Existência do amor

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Ignácio sentou-se na cadeira. Índia se ajoelhou. — Não, Índia. Não. Inferno. — Aconteceu alguma coisa, doutor? — Nada. Só não estou com bom humor. — Me deixe aliviar o seu estresse. Mas ele não estava a fim. Precisava mesmo aliviar o estresse, mas faltava alguma coisa que ele nem sabia o que era. — Índia, entende algo de computadores? — Não, senhor. Por quê? — Preciso de uma secretária nova. — Mandou a sua embora? — Não, mas vou mandar. A mulher agora só chora. Não aguento mais. Quando eu chego, ela está chorando. Se a chamo para entregar documentos, ela está chorando. Quando vou embora, ela está chorando. Está quase alagando o meu gabinete e tudo lá dentro. Daqui a pouco, até os meus documentos estarão molhados de tanto que aquela mulher chora. Nem sabia que uma pessoa, podia ter tantas lágrimas assim, não sabia, Índia.. Estou para a sacudir e mandar parar de chorar..Tenho que mandá-la embora, antes que eu perca a paciência.. — Alguém deve ter morrido, doutor. É normal. Daqui a um tempo ela para de chorar. — Não. Ela chora porque o marido foi embora. Porque o marido foi embora. Ele parecia indignado, indignado com aquilo. — É amor, doutor. Quando alguém que a gente ama vai embora, é assim mesmo. — Amor não existe, Índia. Não existe. É uma invenção do século XX. Amor nunca existiu. Séculos atrás, os casamentos eram feitos por comida. Os casamentos também serviam para unir fortunas. Ninguém morre de amor. Ela vive de uma ilusão. — Não acredita mesmo no amor, doutor? — Não, Índia. Nunca vi amor. — Seus pais se amavam? O juiz riu. — Não. Aqueles dois não amavam ninguém, nem a eles mesmos, muito menos aos filhos. — Tem irmãos, doutor? — Tenho um, mas não sei onde está. Descobri a existência dele depois. Minha mãe o deixou com o pai alcoólatra...E acho que ele deve ter matado meu irmão ou o deixado em algum centro juvenil. Não o achei até hoje., apesar das minhas buscas. — Se tivesse encontrado o seu irmão, saberia que o amor existe entre irmãos. E, no dia em que se apaixonar, vai saber o que é amor. — Não vou me apaixonar, Índia. Nunca. Nunca aconteceu. Nem mesmo uma sensação de calor a respeito de uma mulher. Nem mesmo uma sensação de carinho ou protteção, é só um vazio.. Nunca nem senti falta de alguém com quem me relacionei. Nem mesmo de amigos, Índia. Até acho que a amizade mais próxima que tenho agora é você. Índia foi fazer uma bebida para ele. Ficou atrás dele e começou a massagear os ombros. — Sabe do que está sentindo falta, doutor? — Do quê? — De ter alguém para amar. De ter uma mulher o esperando em casa. Imagine uma mulher que o ame, em casa, descalça, esperando... grávida. — Não acredito em amor, vou passar os meus dias sozinho e trans@ndo com prostittuas.. Ele percebeu que havia falado demais.. __ Eu não quis ofender, Índia,.. __ Eu sei, doutor. E desejo mesmo que encontre o amor. Ignácio riu, divertido, balançando a cabeça. — Já viveu amor assim? — Não. Ela respondeu, também nunca tinha vivido um amor assim. — Então pronto. Não existe. Mas escute, não quer ganhar um dinheiro extra? Preciso de ajuda em uma investigação. Estão fazendo um leilão de mulheres e quero saber se alguma delas está sendo obrigada. — Na Alabama House? — Sabe o que acontece lá dentro? — Sei, sim. As mulheres virgens que querem vender a virgind@de precisam ter dezenove anos e estão lá por conta própria. Algumas usam o dinheiro para comprar uma casa, mudar de país ou comprar um carro. Não tem menores. O dono de lá não aceita que uma mulher seja obrigada. E o comprador ainda precisa assinar um termo de compromisso, alegando que não vai machucar aquele de quem comprou a virgind@de. — Homens estão pagando por virgindade.. Acho voltamos ao tempo de barbárie. — Os homens, doutor, são loucos por virgiindade. Ele continuou balançando a cabeça. Sabia que o mundo era louco, mas pagar uma fortuna simplesmente para ser o primeiro de uma mulher, de uma mulher que teria só uma noite...Ele nunca faria isso, nunca. — Tenho uma amiga mesmo que vendeu a virgind@de. Comprou casa, carro e montou um negócio.O dinheiro também serviu para o casamento, se casou com uma festa bonita. — E o corno ficou esperando a namorada vender a virgiindade para se casar com ele? — Ficou, doutor, porque não tinha onde cair morto e vivia de pequenos golpes. Se o senhor soubesse a quantidade de homens que fariam um acordo desses... são muitos. __ Isso não é um noivo, é um caf£tão, está bem aí a prova de que amor não existe. Índia não discutiu, o juiz só entenderia o amor, o dia em que amasse de verdade. __ Vá participar do leilão, doutor... __ India? __ Participa e faz a sua investigação, não posso ajudar.. Ela torceu para que ele fosse, e encontrasse o amor lá, até gostava dele era um bo cliente a nada violento.
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