Capítulo 1: O Aço e o Asfalto
O cheiro de sangue e terra molhada ainda impregnava a cota de malha de Roderick. Segundos atrás, sob o céu cinzento de 1346, o aço de sua espada colidia contra o inimigo em um combate brutal. Cerrou os dentes, lembrando do instante exato em que a relíquia em seu peito emitira um clarão cegante, seguido por uma sensação vertiginosa de queda livre.
Quando seus pés tocaram o chão novamente, o choque foi imediato. Ele não estava mais na lama do campo de batalha.
Roderick caiu de joelhos sobre uma superfície preta, rígida e fria. Um ruído ensurdecedor cortou o ar — um urro metálico que fez os seus ouvidos zumbirem. Ele ergueu o olhar abruptamente e sacou a espada.
À sua frente, dois olhos de luz amarela brilhante avançavam na sua direção a uma velocidade sobrenatural. Um monstro de ferro.
— Maledetto! — vociferou Roderick em seu inglês arcaico, posicionando a lâmina de aço temperado para o combate.
O veículo freou com um chiado estridente a poucos centímetros dele. A buzina ecoou pela rua deserta da metrópole, ecoando entre os prédios gigantescos que pareciam tocar as nuvens. Portas se abriram. Luzes vermelhas e azuis começaram a piscar no topo de outra carruagem de metal que se aproximava rapidamente.
— Largue a arma! No chão, agora! — ordenou uma voz grave através de um alto-falante. Dois homens fardados saíram da viatura com pistolas empunhadas.
Roderick não entendia aquelas vestimentas nem os objetos pretos que apontavam para ele, mas reconheceu o tom de ameaça. Ele avançou um passo, mantendo a postura firme de um cavaleiro treinado.
— Não me renderei a feitiçarias! — bradou ele, a voz ecoando com autoridade.
Bastaram três minutos de confusão, dois policiais atónitos e um golpe de bainha que amassou o capô da viatura para que Roderick fosse imobilizado por quatro homens e algemado.
Uma hora depois, trancado numa cela da central de polícia, Roderick encarava as paredes de concreto sem compreender que universo profano era aquele.
A porta do corredor se abriu. O som de saltos altos ritmados ressoou no piso limpo. Uma mulher de terno escuro, cabelos alinhados e pasta de couro na mão parou diante das grades, encarando o homem gigante coberto de poeira e metal.
Era Anna. E o plantão daquela madrugada estava apenas começando.