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A BABÁ DO FILHO DO TRAFICANTE: ENTRE ÓDIO É O DESEJO

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Breno Henrique, o BH, domina o Dendê com punho de ferro rei do morro, frio, respeitado e temido. Mas dentro de casa ele é só um pai tentando alcançar o próprio filho. Theo, autista, vive num mundo silencioso que BH não consegue invadir… e isso corrói mais que qualquer guerra.

Até que ela sobe o morro.

Pérola. Gordinha, imponente, segura de si. Daquelas que não pedem espaço ocupam. Não se curva, não se vende, não se intimida. Enquanto todo mundo abaixa a cabeça pro BH, ela olha no olho. E pior: não tem medo nenhum de bater de frente com ele.

Só que a maior força dela não tá na atitude… tá no coração.

Onde o poder de BH falha, Pérola vence com paciência. Com cuidado. Com verdade. E Theo responde. O menino floresce. O silêncio começa a rachar.

E o impossível acontece: o homem mais temido do morro começa a se render… não pra guerra, mas pra uma mulher que não pode ser dominada.

Só que na favela, felicidade chama desgraça.

Quando descobrem que o ponto fraco do BH tem nome, rosto e curvas que ele não consegue esquecer… vira questão de tempo até o inferno bater na porta.

Agora ele vai ter que escolher: continuar sendo rei…

ou virar homem e proteger o que ama.

No Dendê, respeito se conquista na bala.

Mas amor… cobra mais caro.

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PRÓLOGO — O DIA EM QUE O SILÊNCIO GRITOU
O hospital de elite na Barra da Tijuca exalava o odor de antisséptico caro, uma tentativa superficial, quase patética, de ocultar a realidade nua e crua: o mundo é sujo, c***l, covarde e habitado por pessoas que se vendem por qualquer migalha de status. Para alguém como eu, o Breno vulgo BH, o cara que dita as ordens e faz o asfalto tremer , que cresceu imerso nos cheiros de esgoto, sangue e pólvora da favela, aquele ambiente excessivamente limpo era um verdadeiro insulto à minha história. Eles podem tentar esterilizar tudo com álcool em gel, lençóis de fios egípcios e panos brancos, mas o destino de um homem não se purifica em lavanderia de bacana. O crime deixa marcas indeléveis, tatuadas na alma com ferro quente, e nenhuma redoma de vidro na Zona Sul é capaz de apagar de onde eu vim e o que precisei fazer para sentar no trono do Dendê. Eu estava parado naquele corredor de mármore polido, cercado por um bando de seguranças da minha inteira confiança que tentavam passar despercebidos entre os engravatados, mas os caras m*l conseguiam conter o tremor nas pernas só de sentirem a minha presença. A postura deles entregava o peso da minha sombra. Eu era o responsável por cada milímetro daquela engrenagem criminosa; o sujeito que, nos últimos dez anos, decidiu em um estalar de dedos quem permanecia respirando e quem descia o morro dentro de um saco preto. Fui eu que enfrentei blindado, caveirão, traição de aliado e o c*****o a quatro para me consolidar como o dono absoluto da p***a toda. Porém, diante daquela porta de sala de parto, com visor de vidro e uma luz cirúrgica fustigando meus olhos, eu me sentia um espectador completamente impotente, miúdo, dominado por uma ansiedade maldita que nenhuma arma do meu arsenal, nem o meu fuzil mais pesado, poderia silenciar ou resolver. Não fui feito para esperar, p***a. No meu universo, se eu quero alguma coisa, eu vou lá e tomo. Se alguém tenta cruzar o meu caminho ou atrasar meu lado, eu simplesmente elimino, arranco a cabeça e mostro quem manda. Sem massagem, sem lero-lero. Mas a vida... a p***a da vida biológica é a única esfera que o meu poderoso .50 não domina, não dita as regras e não consegue dobrar. Ali dentro, o jogo era outro, e eu estava jogando sem cartas na mão. Ao ouvir o primeiro choro do Theo ecoar pelo corredor, meu corpo reagiu de forma puramente involuntária, um espasmo bruto que quase me fez sacar a pistola da cintura por puro reflexo de sobrevivência. Não foi um choro comum, desses de comercial de fralda; foi um grito rasgado, agudo, que penetrou no meu peito como uma bala perfurante de ponta oca, estraçalhando a blindagem emocional que levei 28 anos de pura guerra urbana para construir. Minhas mãos, que jamais tremeram ao manusear um carregador de trinta cartuchos no meio do tiroteio ou ao assinar a sentença de morte de um vacilão, estavam completamente encharcadas de um suor frio e incômodo. — É um menino, senhor Breno. Um herdeiro forte, com pulmões de aço — disse a enfermeira, ostentando aquele sorriso plástico, falso, típico de funcionário de hospital particular que atende miliciano e traficante esperando uma gorjeta gorda por cada boa notícia. Ela não tinha a menor noção de que estava estendendo a mão para o próprio demônio em pessoa. Entrei no quarto de parto e o ar pareceu desaparecer do meu peito instantaneamente, como se a atmosfera tivesse sido sugada por um exaustor industrial. Viviane estava pálida, os cabelos loiros oxigenados grudados na testa pelo suor do esforço, mas o olhar que ela direcionava para a situação exibia uma frieza tão calculista que me causou náuseas profundas. Ela não olhava para o berço de acrílico com o menor vestígio de amor materno ou alívio; sua atenção estava fixa no teto, com as pupilas dilatadas, como se estivesse fazendo contas de cabeça, calculando o valor exato da pensão alimentícia que arrancaria de mim, o preço das joias de ouro que exigiria na próxima semana e a vida de rainha ostentação que aquele bebê lhe garantiria antes mesmo de o cordão umbilical ser cortado pelos médicos. Peguei o Theo em meus braços pela primeira vez. Ele era extremamente leve, pequeno, uma criaturinha frágil que parecia desafiar toda a podridão que me cercava. Ele era a única essência realmente pura que já havia tocado na minha vida repleta de falhas, crimes e pecados inafiançáveis. Naquele instante, ele abriu os olhos por um breve momento, fixando um borrão na minha direção, e senti um choque elétrico de alta voltagem percorrer toda a minha espinha dorsal. Ali, com o peito estufado e o coração batendo na garganta, fiz uma promessa silenciosa, mas inquebrável: o mundo vai ser pequeno demais para você, meu filho. Eu vou fazer o que for preciso, vou derramar o sangue que for necessário, vou quebrar as pernas de quem cruzar teu caminho e, se precisar, vou queimar o próprio inferno para ver você sentado no topo do mundo, sem nunca passar pelas humilhações que eu passei. Mas a p***a da realidade é um soco seco no estômago que nenhum colete à prova de balas de última geração consegue impedir de esmagar as tuas entranhas. Os meses foram passando e o silêncio do Theo começou a ecoar de forma ensurdecedora no meu ouvido, dia após dia, transformando a nossa mansão num mausoléu de dúvidas. Ele não sustentava o olhar na minha direção. Não sorria quando eu fazia palhaçada. Não reagia aos estouros dos fogos de artifício e dos rojões que a minha contenção soltava para anunciar, com estrondo, a minha chegada triunfal ao morro. Ele parecia viver trancado em um universo paralelo, uma dimensão particular onde eu não tinha nenhum controle, onde a minha voz autoritária de chefe do crime não significava absolutamente nada, não passava de ruído de fundo. O diagnóstico de autismo, quando veio da boca daquele médico engomado, bateu em mim como uma sentença de morte para a ilusão de ser o pai perfeito de dinastia que eu havia construído na minha mente paranoica. Mas, depois que a poeira da notícia baixou na minha cabeça, vi que isso não mudava p***a nenhuma. Ele era o meu sangue. O meu herdeiro legítimo. Meu rei. Ponto final, e quem discordasse ia ver o cano do meu bicho cantar. Entretanto, para a Viviane, o Theo não passava de um erro de fabricação. Um defeito incômodo na vitrine de luxo que ela tanto desejava exibir para as amigas falsas do i********: e para a alta sociedade de fachada que passou a frequentar com o meu dinheiro vivo. Naquela noite que ficou marcada com ferro na minha memória, o clima no andar de cima da nossa mansão estava absurdamente carregado, como uma tempestade de verão pesada, com raios cortando o céu, prestes a desabar e destruir tudo. O Theo estava num estado de inquietação absurdo, balançando o corpinho miúdo de um lado para o outro dentro do berço luxuoso, com as duas mãozinhas cravadas nas orelhas para abafar o mundo exterior, os olhos cerrados com tanta força que chegavam a enrugar o rosto, soltando um lamento baixo, sofrido, contínuo. Ele estava em plena crise sensorial. O excesso de luz dos lustres de cristal, o barulho do vento uivando nas vidraças ou, muito provavelmente, a energia totalmente negativa e nojenta daquela mulher estavam atormentando a mente do meu garoto. Eu me encontrava jogado no chão do quarto, de joelhos, sem camisa, deixando todas as cicatrizes de tiros e facadas de batalhas passadas expostas, tentando de tudo para alcançá-lo. Tentando, na minha brutalidade, ser o porto seguro, o escudo que ele tanto precisava para se acalmar. Foi exatamente nesse momento de dor que a porta do quarto foi escancarada com a força destrutiva de uma granada de impacto. Viviane invadiu o recinto exalando um perfume francês caríssimo misturado com o cheiro de frivolidade e futilidade que emanava dos seus poros. O rosto dela, que gastava milhares de reais em procedimentos estéticos, estava completamente distorcido pelo ódio puro, as mãos cravadas na cintura fina, pronta para armar mais um dos seus espetáculos teatrais de quinta categoria. — Eu não aguento mais essa p***a de situação, Breno! — gritou ela, histérica, e o som estridente da voz dela fez com que o Theo se estremecesse de puro terror na cama, soltando um grito agudo, desesperado, que rasgou a minha alma de cima a baixo como uma faca de combate. — Eu sou jovem, sou linda, nasci para brilhar do seu lado nas festas da alta roda, para gastar a tua grana preta nas lojas de Paris, e não para ficar trancada dentro de casa cuidando de uma criança problemática que nem consegue olhar na minha cara e me dizer um 'oi' decente! Senti o sangue ferver nas minhas veias instantaneamente, como se tivessem injetado chumbo derretido no meu sistema. Minha visão escureceu, sumiu o cenário ao redor e as veias do meu pescoço começaram a pulsar, saltadas, parecendo cordas de aço tensionadas até o limite da ruptura. — Cala a p***a da boca, Viviane! O moleque está sofrendo, c*****o, você não está vendo isso com esses teus olhos cheios de ambição? — rosnei baixo, entredentes, controlando a minha voz no limite do impossível para não agitar ainda mais o estado psicológico do meu filho, mas a raiva que se acumulava no meu peito estava transbordando, implorando para virar violência. — Não vou calar a boca p***a nenhuma, Breno! Eu nunca assinei a merda de um contrato para ser mãe de um troço desses! Olha para ele, olha bem para a cara do teu herdeiro! Veja esse estorvo! Esse moleque é defeituoso! É estragado de fábrica! Eu não vou carregar um fardo pesado desses na minha vida, me atrasando, me impedindo de curtir o bom da vida! Eu quero a p***a do divórcio agora, quero a minha metade de tudo que você tem guardado nesses cofres e quero que você suma com esse boneco quebrado da minha frente! Ele é um erro da natureza, Breno! Um erro que eu não vou aguentar nem mais um segundo! Cada uma daquelas palavras malditas que saíam da boca daquela infeliz batia no meu peito como estilhaços de uma granada defensiva, perfurando meus órgãos viscerais. Olhei de relance e vi o Theo começar a chorar de uma forma que eu nunca tinha visto: um choro desesperado, desamparado, com o corpinho todo tremendo, entrando em choque por causa dos gritos da mãe. Aquilo foi o meu limite absoluto. O homem que tentava manter a postura civilizada dentro de casa, que tentava separar o BH do morro do Breno pai, morreu ali mesmo, naquele exato milésimo de segundo. O monstro que a guerra criou assumiu o controle do meu corpo. Com uma calma glacial, bizarra, que eu nem sabia que habitava na minha mente criminosa, peguei o Theo nos braços com o máximo de cuidado e delicadeza que minhas mãos calejadas permitiam. Ele estava completamente rígido, tenso, com o coraçãozinho acelerado batendo como um tambor frenético contra o meu peito nu. Coloquei-o devagar de volta no berço, ajeitei o cobertor azul com calma e encostei a minha testa na dele, transmitindo a pouca paz que ainda me restava. — O pai está aqui, meu rei. Ninguém mais vai gritar com você nessa p***a de casa. Eu vou silenciar o mundo inteiro para você ficar tranquilo — sussurrei no ouvido dele, deixando minha voz ser o único som suave naquele quarto de mansão. Me virei lentamente na direção da Viviane. A fúria que queimava dentro de mim ardia com tanta intensidade que eu m*l conseguia sentir o chão sob os meus pés descalços. Era o puro instinto bruto, selvagem, de um animal predador que vê a sua cria sendo ameaçada dentro da própria toca. — Sai do quarto. Agora — minha voz não saiu alta, mas soou como um trovão grave, abafado, o tipo de aviso de morte que qualquer homem sensato na favela respeitaria se quisesse continuar vivo. — Não saio p***a nenhuma! Você vai me ouvir sim! Eu não vou enterrar a minha juventude cuidando de um garoto doente, um inválido! Fica com o teu lixo, Breno! Fica com esse... Ela esticou o dedo indicador, apontando diretamente para o berço do meu filho. Aquela foi, sem sombra de dúvidas, a última atitude racional e a última grande merda que ela fez na vida dela. Avancei como um guepardo para cima da presa. Minha mão direita voou e agarrou o braço dela com a força esmagadora de uma prensa hidráulica industrial, fazendo o estalo da articulação quase ser ouvido no quarto. Ela tentou soltar um grito de dor, mas a minha velocidade foi maior: agarrei-a pelo pescoço e pelo braço, arrastando o corpo dela para fora do quarto do Theo sem demonstrar um pingo de compaixão humana. Os pés dela vinham arrastando sem firmeza no tapete de seda importada, as unhas compridas de gel dela cravavam no meu antebraço, arranhando minha pele até tirar sangue, mas eu não sentia absolutamente nada. A dor física era zero. Minha mente só conseguia processar a imagem do pavor estampado no olhar do meu filho lá dentro. Joguei o corpo dela no corredor com tanta força que ela bateu com as costas direto na parede de gesso e desabou de joelhos no chão, esparramada. Voltei um passo, puxei a porta do quarto do Theo e fechei com um clique seco, preciso, isolando completamente o meu filho daquela podridão humana que se rastejava do lado de fora. O silêncio protetor voltou para o ambiente do menino, mas aqui fora... aqui fora o verdadeiro inferno estava de portas abertas, prestes a cobrar o seu preço. — Você chamou o meu filho de quê, sua vagabunda? — perguntei, caminhando devagar na direção dela, mantendo um tom de voz tão macabro que os quatro seguranças que estavam postados no final do corredor imediatamente baixaram a cabeça, congelados, fingindo ser estátuas de mármore para não cruzar o meu olhar. Eles sabiam do que eu era capaz quando cruzavam a minha linha vermelha. — De problemático! De estorvo! É isso que ele é, um estorvo na minha vida! — ela gritou de volta, cuspindo as palavras na minha cara, o cinismo e a soberba cravados na cara de p*u, o veneno escorrendo livre pelos lábios pintados de batom caro. O primeiro tapa veio antes mesmo que ela conseguisse fechar a boca para concluir a frase. Foi um golpe seco, violento, com a palma da mão totalmente aberta, carregado com todo o meu desprezo acumulado em meses de casamento de fachada. O impacto foi tão brutal que fez o rosto de boneca de porcelana dela rodar para o lado, o estalo da bofetada ecoando alto pelas paredes do corredor da mansão. Ela travou na hora, entrou em choque térmico, levou a mão trêmula à bochecha que já começava a inchar e os olhos dela se arregalaram num pavor real quando o primeiro filete de sangue começou a escorrer pelo canto da boca dela, pingando no chão. — Você nunca mais... — comecei a falar, mas a p***a do ódio dentro de mim era um cavalo selvagem indomável, uma força da natureza que eu não tinha mais o menor interesse em segurar na rédea. O segundo tapa veio logo em resposta, sem dar tempo para ela respirar, um golpe de revés que atingiu em cheio o outro lado do rosto dela com ainda mais força e peso. O impacto mandou o corpo dela direto para o chão, desabada de vez, o rímel importado borrando todo o seu rosto com as lágrimas que finalmente começaram a brotar. A máscara de rainha intocável do Morro do Dendê caiu por terra ali mesmo, desmanchando-se junto com o choro de medo genuíno que passou a sair da garganta dela. — Escuta bem aqui, sua v***a de quinta categoria — me inclinei sobre o corpo dela deitado no chão, cravando os meus dedos de aço no queixo dela, apertando com força suficiente para deixar a marca dos meus dedos, jogando o meu hálito de morte diretamente na cara dela. — Você vai pegar as tuas coisas e vai sumir para onde bem entender. Pode levar a p***a das joias, as roupas de marca, o dinheiro que eu mesmo joguei na tua conta bancária para você tentar fingir que tinha alguma classe. Mas se você abrir essa tua boca imunda de novo para falar um 'a' do Theo... se chegar aos meus ouvidos no morro ou no asfalto que você chamou o meu sangue de estorvo para quem quer que seja, eu vou te caçar. Não me importa se você estiver escondida na Zona Sul, em outra p***a de estado ou no quinto dos infernos, eu vou te achar e vou apagar a tua existência da face da terra com as minhas próprias mãos. Ela soluçava alto, o corpo inteiro tremendo como vara verde no inverno, o pavor absoluto ocupando de vez o espaço daquela arrogância nojenta que ela ostentava minutos atrás. — O meu filho não é a p***a de um erro, Viviane. Ele é a única coisa limpa e pura que ilumina essa p***a de casa de merda — continuei, ditando cada palavra com uma lentidão calculada, fazendo cada sílaba soar como uma sentença de morte definitiva. — Agora some da minha frente. Desaparece da vida dele para sempre. Se você não tem a capacidade de amar a pureza que aquele menino carrega no peito, você não é digna nem de respirar o mesmo ar que nós dois respiramos. Se eu escutar o nome do Theo saindo da tua boca de novo, eu te mando direto para a vala comum, sem piscar e sem pensar duas vezes. Você entendeu a p***a do recado ou quer que eu desenhe na tua cara? Ela assentiu freneticamente com a cabeça, chorando alto, tropeçando nas próprias pernas trêmulas enquanto tentava desesperadamente ficar de pé no corredor. Saiu correndo em pânico na direção do quarto de hóspedes e começou a arrancar os cabides, jogando as roupas de grife de qualquer jeito dentro das malas, o pavor de morrer guiando cada micro movimento do corpo dela. Eu não olhei para trás nem por um segundo. Não sentia um miligrama de remorso. Não sentia culpa. O que eu sentia era um alívio absurdo, uma sensação de limpeza que lavava a minha alma de toda aquela energia falsa. Abri a porta e entrei novamente no quarto do Theo. Fiz isso com passos extremamente lentos, calmos, como se estivesse pisando no chão sagrado de um santuário. O meu menino estava lá, deitado, com os olhos castanhos bem abertos, fixos em algum ponto invisível no teto, mas deu para perceber que o corpinho dele já não exibia aquela rigidez de antes; a tensão estava esvaindo. Sentei-me no chão de madeira, apoiando as minhas costas calejadas contra a grade de proteção do berço dele. O homem perigoso que comandava mais de mil fuzis no complexo de favelas estava ali, vulnerável, com as mãos ainda trêmulas pelo pico de ódio e sentindo uma dor interna que nenhuma droga ou riqueza desse mundo seria capaz de anestesiar. — Ela já foi embora, meu filho... sumiu para sempre — murmurei com a voz baixa, apoiando a minha testa contra a grade de madeira do berço, deixando que aquele aroma característico de bebê me envolvesse por completo, sendo a única âncora de sanidade que me impedia de virar um psicopata completo. — Mas o teu pai nunca vai te deixar, escutou? Eu nunca vou a lugar nenhum sem você. Sou teu pai, teu protetor. E se a p***a do mundo inteiro te achar esquisito, te considerar problemático ou te olhar torto, eu vou quebrar esse mundo inteiro no meio, peça por peça, até que eles aprendam a te respeitar de verdade. Eu vou ser o teu exército particular, moleque. Ninguém mais vai ousar tocar na tua paz ou levantar o tom de voz contra você dentro ou fora desse morro. Naquela noite fria, olhando para o teto junto com o meu filho, eu entendi perfeitamente que a minha guerra diária não era mais por controle de ponto de droga, por expansão de território na Baixada, por vaidade ou por acúmulo de poder financeiro. A minha verdadeira batalha a partir de agora tinha um nome e um sobrenome bem claros: Theo Henrique. A Viviane tinha morrido para mim, virado um fantasma do passado que não significava mais p***a nenhuma. O Theo era o meu único futuro viável, a minha redenção espiritual, a única chance real que eu tinha nessa vida de cão de não ser lembrado apenas como mais um bandido sanguinário que terminou morto numa vala ou trancado num presídio de segurança máxima. O silêncio do meu filho não era uma fraqueza ou uma falha de caráter. Era o que o tornava único, forte, uma fortaleza impenetrável. E eu era o único soldado blindado com permissão e autoridade para ficar na guarita protegendo esse espaço sagrado. Qualquer um que ousar tentar invadir essa área, qualquer infeliz que se atrever a olhar com desdém ou cara feia para o meu menino, vai descobrir da pior forma possível por que o meu vulgo é a única lei que o Complexo do Dendê respeita e teme de verdade. A partir de hoje, a p***a do morro inteiro ganhou um novo propósito de existência, uma nova diretriz. E todos aqueles que cruzarem o meu caminho com a menor intenção de perturbar a estabilidade e a paz do meu filho vão entender, sentindo o aço na pele, que o amor de um pai na minha posição é a arma de destruição em massa mais poderosa que essa humanidade já testemunhou. O silêncio do Theo agora tinha um guardião definitivo. E esse guardião era o próprio demônio do Dendê em pessoa. Se o asfalto ou os alemães queriam guerra de verdade, eles acabaram de encontrar o pior, o mais implacável e o mais impiedoso dos inimigos. Porque por ele, pelo meu filho, eu não vou apenas apertar o gatilho e matar quem merecer. Por ele, eu vou passar por cima de tudo e destruir absolutamente qualquer obstáculo que se atrever a ficar no meu caminho. O silêncio do Theo agora tem dono, p***a. E o dono dessa p***a sou eu. BEM-VINDAS! Olá, leitoras queridas e maravilhosas! Se vocês chegaram até o final desta leitura, já deu para sentir perfeitamente que a intensidade das emoções no Morro do Dendê vai ser algo completamente fora do comum, visceral e inesquecível. Este prólogo estendido é apenas o primeiro passo firme de uma narrativa densa, que promete chacoalhar os sentimentos mais profundos de cada uma de vocês. O processo de desenvolvimento e construção da psique do personagem Breno Henrique, o nosso temido BH, tem se mostrado um baita desafio literário para mim. Minha real intenção aqui não era apenas entregar para vocês mais um chefe de facção frio, clichê e implacável que resolve tudo na base do tiro. O meu objetivo principal é desnudar a vulnerabilidade oculta de um homem que dita as regras para um exército fortemente armado nas ruas do Rio de Janeiro, mas que se vê completamente desarmado, perdido e pequeno diante do silêncio enigmático do próprio filho pequeno. A dor que o BH carrega no peito é legítima, o amor que ele desenvolveu pelo Theo é algo que ultrapassa qualquer barreira do crime, e a promessa solene feita no interior daquele quarto azul vai ser o norte absoluto de cada atitude, plano e guerra que ele mover daqui para frente. A Viviane, por outro lado, cometeu o erro fatal de achar que poderia humilhar, menosprezar e rejeitar uma criança autista dentro da casa de um homem perigoso e sair ilesa, com os bolsos cheios de dinheiro para curtir a vida na Europa. Ela esqueceu a regra mais básica do universo de que toda ação violenta traz consequências igualmente destrutivas. O BH tratou de mostrar que, por trás da casca grossa e da fachada do crime organizado, existe o instinto primitivo e feroz de um pai que está disposto a explodir o que for necessário para blindar a integridade do seu filho. O Que Esperar Desta História? Meninas, já vou avisando: esta não vai ser aquela leitura leve ou uma narrativa comum de romance de banca de jornal. O nosso enredo é totalmente carregado de conflitos familiares profundos, jogos de poder, disputas territoriais violentas entre facções rivais e, acima de tudo, um processo lindo de superação e quebra de preconceitos: A Realidade Crua do Autismo: O universo do pequeno Theo vai ser retratado aqui com o máximo de respeito, embasamento, realismo e muita profundidade emocional. Nós vamos acompanhar de perto os desafios diários, as crises sensoriais e o empenho diário de um pai solo que, mesmo sem ter a menor noção teórica de como agir ou como lidar com as particularidades da neurodivergência, se recusa terminantemente a desistir ou a esconder o filho do mundo. O silêncio do garoto vai se revelar a sua maior fortaleza. A Chegada Arrebatadora de Pérola: E se vocês acham que o clima entre o BH e o mundo já está tenso o suficiente, fiquem sabendo que a nossa protagonista feminina ainda nem deu as caras por aqui. A Pérola é uma mulher real, de corpo gordo, imponente, extremamente confiante na própria pele, cheia de curvas e que simplesmente não baixa a cabeça ou se intimida diante de homem nenhum, muito menos de bandido de fuzil na mão. Ela vai chegar na vida deles para provar por A mais B que o verdadeiro respeito nem sempre é conquistado através do medo ou da força bruta. Sem precisar apertar um único gatilho ou disparar uma bala sequer, ela vai desafiar a autoridade do dono do morro e conquistar o seu espaço de direito usando apenas a paciência, a empatia e um carinho genuíno, puro, pelo Theo. O Conflito Inevitável e Perigoso: No cenário caótico e violento em que esses personagens vivem, qualquer brecha de felicidade ou calmaria pode virar um alvo fácil e atrair o perigo dos inimigos. Assim que as facções rivais e os traidores do Dendê descobrirem que o ponto fraco da armadura do BH envolve diretamente a segurança do Theo e a integridade da Pérola, a estabilidade de toda a comunidade vai entrar em xeque, dando início a uma verdadeira guerra de proporções épicas. Se você ficou fisgada por esse começo tenso e quer acompanhar de perto cada desdobramento dessa jornada de amor e redenção, não perde tempo: adicione o livro agora mesmo à sua biblioteca para receber todas as notificações de atualizações e capítulos novos em primeira mão. E não deixem de usar o espaço dos comentários para interagir, teorizar e deixar as impressões de vocês sobre as atitudes do BH neste começo. Eu leio cada feedback com o maior carinho do mundo, e a opinião de vocês é o combustível principal para o desenvolvimento da nossa história! 📅 DATA DE LANÇAMENTO Marquem na agenda, meninas! O primeiro capítulo oficial desta grande trama vai ser publicado no dia 27 de maio. Preparem os corações e o psicológico, porque a história está apenas começando e vai provar para todo mundo que o amor verdadeiro pode exigir o maior e mais perigoso sacrifício de todos. Nos vemos no morro no dia 27! Beijos da autora Val Veiga!

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