Capítulo 1 - Por trás da professora
A capital de São Paulo amanhece com o sol envolto em nuvens pesadas, esmorecendo a nossa capacidade de julgamento e a possibilidade de fugir do predador. No seu apartamento típico e antigo, a professora Lauren está dormindo quando o despertador toca às cinco e meia da manhã. É como um choque elétrico que deve reviver o falecido; ela deverá levantar para ir trabalhar sem mais tempo perdido. Porém, este não é o dia em que ela fará as coisas de acordo com os seus planos, ainda que tente muito. Ela pega o celular e desativa o alarme estridente. No apartamento ao lado também toca um alarme igual ao dela, sendo possível perceber a diferença apenas pelo leve abafamento que a parede de alvenaria rígida proporciona. Sem se levantar, ela gira no seu eixo para expondo a barriga para cima, como uma c****a exposta aos eventos, pedindo pela misericórdia de um acalento. Ela consulta as notificações como primeira ação do dia; o que ela encontra é algo que ela sempre espera, mas, quando vem, ela desespera-se.
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Prova anexada: Print de w******p nº01
— Faz cinco dias que ele não escreve, por que hoje? — eu pergunto-me enquanto sinto um sinal lancinante no meu peito e a minha cabeça chacoalha internamente, como se a alma se desgrudasse de mim; e, não bastasse isso, ainda sinto o latejamento que me molha entre as pernas.
“Por que reajo sempre do mesmo jeito?” Eu não sei mais o que sinto, nem mesmo o que quero. Será que algum dia eu soube o que é que eu queria? Bem, se há algo que eu possa dizer é que
— NÃO. Não vou vestir.
A minha convicção é que eu preciso treinar em mim… mas, se não vestir, o que vai acontecer?
A PUNIÇÃO. Será muito pior. Um calor sobe do meu peito para o pescoço e eu coloco a mão no pescoço em reflexo; a minha mão está gelada e suando, o pescoço quente e suando, provavelmente vermelho.
Levanto-me da cama desacreditada da capacidade de ele continuar com esse jogo. Vou para o banheiro, “tomar um banho para me sentir melhor”, é o que penso que ocorrerá.
Os pés descalços na louça fria do chão lembram-me de que preciso equilibrar-me para resolver as coisas. Tiro o meu conjuntinho de short doll cor-de-rosa florido — um contraste com a perversidade que estreou o dia de hoje, evitando na minha mente deter-me no despautério da mensagem e da pessoa que a emitiu, com pouco sucesso. Jogo o conjunto no cesto de roupa suja.
Ligo o chuveiro na temperatura mais alta, fervendo como o inferno, para tirar o frio e o calor que eu não escolhi sentir. Aos poucos, a minha pele fica sensível, vermelha e começa a coçar. Então, eu inicio o ritual de banho com a minha esponja macia e sabonete líquido com perfume de frutas vermelhas. Irônico? Quem sabe. É como se o meu sangue estivesse a ser expelido pelos meus poros como o suor, mas o sangue não escorre e eu não morro.
Quando saio do banho, não passo hidratante na pele para acalmar; quero sentir a fúria do ressecamento para me deixar atenta ao fato de que eu nunca poderei descansar plenamente. Vou ao armário e encontro o tal vestido bege. Ele deve querer apagar-me e mostrar-me ao mesmo tempo. O vestido é elegante, de linho, com decote leve e sem mangas, e tem um forro finíssimo. Foi presente dele, um de tantos. Olho para os guarda-roupas e vejo uma parte que separo para as roupas que ele me deu, para nunca esquecer que a coleira tem diversos formatos, cores e texturas. Penso que seria melhor aceitar a camisa de força e soltar-me no mundo etéreo, impalpável, meu e de mais ninguém, mas eu tenho certeza de que, se eu fizesse isso, nem mesmo os medicamentos poderiam libertar-me do meu algoz. Ele estaria me perseguindo no campo de margaridas amarelas.
Vou para o outro lado dos guarda-roupas, onde estão as minhas roupas, as que eu gosto, que eu comprei e que começam a me ajudar a definir a minha personalidade. Falta muito para chegar a um lugar de reconhecimento próprio e do qual eu possa seguir para escolhas mais definitivas, com hábitos melhores. Pego um conjunto preto, calças e camiseta, uma bota, tudo em tecido de algodão e texturas próprias, o que dá ao visual um ar sofisticado e urbano.
Observo ambas as opções: se é para me esconder na minha roupa, seja qual for de estas duas, a minha ou a dele, eu estarei de fato buscando esconder-me; é instintivo, é punitivo.
— Será que eu devo ousar? O que será que ele pode fazer de pior, que ele ainda não tenha feito?