Miguel não pregou os olhos naquela noite. O celular de Isabela, a notificação, as palavras que ele não conseguia tirar da cabeça… tudo girava como um peso sufocante. Ele sabia que, se fosse confrontá-la novamente, ouviria apenas mais desculpas bem ensaiadas. E a pior sensação era a de que ela estava sempre três passos à frente, controlando o jogo.
Ele precisava de respostas. Mas, mais do que isso, precisava de provas.
Na manhã seguinte, saiu antes do café da manhã. Não vestiu terno, apenas uma camisa simples e jeans — queria se misturar na multidão. Disse a Isabela que teria uma reunião fora da cidade e só voltaria à noite. Ela apenas assentiu, sem levantar os olhos do celular.
O trânsito matinal parecia mais lento que o normal, mas Miguel m*l percebeu. Sua mente estava tomada pela imagem da notificação: “Confirmar se deseja manter o nome do pai como Miguel Castro ou se será removido.”
Cada vez que pensava nisso, um frio percorria seu corpo.
Ele parou diante de um prédio antigo, de fachada discreta, no centro da cidade. Não havia placas chamativas, apenas uma pequena plaquinha dourada: Duarte Investigações.
O escritório era modesto, mas organizado. Atrás de uma mesa de madeira escura, um homem de meia-idade, cabelos grisalhos e olhar afiado, o aguardava.
— Sr. Castro — disse o homem, levantando-se. — Sua mãe já recorreu aos meus serviços há alguns anos.
Miguel não se interessou por detalhes passados.
— Quero que descubra tudo sobre a gravidez da minha esposa — disse, indo direto ao ponto. — Consultas, médicos, exames… quero saber cada passo, cada detalhe.
Duarte entrelaçou os dedos sobre a mesa, observando Miguel como se tentasse medir o peso do pedido.
— Imagino que a senhora sua mãe não deva saber disso.
— Ninguém deve saber — respondeu Miguel, firme. — Se minha mãe souber antes da hora, isso vai virar uma guerra dentro da família.
O detetive recostou-se na cadeira.
— Entendido. Preciso de endereços, rotinas, e, se possível, o histórico de consultas ou exames que você já tenha.
Miguel tirou um pequeno pendrive do bolso.
— Aqui está tudo que consegui. Agenda de compromissos, registros de mensagens, até fotos das receitas médicas. Algumas informações talvez sejam inúteis, mas qualquer detalhe pode ajudar.
Duarte pegou o dispositivo como quem recebe uma peça rara de um quebra-cabeça.
— Vou cruzar isso com registros de deslocamento, câmeras e informações internas de clínicas. Preciso de duas semanas. Posso entrar em contato diretamente, sem deixar rastros.
— Faça como achar melhor — disse Miguel, levantando-se. — Mas quero saber de tudo, não importa o que for.
Quando deixou o prédio, o vento frio bateu contra seu rosto, trazendo uma estranha mistura de alívio e peso. Alívio, porque finalmente havia dado um passo concreto para sair da incerteza. Peso, porque no fundo sabia que cruzar aquela linha significava que algo sério já estava acontecendo.
No carro, estacionado a alguns quarteirões, ficou alguns minutos com as mãos no volante, olhando para o nada. Parte dele torcia para que Duarte não encontrasse nada de errado, para que tudo fosse apenas um m*l-entendido. Mas a outra parte… a outra parte já se preparava para encarar verdades que talvez não quisesse ouvir.
Do outro lado da cidade, a vida corria em outro ritmo.
Ana, em seu avental impecável, colocava um cappuccino sobre o balcão de sua cafeteria. O aroma de café fresco e pão de canela se espalhava pelo ar. Clientes riam, conversavam, e ela, com um sorriso profissional, circulava entre as mesas.
Ela não tinha ideia da tempestade que se formava na vida de Miguel — ou talvez preferisse não saber. Seu mundo já tinha complicações suficientes.
À noite, Miguel voltou para casa e encontrou Isabela sentada na sala, folheando uma revista de decoração infantil. Ela levantou os olhos, abriu um sorriso automático e disse:
— Já pensei em alguns temas para o quarto do bebê. O que acha de tons claros e móveis de madeira?
Miguel apenas assentiu, sem entrar na conversa. Enquanto ela falava sobre cores e cortinas, ele estudava cada movimento dela. A forma como desviava o olhar, como tocava a barriga, como mudava de assunto sempre que a palavra “exame” surgia.
No fundo, já não via Isabela apenas como esposa. Via-a como um enigma perigoso — um quebra-cabeça que ele precisava decifrar antes que fosse tarde demais.
E agora tinha um aliado nas sombras.