Mais um dia sobrevivendo no inferno disfarçado de escola, Westbrook High School. Foi difícil olhar para o Liam durante o dia quando fizemos algumas aulas juntos, claro, e como sempre, ele estava acompanhado dos seus inseparáveis cães de guarda, John, Maike e Fred. Eles andavam pelos corredores como se fossem donos da escola, rindo alto, provocando todo mundo.
Mas teve uma aula em que eles tiveram que se separar: Química. A única que Liam fazia sozinho. Eu sabia disso, claro. Não que eu estivesse prestando atenção… bom, talvez estivesse. Quando fui até meu armário buscar um trabalho, eles estavam conversando a poucos metros dali.
— Cara, esquece essa aula de química — disse John, encostado no armário ao lado do de Liam.
— É, fica com a gente. Vamos dar uma volta — completou Maike.
— Já falei que não dá. Tenho que ir à aula.
— Agora o bonitão quer ser nerd também. — disse John.
Eles caíram na risada.
Fred estalou a língua e cruzou os braços.
— Deixa essa aula de química pra lá, Liam. Para de ser chato.
— Não posso — resmungou, passando uma mão pelo cabelo.
— Por que não? — Fred cutucou ele com o cotovelo.
— Minhas notas em química tão uma d***a. O treinador tá em cima disso. Se eu não melhorar, ele falou que pode até reconsiderar minha posição de capitão. Não posso correr o risco de perder pro Tyler por causa de uma matéria i****a.
Fred deu uma risada.
— Que drama. Isso nunca vai acontecer.
Liam não respondeu. Ele parecia irritado, mas também inseguro.
Eu mexi no meu armário, pegando o trabalho que precisava, tentando passar despercebida. Mas, é claro, nada passava despercebido quando Fred estava por perto.
— Olha só quem tá aqui — ele cantou, virando-se na minha direção.
Ignorei, fechando o armário com um tranco mais forte do que o necessário.
Foi quando tropecei em algo.
Olhei pra trás. Era o pé do i****a do Fred, estrategicamente colocado no meu caminho.
— Vê se olha por onde anda, odd girl — provocou Fred, com aquele sorriso cínico.
Os outros caíram na risada. Eu apenas olhei pra ele com raiva.
— i****a — murmurei, antes de me afastar.
Segui em direção à sala de química e me sentei no fundo, longe de qualquer um que pudesse me perturbar.
Tirei meu material da mochila, respirando fundo.
De repente, ouvi o som de outra cadeira sendo puxada ao meu lado.
Olhei de canto. Era o Liam.
Meu coração deu um pulo estranho no peito.
Ele virou o rosto em minha direção.
— Tem algum problema me sentar aqui, odd girl? — perguntou, a voz baixa, e desinteressada.
— Claro que não — respondi rápido e comecei a levantar para trocar de lugar.
Mas ele me puxou pelo pulso, com firmeza, me fazendo sentar de novo.
— Relaxa. Você é boa em química, né?
— Sim. Por quê?
— Preciso melhorar minha nota — respondeu, sem rodeios.
— E o que eu tenho a ver com isso?
Ele riu. Um riso curto, meio irônico.
— Você tá engracadinha hoje, odd girl. Eu preciso de ajuda com a matéria.
— E por que não pede ajuda pros seus amigos?
Liam desviou o olhar por um segundo e depois me encarou de novo.
— Porque eles são um bando de idiotas. Você vai me ajudar ou não?
Antes que eu pudesse responder, a professora Margaret entrou na sala com seu usual coque apertado e blazer de tweed.
— Abram o livro na página 30. Hoje vamos revisar reações de oxirredução — anunciou, enquanto escrevia "Redox" no quadro.
Liam se inclinou em minha direção.
— É sério… me ajuda, por favor?
Ele não tirou os olhos de mim, esperando uma resposta.
Uma parte minha queria dizer não e mandar ele se f***r. Mas outra... outra queria desesperadamente dizer que sim. E outra coisa: eu tava adorando ver ele me pedindo ajuda.
— Tá bom — murmurei.
Ele sorriu de canto, fazendo o i****a do meu coração bater rápido.
Durante a aula, fomos fazendo os exercícios juntos. Liam era péssimo. Tentei explicar com paciência, mesmo com ele reclamando o tempo inteiro.
— Isso aqui parece outro idioma — resmungou, apoiando a cabeça na mão.
— Porque você nunca prestou atenção — retruquei, anotando a explicação no caderno dele. — Isso aqui é fácil, olha…
Me inclinei para apontar as partes da equação, e por um segundo percebi o quanto estávamos perto. A respiração dele era lenta, e ele me olhava de um jeito diferente… como se estivesse apreciando cada detalhe do meu rosto.
Conforme eu falava, ele se aproximava mais, prestando atenção de verdade.
— Você sempre foi assim? — perguntou de repente.
— Assim como?
— Sei lá… inteligente — disse, com um sorrisinho.
Minha vontade era dizer:
E VOCÊ, SEMPRE FOI ASSIM: BONITO, IRRESISTÍVEL E INSUPORTAVELMENTE GOSTOSO ?
— Sim, sempre fui "nerd" — respondi.
Ele sorriu, me olhando em silêncio por alguns instantes...
— Você é boa nisso, odd girl. Boa de verdade.
— Obrigada… eu acho.
Ele sorriu de canto e me encarou. Naquele instante, foi como se o tempo tivesse parado, tudo ao redor silenciou, como se o universo segurasse a respiração. De repente, senti uma de suas pernas roçar na minha, de um jeito que definitivamente não era acidental. O contato provocou um choque que percorreu meu corpo, deixando minha pele arrepiada e meu peito apertado.
Nossas mãos repousavam próximas sobre o livro aberto, quase se tocando. Lentamente, ele deslizou os dedos até encostar nos meus. Talvez o fato de estarmos sozinhos ali, no fundo, naquele canto isolado da sala, tenha dado a ele essa liberdade.
Minha respiração já estava pesada, difícil de controlar. Olhei para ele, confusa, buscando alguma lógica naquele toque. E quando apertei sua mão, Liam levantou a minha, como se fosse mostrar algo, e perguntou:
— Me explica isso aqui?
EU ENTENDO TUDO ERRADO MESMO...
No fim da aula, ele fechou o caderno, se levantou e olhou pra mim como se pensasse em dizer algo, mas hesitou. Aí se virou de volta.
— Valeu pela ajuda, odd girl. Amanhã… a gente continua?
— Só se prometer que vai pedir pros seus amigos pararem de pegar no meu pé.
Ele hesitou, como se não soubesse o que responder. Então assentiu com a cabeça e foi embora, sem dizer mais nada.