A tempestade que está por vir
(Isla)
O estalo do chicote cortou o ar da manhã, e mordi o lábio com força para não gritar.
Eu tinha aprendido a não gritar. Gritar fazia aquilo durar mais.
"De novo", disse o Alfa Rodan.
O chicote desceu sobre minhas costas, e pressionei a testa contra o chão enquanto aguentava. A terra estava fria sob minhas mãos. Meus dedos se cravaram nela, agarrando-a como se fosse a única coisa que me mantinha ali. Ao meu redor, eu conseguia ouvir a alcateia reunida, observando. Ninguém falava. Ninguém se mexia. Eles nunca faziam isso.
Tudo havia começado porque deixei um prato cair.
Foi só isso. Um simples prato de cerâmica que escapou das minhas mãos enquanto eu levava uma pilha de louças da cozinha para a mesa de jantar da casa da alcateia. Ele atingiu o chão e se partiu ao meio, e o Alfa Rodan ficou completamente imóvel daquele jeito que sempre ficava antes de algo r**m acontecer. O cômodo inteiro ficou em silêncio ao redor dele.
Ele me encarou por um longo momento e então ordenou que Drace, seu beta, trouxesse o chicote.
Isso havia sido vinte minutos atrás. Parei de contar os golpes depois do oitavo.
"Você é inútil", disse Rodan, caminhando lentamente ao meu redor. Sua voz era controlada, quase calma, e isso era o mais assustador nele. Ele nunca gritava. Nunca precisava. "Uma criatura sem loba que não consegue nem carregar louças sem destruir alguma coisa. Para que exatamente você serve, Isla?"
Não respondi. Ele não queria uma resposta. Era algo pelo qual ele me puniria.
O chicote desceu novamente e, dessa vez, não consegui me conter. Um som escapou de mim, baixo e quebrado, e pressionei o rosto com mais força contra a terra, tentando respirar apesar da dor.
"Levantem-na", ordenou Rodan.
Dois membros da alcateia me puxaram e me colocaram de pé. Minhas costas estavam em chamas. Eu conseguia sentir onde a pele havia se rompido, quente e molhada contra o tecido fino da minha camisa. Mantive os olhos baixos. Sempre de olhos baixos.
A Luna Maren estava parada a poucos metros de distância, com os braços cruzados, observando-me como alguém observa algo levemente interessante. Não havia emoção alguma em seu rosto. Nunca havia quando se tratava de mim.
"Limpe a bagunça que fez", disse ela. "E, se eu encontrar um único caco desse prato no meu chão depois que terminar, você estará de volta aqui antes do pôr do sol."
Ela se virou e entrou novamente. A alcateia a seguiu. Rodan me olhou mais uma vez, do jeito que se olha para algo que já foi esquecido, e então ele também foi embora.
Fiquei sozinha no pátio e me permiti respirar por apenas um instante.
Meu nome é Isla Thorne. E, na Alcateia Ashcrest, esse nome significava menos do que nada.
Todos os membros da alcateia que caminhavam por aquelas terras tinham uma cama, um quarto, um lugar dentro da casa da alcateia. Até mesmo os lobos de posição mais baixa tinham quatro paredes sólidas e um teto que não deixava a chuva entrar. Eu não tinha nada disso.
Eu morava em um barraco na extremidade mais distante das terras da alcateia, tão longe de todo o resto que, nas noites escuras, eu não conseguia ver uma única luz de onde dormia. As paredes eram de madeira apodrecida, com fendas em alguns pontos largas o bastante para passar uma mão. O teto tinha um buraco no canto mais afastado que eu havia tapado com panos velhos, mas, quando a chuva era forte, a água entrava mesmo assim e encharcava o chão de terra e o cobertor fino sobre o qual eu dormia. Não havia cama. Nem janela. Nenhum tipo de móvel. Apenas o chão, a corrente e a escuridão.
A corrente ao redor do meu tornozelo estava impregnada de acônito. Descobri isso da pior maneira possível no início, quando a agarrei com as duas mãos e bolhas se formaram nas minhas palmas em questão de segundos. Eu não conseguia tocá-la. Não conseguia removê-la. Tudo o que podia fazer era conviver com a ardência dela contra minha pele, que nunca cessava, nem mesmo à noite, quando eu tentava dormir.
Eu não tinha loba. Mas ainda era uma lobisomem de sangue, e isso bastava para que o acônito fizesse efeito em mim. Não da mesma forma que faria em um lobo completamente transformado, mas o suficiente. Queimava onde a corrente tocava minha pele e permanecia dentro do meu corpo como um peso que nunca desaparecia, deixando minhas pernas mais pesadas do que deveriam, mantendo minha mente enevoada e meu corpo mais lento do que deveria ser. Não era o bastante para me manter caída no chão, mas era o suficiente para garantir que eu nunca conseguisse ir muito longe.
Todas as manhãs, um guarda chamado Torvin vinha destrancá-la para que eu pudesse começar meu trabalho. Todas as noites, ele voltava para prendê-la novamente. Ele usava luvas grossas e forradas para se proteger do acônito e nunca, nem uma única vez, olhou para mim como se eu fosse uma pessoa.
Eu havia pensado em fugir nos primeiros anos. Mas, entre o acônito, a fome e a falta de água, meu corpo simplesmente não tinha forças suficientes para me levar longe o bastante para fazer alguma diferença. E, se me pegassem — e eles me pegariam —, o que me aguardava depois disso era algo em que eu não podia me permitir pensar.
Então, fiquei. Eu já estava ficando havia cinco anos.
Obriguei-me a voltar para dentro da casa da alcateia e encontrei o prato quebrado no chão da sala de jantar, onde o havia deixado. Agachei-me e recolhi os pedaços um por um, tomando cuidado para não me cortar, embora não tivesse certeza de que isso faria muita diferença para alguém. Quando o chão ficou limpo, levantei-me e observei o trabalho que ainda havia diante de mim. As louças ainda precisavam ser colocadas na mesa. A cozinha ainda precisava ser limpa depois do preparo do café da manhã. Depois disso, eu teria que esfregar o chão da casa da alcateia e varrer o pátio de treinamento antes que alguém viesse usá-lo à tarde.
Minhas costas ardiam a cada movimento. Mesmo assim, continuei.
Meu pai, Derek Thorne, era um guerreiro de alta patente sob o comando de Rodan. Respeitado, conhecido nas alcateias vizinhas, um homem que outros lobos admiravam. Ele tinha quatro filhos. Vera, sua favorita. Cole e Brent, seu orgulho. E então eu, aquela que ele nunca mencionava, aquela através de quem ele olhava quando havia outras pessoas por perto, como se eu fosse feita de ar.
Uma filha sem loba era o pior tipo de vergonha para um guerreiro. Ele nunca havia me perdoado por isso.
Minha mãe, Helene, não era diferente. Ela tinha um olhar que reservava apenas para mim, não de raiva, mas de absoluto vazio. Uma indiferença oca que dizia que eu não valia o esforço de um sentimento verdadeiro. Na maioria dos dias, aquele vazio era mais difícil de suportar do que as agressões.
Brent tinha vinte e um anos e herdara o temperamento do nosso pai, mas nenhum de seu autocontrole. Ele me batia porque queria, porque podia, porque ninguém naquela alcateia jamais mandaria que ele parasse.
Cole geralmente me deixava em paz. Vera observava sem dizer nada e desviava o olhar.
Eu não tinha permissão para comer até que a alcateia e minha família terminassem suas refeições. A essa altura, raramente sobrava alguma coisa. Eu sentia fome havia tanto tempo que aquela sensação se tornara parte de mim, uma dor constante e entorpecida que carregava para todos os lugares. Eu era tão magra que meus braços pareciam frágeis. A única água que eu tinha vinha do barril do lado de fora do meu barraco e, na maioria dos dias, não era suficiente.
Eu me deslocava silenciosamente pela casa da alcateia, como sempre fazia, tentando ocupar o mínimo de espaço possível. Era mais seguro assim. Quanto menos me notassem, melhor, porque, quando me notavam, sempre encontravam um motivo.
Quando terminei de limpar o chão, a ardência nas minhas costas havia se transformado em uma dor profunda e constante que dificultava que eu me mantivesse ereta. Mesmo assim, endireitei-me. Ficar curvada também fazia com que me batessem.
Saí para começar a limpar o pátio de treinamento e parei por apenas um segundo, erguendo o rosto para o céu. O sol já havia nascido por completo. Seria um longo dia.
Na semana passada, minha mãe havia mencionado que o Rei Alfa viria a Ashcrest em breve. Desde então, a alcateia inteira estava agitada por causa disso, limpando, preparando e garantindo que tudo parecesse perfeito. O Alfa Rodan estava de pior humor do que de costume, o que significava que eu estava pagando por isso mais do que de costume.
Eu não sabia muito sobre o Rei Alfa além do que ouvira aos poucos ao longo dos anos. Que ele era implacável. Que as alcateias se rendiam em vez de enfrentá-lo. Que os homens que se opunham a ele não permaneciam de pé por muito tempo.
Não pensei nele além disso. Eu já tinha coisas suficientes às quais sobreviver sem buscar mais medo em outro lugar.
Pressionei uma das mãos contra o meio da barriga, onde a fome doía mais, e disse a mim mesma o que sempre dizia quando tudo doía e o dia se estendia longo e vazio diante de mim.
Apenas sobreviva ao dia de hoje.
Era tudo o que eu sempre tivera. Era o suficiente. Tinha que ser.