada. Não o tempo todo. — Hum-rrum sei.— Ele ri e saímos os dois do escritório abraçados. Logo de cara olhamos Bryan sentando no ringue. Ele respira fundo e murmura alguma coisa indecifrável. A forma como sua cabeça meneia de um lado paro o outro cabisbaixo. Me deixa triste. Ele ama o que faz. Bato nos braços de Apollo. — Lá está ele... E oh. Tou de olho em você.— Acrescento segurando um riso. — Chá comigo pequena. — Diz piscando pra mim— E só um aviso, se eu ver você rindo... — Jamais.— Prometo cruzando os dedos e os beijando. Ele balança a cabeça negativamente e se afasta indo até Bryan. Quando se aproxima senta-se ao lado de Bryan e suspira. Iniciando suas desculpas. De onde estou fica impossível ouvir, mas ao observá-los sei que tudo vai dar certo. — Não acredito no que meus olhos estão vendo.— Diz Helena saindo de sua mesa de queixo caído. — Pois acredite Helena. Apollo está pedindo desculpas.— Respondo sem tirar os olhos dos dois a minha frente. — É, só alguém com um poder surpreendente como você pra mudar esse grande homem. Parabéns. — Sorrimos uma pra outra e ela volta pra recepção. Finalmente entre a conversa vejo os dois ficarem de pé e sorrindo se abraçarem. Suspiro aliviada e vejo uma silhueta conhecida se aproximar. Bufo o identificando. A máscara em seu rosto brilha sobre a luz fraca. Argh o que ele ainda faz aqui? Semicerro os olhos e finjo não o ver se aproximando de mim. Pensei que já estivesse longe daqui. Mas talvez o ignorando ele desista e se afaste. Pelo menos era o que eu pensava. — E então qual o "lance" entre vocês dois?— Pergunta usando aspas em "lance" e olhando de Apollo pra mim. Depois sorri com desdém. Pisco incrédula. Que i****a. — Quê?— Viro pra ele e o olho feio. Mas ele apenas ri. Olha-me nos olhos e eu desvio o olhar. — Vocês ué. Ele faz tudo o que você quer, só acho ele velho demais pra você... Quando vão casar?— Continua se escorando na parede. Fecho o punho. Como ele ousa pensar em algo assim? — Eu não... Eca. Apollo não vai casar comigo... Ele suspira e após revirar os olhos fala: — Hum... Então é só o lance de "ficar". da hora. Calma Ruby. Mesmo querendo assassiná-lo friamente. Limito-me a respirar fundo. — Se não quiser morrer, é melhor parar de falar merda.— Murmuro cruzando os braços. Levantando as mãos em rendição diz: — Foi m*l gata... Não sabia que você só conversava com ele.— Provoca mantendo seu sorriso de zombaria. Meus pensamentos ganham vida e sem perceber estou segurando sua camiseta. — Argh... Não tenho nada com Apollo, ele é como um pai pra mim... E juro que se me chamar de gata você vai ter seus olhos arrancados em menos de cinco segundos.— Aviso o encarando e puxando forte sua camiseta. Apesar de não poder olhar seu rosto vejo seus olhos arregalados. Não esperava por isso né i****a? Ele engole em seco e esconde as mãos nos bolsos. Imagino que seja sua forma inútil de pedir desculpas. Respiro fundo e o solto bruscamente me afastando em seguida. Que ignorante não sabe das coisas e fica inventando. Odeio gente assim. Pessoas que julgam pelo simples fato de não te conhecerem. Quer falar de mim? Pois saiba pelo menos minha vida, p***a. De esguelha vejo Apollo e Bryan se aproximarem. Os dois estão sorrindo, mas ao notar minha expressão nada feliz. Ficam sérios. Apollo percebe minha irritação e toca nos ombros do "s*******o" do lado. — E então Collins vamos almoçar? — Pergunta sorrindo e ele apenas confirma com um movimento de cabeça. Ah, então seu nome é Collins? Ou sobrenome? Ah, tanto faz não me importo. Ele pode ficar o tanto que quiser aqui. Posso ignorar sua presença desnecessária. Com tanto, claro que não ultrapasse as minhas barreiras e queira aproximidade. Eu só não esperava que Apollo também me convidasse. — Ah pequena qual é. Serão apenas alguns minutos e garanto que você nem vai notar a presença dele.— Sugere apertando levemente minhas bochechas. Reviro os olhos. "O mascarado" só esta a alguns metros de distancia brigando com alguém pelo celular. Após uma longa pausa ouvindo a pessoa do outro lado da linha, ele anda de um lado para o outro e dá alguns murros na parede. Depois encosta a testa sobre a mesma. Arqueio as sobrancelhas enquanto o observo. Com quem ele está falando? Por que está tão irritado? E por que diabos estou preocupada com ele? Bryan teve que sair com urgência parece que sua esposa não estava se sentindo bem. E fico feliz por ele sair as pressas por seu socorro. Queria alguém assim. Quer dizer não que eu pense em Genna o tempo todo. É claro que se torna impossível não pensar nessa mulher. Mas sofro com isso. Saber que alguém tem sua familia e que ao contrário de ir almoçar ao lado de um garoto mascarado abusado e seu treinador impulsivo. Esta nesse exato momento com sua familia sorrindo e jogando conversa fora. É no mínimo frustrante. Eu adoraria ouvir histórias antigas sobre meu passado e ter dois ou sete irmãos para brigar por qualquer coisa. Não me importaria nem um pouco em ter a casa cheia de bagunça. Abraçaria meus irmãos e beijaria meus pais. Meu pai. Será que algum dia irei descobrir quem ele é? — Ei pequena... Tá tudo bem?— Indaga Apollo passando as mãos por minha franja e a escondendo atrás da orelha. Abraçaria meus irmãos e beijaria meus pais.— Relembro. Pisco voltando a realidade. — Claro que tá Apollo... Por que não estaria? Ele franzi o cenho e entortando os lábios retruca: — Então por que está chorando? Rapidamente passo as mãos por meu rosto e o sinto úmido. Sem querer solto um pequeno soluço seco. Droga. Meus olhos ardem. Não sabia que imaginar uma "familia feliz". Fosse tão intenso assim. Ao me ver confusa Apollo balança a cabeça negativamente e me ajuda a limpar meu rosto com o dorso de sua mão. Ele sabe que não gosto de falar quando estou sensível. Isso me irrita. Então se limita a me fazer perguntas. Fico grata por seu silencio repentino. É simplesmente tranquilizador. A contra gosto resolvi aceitar o convite para o almoço. Até por que mesmo que eu não aceitasse, era provável que Apollo me carregasse nos braços até o local. Ele já fez isso antes. Mas logo que aceito me arrependo imensamente. Se eu sabia que iria me arrepender por ter aceitado ir almoçar com Apollo e o mascarado? Sim eu sabia. E se sou maluca em ter aceitado o convite? Sim, sou maluca. Mas por algum motivo a i****a aqui pensou que seria um almoço em silêncio e que apesar de me irritar jurei pra mim mesma que aquele infeliz se manteria calado. Engano meu. — Hum... Quer dizer então que ela luta?— Faz mais uma de suas perguntas relacionadas a mim e Apollo ri ignorando minha presença.
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