Ana chegou em casa exausta, como se tivesse carregado o peso de anos em poucas horas.
Dona Joana abriu a porta com Gabriel no colo.
— Mamãe! — o menino correu para abraçá-la.
Ana se agachou, escondendo o rosto no pescoço dele por alguns segundos, tentando disfarçar a vontade de chorar.
— Você está triste? — perguntou Gabriel, com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo.
— Não, meu amor. Só cansada da viagem.
Ele a olhou desconfiado, mas não insistiu. Correu para mostrar um desenho novo, enquanto Ana se levantava e ia até a cozinha, precisando respirar sozinha por um instante.
A imagem de Miguel no meio da calçada, a poucos passos dela, ainda queimava na memória.
Ela quase o chamou. Quase contou.
Mas o anúncio do casamento foi como uma porta fechada na sua cara.
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Enquanto isso, em seu apartamento em São Paulo, Miguel jantava sozinho.
O celular vibrava com mensagens de Isabela sobre convites, degustações e listas de convidados.
Ele lia, mas não respondia.
Sua mente voltava, insistentemente, para a matéria da revista… para o rosto de Ana e para o menino ao lado dela.
Nos últimos dias, algo dentro dele começou a incomodar de forma diferente.
Uma sensação estranha, como se tivesse perdido algo importante há muito tempo… e que talvez ainda pudesse encontrar.
Ele fechou os olhos por um momento.
Será que estava realmente pronto para casar com Isabela? Ou será que estava apenas cumprindo uma promessa silenciosa feita à mãe, como um filho obediente que ignora o próprio coração?
Do lado de fora, a cidade seguia barulhenta, mas dentro dele, havia um silêncio pesado — tão pesado quanto o de Ana, a quilômetros dali.