Vendida ao dono da MaréAtualizado em Dec 31, 2025, 16:51
📖 Vendida ao Dono da MaréPor VFrancoQuando Vitória chegou em casa, tudo que queria era um banho quente, um pão com ovo e um pouco de silêncio.O que encontrou foi o som da música alta, risadas masculinas e a porta da sala escancarada.Ela congelou no batente.Três homens armados, camisas sem manga, olhares pesados. Sentados no sofá de dois lugares onde ela costumava dormir. E no centro da sala, a mãe. Cambaleando, com o olhar perdido, cheirando a álcool, a roupa colada demais no corpo magro.— Mãe? — Vitória chamou, a voz já tremendo.A mulher nem virou o rosto. Só ergueu o copo e riu, como se a filha fosse só mais uma visita.Foi então que ela o viu.Encostado na parede, braços cruzados, expressão vazia, o boné preto cobrindo parte do rosto. O relógio grosso no pulso, a corrente brilhando no peito. E a arma…
A arma pendurada com naturalidade na cintura.Ricardo.O nome não precisava ser dito. A favela inteira conhecia. O dono do Complexo da Maré.
Quem devia, pagava. Quem não pagava, sumia.— O que tá acontecendo aqui? — Vitória perguntou, o coração disparado.Ricardo deu um passo à frente.— Tua mãe tem dívida comigo. Alta. Três meses sem pagar.— Eu… eu não sabia. — Ela sussurrou, olhando pra mãe. — Mãe, é sério isso?A mulher largou o copo no chão, os olhos vermelhos, vazios.— Eu não vou morrer, Vitória. Cê não entende? Ele ia me matar.— Você… — a voz dela falhou. — Você me usou?— Ele quer uma mulher. Você serve.As palavras bateram como tapa.
Vitória perdeu o chão.
As lágrimas vieram quentes, silenciosas, sem aviso.
Ela tentou segurar, tentou não quebrar na frente deles. Mas doía. Como nunca tinha doído antes.— Eu fiz tudo por você… tudo — ela chorou. — Deixei de viver, de amar, de sonhar… e é assim que você me paga?Ricardo ergueu a mão, mandando os homens dele saírem. Eles obedeceram sem questionar.— Pega tuas coisas. Tu vai comigo.— Eu não sou mercadoria! — Vitória gritou, com a voz rasgada de dor.Ele se aproximou devagar. E quando parou de frente pra ela, o tom foi gélido:— Se eu quisesse, matava tua mãe aqui mesmo. Mas tô sendo justo. Tô levando você e esquecendo a dívida.Ele olhou pra mãe dela, caída no chão, rindo sozinha, perdida no próprio mundo.— Da próxima vez, não tem acordo. Eu volto e limpo essa casa no tiro.Vitória tremia.
Com raiva. Com medo. Com nojo.
E, mesmo sem entender, com um arrepio que não era só pavor.Ela foi até o quarto. Pegou a mochila velha, o celular quebrado, uma blusa larga. E respirou fundo.Saiu pela porta com o rosto molhado, os ombros retos e o coração em pedaços.Ricardo nem olhou pra trás.
E Vitória não teve coragem de olhar também.