A estrada de terra se estendia em curvas e buracos, fazendo o Jeep balançar de leve. Quando passamos por um buraco maior, meu corpo foi jogado para o lado, esbarrando em Liam. Seu ombro firme contra o meu. O toque durou menos de dois segundos, mas foi o suficiente para fazer meu estômago virar, como se eu tivesse caído de um precipício. Um calafrio percorreu minha espinha, e meu coração disparou, um choque de eletricidade percorrendo meu corpo antes de me obrigar a voltar para o meu lado.
— Desculpa. — minha voz saiu baixa e rouca.
— Tudo bem. Essa estrada é uma m***a.
Liam apertou as mãos no volante. Olhei fixamente para a janela embaçada.
— Falta muito? — perguntei.
Ele soltou uma risada baixa, os olhos ainda focados na estrada.
— Não. Dez minutos, no máximo — respondeu, a voz arrastada, quase preguiçosa.
— Espero que você não esteja me levando pra algum lugar pra me m***r — provoquei, com um meio sorriso.
— Se quisesse fazer isso... teria te pegado na escola.
O jeito como ele disse "pegado", com aquela ênfase sutil e maliciosa, foi como um golpe certeiro. Minha respiração fugiu do controle. Um calor subiu pelo meu corpo, tingindo meu rosto, minhas orelhas, minha pele toda. Me encolhi no banco, os dedos se cravando nas mangas do moletom dele, tentando encontrar algum vestígio de estabilidade.
Logo, avistei uma estrutura surgindo entre as árvores: uma cabana grande, de madeira escura e bem trabalhada, com detalhes esculpidos nos pilares da varanda coberta. As janelas eram amplas, de vidro.
Liam estacionou o Jeep bem perto da varanda e desligou o motor.
— Vai demorar? — perguntei, sem fazer movimento para sair.
Ele olhou para a cabana, hesitando.
— Na real… — respirou fundo. — Eu precisava de ajuda pra carregar umas caixas. Mas só se você quiser.
Eu o encarei, arqueando uma sobrancelha.
— E se eu não quiser?
Ele soltou um suspiro resignado.
— Pode esperar aqui.
Sem dizer mais nada, abriu a porta do Jeep e saiu, deixando-a escancarada.
— Nem ferrando. — murmurei. Abri a porta e desci atrás dele, pisando na lama úmida. — Sabe... — comecei, acelerando o passo para alcançá-lo. — Esse é o cenário perfeito pra um filme de serial killer. Duas pessoas entrando numa cabana isolada na floresta...
Liam soltou uma risada baixa.
— Você tá assistindo muito filme de terror. Se quiser, te deixo trancada no carro. Acho mais seguro pra você.
— Ah, claro. E aí viro a primeira vítima.
Ele balançou a cabeça, tentando esconder o sorriso.
Caminhamos rápido até a varanda. Liam tirou uma chave do bolso e abriu a porta com dificuldade.
Dentro da cabana estava escuro; ele tateou a parede até encontrar o interruptor, e uma luz amarela iluminou o interior. A sala era ampla e luxuosa, com uma lareira de pedra apagada, um sofá de couro antigo e várias caixas organizadas em pilhas ordenadas.
— Pode se sentar, se quiser — disse, desaparecendo pelo corredor.
Aproveitei para olhar melhor ao redor. Havia fotos nas paredes: Liam pequeno, com dois pais sorridentes ao lado. Fotos antigas de família, praia, Natal.
Alguns minutos depois, ele voltou, agora vestindo uma camiseta cinza e uma calça de moletom escura. O cabelo ainda úmido da chuva caía em mechas rebeldes sobre a testa.
Se aproximou, chutando de leve uma caixa no caminho, e perguntou:
— Quer alguma coisa? Chocolate quente... ou cerveja, se preferir.
— Não precisa, eu tô bem.
— Minha mãe mandou eu buscar essas coisas dela já faz alguns dias — explicou, indo direto até uma pilha de caixas. — Tipo decoração de Natal, uns álbuns de foto...
— E você achou ótima ideia fazer isso justo hoje?
— Pois é, planejamento nunca foi meu forte.
— Você vem muito aqui? — perguntei, olhando ao redor.
— Só de vez em quando. Meus pais usavam mais — respondeu, caminhando até uma das pilhas de caixas. — Agora é meio que meu depósito.
Me aproximei, enfiando as mãos nos bolsos do moletom.
Ele se abaixou e começou a remexer numa caixa.
— Me dá uma mão aqui? — pediu, chamando minha atenção de volta.
Me aproximei e o ajudei a carregar três caixas até o carro.
Quando voltamos para pegar a quarta, nossas mãos se tocaram de leve.
Liam me olhou. Eu olhei de volta. Mas logo ele desviou o olhar, ficou sério e limpou a garganta, quebrando o momento.
— Então... — ele começou. — Eu queria falar sobre... sobre aquele dia lá no vestiário. Não quero que você pense algo errado. Ou que entenda m*l.
Meu coração deu um salto no peito, mas apenas assenti, tentando parecer tranquila, e dei um sorriso meio sem graça, para aliviar o clima.
— Tá tranquilo. Nem tava pensando nisso. — Mentira. Eu tinha pensado, e muito.
Ele pareceu aliviado, mas ainda não relaxou.
— É só que... às vezes as coisas podem parecer meio confusas. E não queria que você...
— Sério, esquece. Melhor a gente ir.
Liam pegou outra caixa e começou a caminhar de volta para a porta.
Peguei a última caixa e fui atrás, atravessando a varanda sob a chuva fina que ainda insistia em cair. Coloquei a caixa no banco de trás do Jeep e entrei, batendo a porta.
Esperei ali, assistindo Liam trancar a cabana e correr até o carro com passos largos.
Ele entrou, jogando as chaves da cabana no painel do carro antes de ligá-lo com um estalo seco. Por alguns segundos, o único som era o motor roncando baixo e a chuva batendo no capô.
O clima estava estranho.
Liam ajeitou o retrovisor e saiu devagar pela trilha de terra, os faróis cortando a névoa que começava a se formar.
Seguimos em silêncio até uma parte da estrada onde um riacho cruzava. Quando passamos, ele estava raso, mas a chuva tinha feito seu trabalho: a correnteza agora cobria completamente o caminho. A água batia forte nas pedras, barrando nossa passagem.
Liam freou, analisando a situação.
— E agora? — perguntei, me inclinando pra frente, preocupada. — Como a gente vai passar?
Ele deu de ombros, tranquilo.
— É só esperar a água baixar.
— Ótimo — retruquei, bufando. — Era tudo que faltava.
— Relaxa. Não vai demorar. É tão r**m assim ficar algumas horas comigo?
— Não foi isso que quis dizer.
Liam soltou um sorriso de canto, encostou-se no banco, cruzando os braços, com os olhos presos na linha de água que descia pela estrada.