Capítulo 1 - Entre o Dever e o Desejo

812 Words
O céu de São Paulo amanhecia com o cinza habitual, mas para Miguel Castro, herdeiro de um dos maiores impérios empresariais do país, o dia já estava programado até o último minuto. Aos 32 anos, Miguel carregava sobre os ombros o peso do sobrenome e das expectativas que vinham com ele. Sua vida era medida por contratos, alianças estratégicas e obrigações sociais — e não por escolhas próprias. Naquela manhã, o relógio marcava 7h45 quando ele entrou no elevador privativo da sede da empresa. Vestia um terno sob medida, impecável, mas por dentro se sentia sufocado. O casamento arranjado com Isabela Azevedo estava marcado para dali a poucos meses, fruto de um acordo entre famílias que movimentaria milhões em negócios. Sua mãe, Helena Castro, fora a idealizadora de tudo. Uma mulher elegante e calculista, conhecida por nunca dar um passo sem que tivesse vantagem garantida. Para ela, o casamento de Miguel não era uma questão de amor — era sobre poder, status e a fusão entre dois impérios. Para ele… era apenas mais uma prisão dourada. --- No elevador, Miguel pegou o celular por inércia. Abriu a sua rede social e começou a deslizar pelas imagens sem realmente vê-las: iates ancorados na Riviera Francesa, cachorros miniatura em bolsas de grife, taças de champanhe que valiam mais do que um carro popular. A rotina fútil da elite à qual pertencia. Até que algo chamou sua atenção. Um perfil de fofoca econômica, chamado Mercado&Malandragem, postara um story: "Herdeiro bilionário avistado sozinho numa cafeteria do centro hoje de manhã. Longe de motoristas? Longe de gravatas? 👀" A foto, tirada de costas, mostrava um homem de terno escuro sentado próximo ao balcão. Ao lado de um copo de café, estava escrito, com caneta preta, o nome Miguel. Ao fundo, desfocada, uma figura feminina de avental servia um cliente. O coração de Miguel deu um leve sobressalto. Ele se reconheceu de imediato na imagem. E reconheceu também a cafeteria: era o pequeno refúgio que frequentava sempre que precisava fugir da pressão de sua realidade. Mas a mulher de avental… ele não sabia quem era. E, por algum motivo, não conseguia tirar os olhos daquela silhueta captada de forma quase acidental. --- Naquela mesma manhã, a vida de Ana estava em movimento muito diferente. Ela acordara antes do sol, como fazia todos os dias, para abrir a pequena cafeteria onde trabalhava havia dois anos. Aquele emprego não era apenas o sustento dela, era também o espaço onde podia sonhar acordada entre o aroma do café e o burburinho dos clientes. A rotina era puxada, mas Ana tinha um jeito de transformar o trabalho em algo caloroso. Conhecia pelo nome a maioria dos clientes fixos e sempre lembrava o pedido favorito de cada um. Miguel era um desses clientes. Ele aparecia de vez em quando, geralmente sozinho, sempre discreto, e pedia um café simples — nada de extravagâncias. Ela nunca conversara muito com ele. No máximo, trocavam um “bom dia” e um sorriso educado. Mas Ana percebia algo naquele homem que destoava dos outros engravatados que passavam por ali: um certo peso no olhar, como se carregasse mais do que deixava transparecer. --- O dia seguiu como qualquer outro, mas a postagem no i********: viralizou. Comentários curiosos se multiplicavam: — “O que o príncipe dos negócios estava fazendo num lugar tão simples?” — “Será que ele está escondendo um romance secreto?” — “Quem é a mulher do avental?” Miguel tentou ignorar, mas, no fundo, aquela foto o incomodou. Não por expor sua presença na cafeteria — ele não ligava para isso —, mas porque sentiu que, de alguma forma, aquele instante congelado escondia algo que ele não conseguia explicar. --- À noite, durante o jantar com a mãe, o assunto surgiu. — Vi que você foi ‘flagrado’ numa cafeteria, Miguel — comentou Helena, com um sorriso cínico. — Espero que não esteja se envolvendo com ninguém… inadequado. Ele pousou os talheres e a olhou, sério. — Era só um café, mãe. — Um café pode se transformar em muito mais — rebateu ela, com o tom carregado de advertência. — E você não pode se dar ao luxo de… distrações. Miguel respirou fundo, sem responder. Estava acostumado a esse tipo de controle velado. Helena sempre deixava claro que, para ela, tudo e todos eram peças num tabuleiro de xadrez — e ele era o rei que não podia se mover sozinho. --- Deitado na cama naquela noite, Miguel abriu novamente a foto. A mulher de avental, mesmo borrada, tinha algo que chamava sua atenção. Ele se perguntou se voltaria à cafeteria nos próximos dias, só para ver se a encontraria novamente. O que ele não sabia era que, ao fazer isso, estaria dando o primeiro passo para uma sequência de acontecimentos que mudariam completamente o rumo de sua vida.
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