CAPÍTULO SEIS.
Selene Moreau
— Ele simplesmente passou por mim... — balbucio, dentro do elevador sentindo lágrimas vertendo pelo meu rosto, petrificada, confusa, dolorida, contra a minha vontade.
— Ele tem fingindo que você não existe faz tempo, Selene — ela diz, como se eu não soubesse.
A minha cabeça está fervendo, o meu sangue está fervendo...
— Ele estava com a noiva dele! — exclamo, ultrajada, e ela suspira fundo, me puxando para fora do elevador.
Como alguém pode passar de tudo a nada para alguém, desse jeito?
O meu corpo dói, literalmente.
— Eu entendo perfeitamente... — ela fala, enquanto entramos no quarto, fechando a porta logo atrás. — Eu te entendo melhor do que ninguém! — ela diz, me olhando com compaixão, pagando nas minhas mãos.
— Mas essa não é a Selene que eu conheço — ela diz, limpando o meu rosto, e eu abano a cabeça, me afastando dela.
— Tem como uma coisa que foi destruída voltar a ser o mesmo que você conheceu, Kaiane? — pergunto retoricamente, e ela suspira, me encarando.
— Não, mas você não pode continuar assim para sempre, ele destruiu você, abandonou você, e uma semana depois estava noivo de outra — ela me relembra do que tem me atormentado.
— Ele está nem aí, e você deveria parar de o dar exatamente o que ele quer, Selene! — ela fala, e eu estou sangrando por dentro.
Oh, o dia começou tão bem!
— Eu me entreguei à ele, Kaiane — eu falo sentindo um aperto surreal no peito. — Só a ele, de corpo e alma — oh, se lágrimas fossem de ouro...
— E ele simplesmente sumiu da minha vida, como se nós nunca tivéssemos tido absolutamente nada, ele nem pousou o olhar em mim direito, você tem noção do quão isso dói? Do quanto isso está acabando com a minha cabeça, Kaiane? — pergunto, atordoada e ela não fala mais nada.
Apenas sinto os seus braços me apertarem nela, e eu quero desmoronar.
Porque depois disso, nem mais uma lágrima deveria estar vertendo do meu olhar.
— Vá, eu vou escolher a sua roupa — a Kaiane diz, e eu entro debaixo do chuveiro, entre o ódio que eu estou sentindo dele, e o ódio que eu estou sentindo de mim, por acreditar que ele seria diferente dos homens com quem eu convive durante toda a minha vida e por ainda chorar por ele.
Ele é e sempre foi um canalha, era e é por isso que ele sempre foi tão popular.
Eu só fui estúpida o suficiente para acreditar que ele me amava, que ele me levava a sério o suficiente para confrontar o pai, e fugir comigo para longe, quando ele é o único herdeiro do pai, com toda a vida social e sonhos dele aqui.
Oh, como eu fui ridícula!
— Idiota... — eu falo comigo mesma.
Depois de retirar o sal dos meus cabelos e pele, eu amarro a toalha em mim, e vou para frente do espelho para finalizar o meu cabelo.
— Eu falei que não tínhamos tempo de ir até a praia — a Kaiane diz, aparecendo na porta do banheiro, já pronta.
— Você tem menos de dez minutos para ficar pronta, não vai dar para finalizar todo o seu cabelo e ainda vestir — ela fala, e eu dou de ombros.
— Eu não sei se ele tem outros compradores, mas ele não vai dizer não para a nossa oferta — falo, terminando de enxugar o meu cabelo e passando o creme de cachos nele.
— Selene! — ela chama a minha atenção.
— Eu detesto quando você leva o seu trabalho a sério ao invés de ser só a minha amiga — falo, sorrindo e ela ri.
— Quanto mais cedo nós terminarmos, mais cedo o meu trabalho termina — ela diz, enquanto eu passo escova para os finalizar de forma rápida.
— Me dá uns cinco minutos só para usar o difusor, se não vou sair com o cabelo pingando — falo, já pegando nele.
Ele não vai secar completamente, e nem vai estar bem finalizado, mas quem se importa quando se está na frente da praia?
Eu vou molhar ele outra vez...
Seco o cabelo o suficiente para deixar os cachos visíveis, porém eles continuam húmidos.
— Selene! — a Kaiane grita lá do quarto, e eu reviro os olhos, lavando as minhas mãos e começando a passar loção corporal pelo meu corpo.
— Céus! Estou vindo! — respondo, entrando no quarto.
— Ih, nem pensar que eu vou usar calça e blazer num resort com vista para a praia, Kaiane, muito obrigada, mas não... — falo, vestindo a minha roupa íntima.
— Tudo bem... Você escolhe, mas nós já estamos atrasadas — ela diz, verificando alguma coisa no iPad, e eu pego num vestido azul que eu tenho aqui.
Ele é próprio para calor, ele é um tomara que caia, civilizado, é longo, marca bem a cintura e só.
Calço saltos fechados de cor branca, só para dar uma equilibrada, e permaneço com os acessórios que estava.
— Vamos! — falo, passando perfume, e alcançando o lipgloss.
— Vamos! — ela fala, já na porta e assim vamos.
— O que aquele canalha do Zade disse mesmo? — pergunto.
— Que você não devia ter celular, se não pretende atender as chamadas, e que a sua assistente não devia atender o seu noivo — ela conta, e eu o detesto tanto!
— E é por isso que ele está vindo? — pergunto, porque a minha paz já foi perturbada o suficiente por hoje, e olha que eu estou longe daquela casa.
— Eu acho que ele vem por causa da festa que tem essa noite aqui, mas ele disse que precisa informar algo para você pessoalmente — ele diz, e era só o que me faltava.
— Me perguntaria o que de tão importante ele teria para me dizer pessoalmente — falo ironicamente e ela abana a cabeça, enquanto viramos para a sala de reuniões.
— Senhorita Moreau! — o senhor Castellano diz, sorrindo ao meu ver.
Mas os meus olhos noticiam exatamente quem eu menos queria ver agora.
Boa...
Os meus ossos incendiam, e a minha barriga congela com o seu olhar intenso.
Não só ele, o Apollo também.
Era tudo o que eu mais precisava.
O seu olhar é mais frio que o inverno, sua beleza dói tanto quanto a sua indiferença para comigo.
Ele até sugeriu que eu saísse daqui.
Mas oh, ele não me conhece! Se ele acha que brincou comigo, eu o irei mostrar que brincou com a pessoa errada.
Eu estou nas profundezas mórbidas de mim mesma por causa dele, e nem por mais um segundo, eu irei me submeter a dor que ele me causa, quando ele está tão feliz com a sua vidinha de canalha!
Neste momento, eu estou sentada de frente para ele, e a Kaiane de frente para o Apollo, e por mais que eu tente, o meu olhar ameaça ir na sua direção durante a apresentação do senhor Castellano.
— Com tudo, essa negociação só trará benefícios — o Castellano diz, após a sua apresentação, no meu ponto de vista desnecessário, pois nós já estávamos interessados em comprar.
Acho que ele queria manter isso profissional...
Enfim, antes mesmo de eu falar, o Laurent faz com que a sua voz penetrasse os meus ouvidos, causando-me arrepios indecentes e desnecessários.
— Tenho certeza que sim, foi exatamente por isso que já lhe fiz a minha oferta — ele diz, e eu reviro os olhos, encostando-me a poltrona.
— Não esperava oferta mais generosa da sua parte — o Castellano diz, e eu não estou gostando do rumo das suas coisas.
— Se tinha as coisas tão acertadas com esse... — se segure Selene. — Não deveria ter prendido a nossa oferta por tanto tempo, senhor Castellano — eu falo, e recebo um pequeno chute no pé da Kaiane, mas obtenho a reação que esperava.
O olhar deles em mim, enquanto o Castellano e o seu advogado engolem em seco.
— Não está nada acertado, senhorita Selene, por essa razão fiz questão que ambos cá estivessem — ele diz, e eu o observo, com o meu corpo em chamas.
— Eu penso que a oferta foi mais do que justa e clara, extremamente benéfica para vocês, mas se me colocou nessa posição, é porque não o satisfaz, não? — questiono, afinando o meu olhar na direção dele.
— Muito provavelmente — ouço o Laurent responder, e o meu olhar vai na sua direção que faz pouco caso de mim, mas antes que eu explodisse, a Kaiane pigarreia, abrindo a garrafa de água na sua frente.
— Pode baixar mais a temperatura, por favor? — ela pede para a secretária do Castellano, que assim o faz.
— Muito pelo contrário, senhorita — o advogado fala, entregando dois documentos para a secretária, que entrega um para o Laurent e outro para mim.
Uma contraproposta.
— Ambas ofertas foram boas, por essa razão nós viemos com uma contraproposta — o advogado fala, e eu abro esse documento. — Uma associação de ambas as partes.
Eu nunca fechei um documento tão rápido, e nem uma risada mais sarcástica que a do Laurent.
— Nem pensar! — falamos ao mesmo tempo, e os nossos olhares se encontram.
— Sob circunstância alguma eu formarei sociedade com esse traidor — falo, indignada, me levantando.
— Não devia jogar os seus atributos em mim, senhorita Moreau — ele ousa dizer, sarcástico, com os seus olhos em mim, e o meu corpo aquece.
— Ren — o Apollo fala num fio de voz, e eu olho para a Kaiane que se levanta no mesmo instante.
— Tem duas opções, e uma delas é a mais errada que poderá fazer, senhor Castellano — falo, olhando para ele.
— Ou aceita a oferta, ou irá fracassar com mera ilusão da oferta falsa dos Duvall — falo, levando o meu olhar para ele que me encara. — Nenhum deles é conhecido por manter os planos e cumprir com a sua palavra — deixo claro, e o Castellano fica vermelho.
Eu não vou ficar aqui nem mais um segundo.
— Chegue a uma conclusão e me mantenha informada — falo, e simplesmente saio, aquecendo como se tivessem atirado fogo em mim.
— Me desculpem, e com licença... — ouço a Kaiane falar, ainda na sala.
E eu me apressei a sair do mar, por causa dessa desgraça.
— Que idiotice... Desgraçado... — balbucio, entrando no elevador, o puro suco do caos e da raiva.
— Selene... — a Kaiane diz, correndo e entrando no elevador.
— Você viu aquele desgraçado?! — pergunto, indignadíssima.
— Eu vi, e ele é ainda mais lindo, pessoalmente — ótimo momento para afirmar isso. — Desculpa, é que até hoje eu só o tinha visto das vídeo chamadas que você fazia — ela fala, e eu estou ebulindo.
— Ele olhou nos meus olhos e me chamou de traidora, como se não tivesse sido ele quem apareceu noivo, depois que prometeu me tirar daquela casa antes de ser forçada a noivar com o i****a do Zade — oh, eu estou muito nervosa.
— Eu vi, mas fique calma, Selene — ela diz, e eu a encaro.
— Você viu como eles me olharam? Até o Apollo... — eu não sei se quero gritar ou chorar.
— Eu vi, e senti a tensão pesadíssima criada por vocês naquela sala — ela responde. — Me pareceu que vocês precisam conversar — ela fala e eu rio, abanando a cabeça.
— Você pensa que dá para conversar com aquilo? — pergunto.
— Eu não vou me humilhar nem mais uma vez, porque por todo esse tempo eu era a única boba, que mesmo deixada na lama, tentou entrar em contato com ele e nada — falo, nervosa, saindo do elevador.
— Sociedade... — balbucio, caminhando até ao meu quarto. — Sociedade o escambau! — exclamo, irritada, entrando no quarto, e jogando os sapatos nos meus pés fora.
— Você tem noção que deu um ultimato ao senhor Castellano, enquanto ele tem a oferta do maior inimigo do senhor Moreau em mãos, não é? — ela pergunta, e eu dou de ombros.
— É desse jeito que o meu pai consegue o que quer, dando ultimatos — respondo. — Acho que me saí bem — falo, e ela suspira.
— E o que eu digo ao seu pai? — ela pergunta, e eu dou de ombros.
— O que ele quer ouvir, assim ele nos deixa em paz — falo, retirando o vestido do meu corpo.
Eu fui tão boba, ele só podia estar me traindo com aquela moça, quando ainda estava comigo, para ter ficado noivo tão rápido.
— Não me deixe sozinha, porque eu estou com a sensação estranha de que me tornarei uma assassina — eu falo, e ela ri. — Estou falando sério, Kaiane — digo, e ela ri mais.
— Então, já que o único evento de hoje passou, vamos apagar o seu fogo no mar? — ela pergunta, indo para a mala dela, e eu busco respirar fundo.
— A água de coco daqui é muito boa — ela fala, e eu nem concordar consigo.
— Vamos, se arrume! — ela diz, e a imagem dele está impregnada na minha cabeça, o meu coração fora de controle, e o cheiro dele me fazendo perder completamente a razão.
— Você disse que não derramaria mais uma lágrima por ele, e espero que não se tranque aqui por ele — ela fala, e eu me recuso.
— Não... — eu falo, procurando um novo biquíni, pois o que usei anteriormente está na máquina de lavar.
— Agora é a vez dele — respondo. — Que ele chore e se esconda... — resmungo, alterada.
Que ele sinta o que eu senti.
Oh, se eu não vou fazer questão disso!