CAPÍTULO 16

1112 Words
As paredes escuras me saudam quando empurro a porta vigorosamente para abri-la. O quarto sombrio se ergue diante de mim, com marcas de sangue seco no chão, visíveis através da luz que passa pelo corredor, já que o quarto não possui janelas nem luz própria. Meu sangue. Memórias giram em minha mente quando entro na sala. ** Não sei há quantos dias estou aqui, só sei que estou com muita fome. Já ouvi a mãe discutir com o pai para me deixar sair, mas o pai acaba sempre por lhe bater. Eu gostaria de ir até a porta e falar com a mamãe, mas a algema no meu tornozelo me impede de fazer isso. Além disso, os pregos embutidos na porta não me permitem abri-la, só meu pai pode abri-la de fora. Abraço o bichinho de pelúcia no peito, um urso de pelúcia que costumava ser branco, mas está sujo e cheira m*l, mas não o solto. Vozes começam a ser ouvidas nos corredores, então me encolho o máximo que posso na porta, mas sei que ela está aqui e sei o que está por vir. Meu pai abre a porta e vem com um amigo. De novo não, não, não, não. — Para que serve lindo? — É, Higor Vons, muito bonito. Meu pai vem, puxa meu braço com força e me levanta. Minhas pernas estão tremendo, não conseguem suportar meu peso, estou com fome e exausto. — Chegue mais perto, pequenina. — O amigo do papai pergunta. — Mamãe diz que nenhum homem pode me tocar — minha voz treme, deixando o pânico fluir. — Sua mãe é muito inteligente — ri o homem — Mas só porque não posso tocar, não significa que não possa ver, não é? Sua língua nojenta hidrata seus lábios enquanto ele passa seu olhar faminto sobre meu pequeno corpo. Aperto o urso firmemente contra meu corpo quando sinto que ele treme de pânico. — Obedeça ao homem, Lyra, ou vou bater em você, e não queremos isso, não é? Tremo rapidamente e, com um suspiro, solto meu urso, que cai no chão, e começo a desabotoar minhas calças sob o olhar atento do amigo do pai. ** Continuo olhando para a parede, com o maldito urso nas mãos, a parede tem arranhões que lembro de ter feito com minhas mãozinhas quando tentava escapar das surras do meu pai, a vontade de vomitar se acumula no meu estômago quando lembro do olhar daqueles homens. A porta cheia de pregos. O tubo de metal com o qual meu pai me bateu no estômago no canto da sala. Todos os potes de vidro cheios da cidra nojenta que ele se preocupou em fazer. A manilha estava presa à parede, que eu sempre colocava no tornozelo. Maldito filho da p**a. Pego o tubo de metal em minhas mãos e o esmago contra os potes de vidro, que estouram e enchem as paredes com cidra barata. Quebro tudo, todos os potes, todos os malditos quadros presos nas paredes. Quando termino, solto o tubo e volto, com o olhar fixo na manilha do chão, não percebo os três corpos na entrada da sala olhando para mim, até colidir com um dos corpos. — Você está melhor? — Jak pergunta. Aceno fracamente com a cabeça. — O que é esse lugar? — Kacel questiona, entrando na sala, olhando tudo com seus olhos curiosos. Responderei e ao mesmo tempo não, a minha mente brinca comigo a lembrar-me do olhar lascivo dos amigos do pai. Não afasto o olhar do centro da sala, agora repleta somente de potes e fragmentos de vidro. Em vez disso, vejo uma menina de doze anos em prantos, com as mãos amarradas atrás das costas, ajoelhada no chão completamente nua, enquanto o pai da amiga se masturba diante dela e lhe narra as mais terríveis enfermidades. Vejo como a menina chora e tenta fechar os olhos, esperando que passe rápido. — Lyra — Alguém me liga, mas eu não escuto. Aperto o urso com força nas mãos. Lembro-me da sensação de nojo no meu corpo quando os caras foram embora, lembro-me de me sentir suja mesmo quando eles nunca me tocaram, lembro-me de como era difícil para mim olhar meu corpo nu no espelho porque só encontrava a aparência dos amigos do meu pai nele. Lembro-me do chão manchado com suas ejaculações que ninguém nunca se preocupou em limpar e tentei não me movimentar muito pela sala porque me enojava pensar em tocá-lo por engano. — Meu quarto. — Minha voz é somente um suspiro enquanto respondo à pergunta anterior, embora eles me ouçam perfeitamente. Sinto os olhos dele me observando. — Você dormiu aqui? — Papai me trancou aqui quando trouxe seus amigos. Kael cerra os punhos, seus olhos se voltam para a algema na parede e depois para a porta cheia de pregos. Orion também entra na sala, onde olha para as manchas de sangue seco e o maldito ursinho de pelúcia. — E o que seus amigos estavam fazendo com você? — Kael questiona, mas seu tom é mais suave dessa vez, embora ele mantenha o olhar fixo na parede cheia de arranhões. Um arrepio percorre minha espinha com a lembrança e desvio o olhar, sentindo vontade de vomitar novamente. Jak xinga baixinho. — Você não precisa nos contar nada, Lyra. — Orion intervém, embora uma parte de mim queira contar a ele. Quero pensar que eles poderiam dar o mesmo destino do cara que estuprou a mãe. Quero pensar que, se eu disser isso, o fardo que pressiona meu peito vai parar de pesar tanto, porque eu nunca contei a ninguém, nem mesmo a Tina. — Eu tinha onze anos quando ele me trouxe aqui pela primeira vez — Sorrio melancolicamente quando pensei que meu pai finalmente queria começar a ter um relacionamento comigo. Fiquei animada, como eu era estúpida. — Lyra— Kael tenta me fazer parar de falar, mas eu continuo. — Ele me bateu mais do que outras vezes, seus homens o ajudaram a segurar meus braços para que eu não me movesse e eles me ajoelharam bem aqui. — Eu me inclino e pego a algema em minhas mãos, não consigo ver seus olhos, não quero sua pena. — Eles me despiram, eu não consegui me cobrir porque minhas mãos estavam amarradas, lembro-me do desamparo que senti. Lembro-me do pânico quando vi vários amigos do papai entrarem. Minha voz falha e eu aperto a corrente com força nas mãos, os Dravens não falam, eles me deixam eliminar os demônios que carrego comigo, esperando que eles possam me armar novamente com os pedaços quebrados que me restam e eu continuo.
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