Capítulo 2 — O Dono do Morro

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Bruno O morro tinha dois tipos de gente: a que vivia aqui e a que sobrevivia porque eu deixava. Aprendi cedo que respeito não nasce de palavra bonita, nem de promessa feita com voz calma. Respeito, no meu mundo, vinha do medo. Da certeza de que, se eu mandasse calar, calavam. Se eu mandasse correr, corriam. E se eu apontasse um culpado, ninguém tinha coragem de fingir que não viu. Era assim que se mantinha um império de pé em cima de becos estreitos, lajes apertadas e homens que confundiam ambição com inteligência. Do alto do mirante improvisado, com a cidade brilhando ao longe feito mentira bonita, eu observava o movimento lá embaixo. Cada moto subindo. Cada rosto estranho. Cada gesto fora do lugar. O morro respirava pelo meu comando, e eu conhecia quando ele respirava torto. — Pegaram o moleque — Sabiá avisou, aproximando-se com o rádio preso na mão. — Tá lá embaixo, na quadra. Desviei os olhos da vista e encarei meu braço direito. — Ele falou? — Tentou mentir. Soltei um riso sem humor. Tentou. Todo mundo tentava antes de entender que comigo não existia segunda versão da história. Só a verdadeira. Desci com dois homens atrás de mim. O som dos meus passos na escada de concreto era seco, firme, sem pressa. Eu não precisava correr pra impor urgência. Minha presença fazia isso sozinha. Conforme eu passava, as conversas morriam. As crianças eram puxadas pra dentro. As mulheres abaixavam os olhos. Os curiosos fingiam que estavam ocupados demais pra olhar, mas olhavam assim mesmo. Sempre olhavam. Na quadra, o moleque estava de joelhos. Devia ter pouco mais de vinte anos. Magro, o lábio cortado, o peito subindo e descendo rápido demais. Do lado dele, uma mochila aberta no chão. Dentro, rádio, dinheiro e papel com marcação de rota. Não precisava ser gênio pra entender. Vazamento. Traição dentro do meu território. Parei na frente dele. O silêncio se espalhou como fumaça. Até o vento pareceu prender a respiração. — Quem te mandou? — perguntei. Minha voz saiu baixa, limpa. Pior do que grito. Grito qualquer desesperado dá. Frieza de verdade é privilégio de quem sabe que já venceu. O moleque ergueu o rosto devagar, com covardia misturada à esperança. — Eu... eu só tava fazendo um corre. Inclinei a cabeça. — E eu só fiz uma pergunta. Ele engoliu seco. Os olhos correram em volta, procurando salvação em homem que nem salvava a si mesmo. — Foi o Nelsinho do asfalto — disse por fim. — Eu juro. Ele falou que era só passar horário de ronda... que ninguém ia se machucar. A quadra continuou muda, mas eu senti o peso da tensão em cada corpo ali. Nelsinho. Aquele rato achava mesmo que podia meter a mão no meu morro usando menino burro como ponte. Agachei na frente do traidor. Fiquei na altura dele, olhando bem dentro dos olhos. — Escuta uma coisa — falei, quase calmo demais. — No meu morro, homem que vende informação vende sangue junto. Porque quando tu abre a boca pra rival, tu não entrega rota. Tu entrega pai de família, criança brincando na escada, mulher voltando do mercado. Tu entrega o morro inteiro. Os olhos dele encheram d’água. — Foi a primeira vez. — E era pra ser a última de qualquer jeito. Levantei sem pressa. Fiz um gesto curto com a mão. Sabiá entendeu na hora. Ele puxou o garoto pelo braço e o arrastou para longe da quadra, pro canto onde as decisões feias aconteciam sem plateia completa, mas com testemunha suficiente pra espalhar o recado. O estampido veio segundos depois. Seco. Definitivo. Algumas mulheres se assustaram. Um cachorro latiu ao longe. Ninguém falou nada. Ninguém precisava. Meu aviso já tinha sido dado. Passei a mão devagar pela boca, sentindo o gosto metálico da raiva quieta. Não pelo moleque. Homem daquele tipo sempre aparece. O que me queimava por dentro era saber que Nelsinho tinha tido coragem de testar meu nome. Erro dele. — Fecha os acessos da parte baixa por hoje — ordenei. — Quero os pontos dobrados e ninguém entra sem eu saber até o nome da mãe. E me acha esse filho da p**a no asfalto. — Hoje? — um dos homens perguntou, cauteloso. Virei o rosto na direção dele. Só isso. Só o movimento dos meus olhos. O bastante pra ele baixar a cabeça na mesma hora. — Eu disse me acha — repeti. — Sim, chefe. Chefe. Dono. Capeta. Cada um me chamava do que queria. No fim, davam todos no mesmo: o homem que mandava ali. Saí da quadra com o corpo ainda quente da decisão, mas a mente fria como sempre. Controle não era não sentir. Era sentir tudo e ainda assim não tremer. Eu sabia onde pisaria, quem pisaria comigo e quem seria esmagado no caminho. Foi quando meus olhos subiram a rua por instinto. E a vi. Júlia. Lá na parte alta, perto da lanchonete, segurando um saco de lixo numa mão e o peso do mundo nas costas. O rosto firme, o queixo erguido, como se nem o eco do tiro fosse capaz de fazê-la curvar a cabeça. Bonita de um jeito perigoso. Não por delicadeza. Por resistência. Reconheci na hora. Era a mesma da viela. A da resposta afiada. A que encarou um folgado mais cedo como quem não sabia o próprio tamanho do risco. Ou talvez soubesse. E simplesmente não se importasse. Fiquei olhando por um segundo a mais do que devia. Ela sentiu. Virou o rosto na minha direção, e mesmo de longe eu vi o instante exato em que o arrepio tocou a pele dela. Não desviou. Aquilo me arrancou um pensamento escuro, lento, inevitável. O morro inteiro me obedecia. Mas aquela mulher... Aquela mulher ia me dar trabalho.
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