Os Nomes que o Passado Enterrou

999 Palavras
Lis não sabia dizer se era o frio do ar-condicionado ou o peso do passado que a fazia tremer enquanto encarava o painel de vidro do prédio Lucchesi. Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Lá dentro, seu coração era um campo minado de lembranças — e cada nome sussurrado entre as paredes daquele império trazia de volta um eco daquilo que ela perdeu. Entrar ali de novo não estava nos seus planos. Ela odiava cada centímetro daquele lugar, cada gesto ensaiado dos funcionários, cada expressão neutra moldada pela cultura do medo que Dante Lucchesi cultivava com precisão cirúrgica. Mas o destino, esse canalha imprevisível, parecia gostar de empurrá-la direto contra os muros que ela tentava contornar. — Senhora Lisboa Vasconcellos — chamou a recepcionista, formal, lendo o crachá como se não a conhecesse. Lis ergueu o queixo, determinada a não mostrar a mágoa presa entre as costelas. Não choraria. Não ali. Não mais. — Estou aqui para a reunião com a comissão de avaliação institucional — disse com firmeza, entregando a pasta com os documentos que preparara. Enquanto subia no elevador de vidro, o reflexo da cidade nos espelhos ao redor parecia zombar dela. Tantas pessoas andando livres, cuidando de suas vidas. E ela? Presa numa guerra por uma filha que não podia sequer tocar. Uma guerra contra um homem que ela m*l conhecia, mas que era agora o responsável por cada lágrima que havia derramado desde o parto. Na sala de reuniões, Dante já a aguardava. Camisa preta impecável, paletó sobre a cadeira, mangas dobradas até os antebraços. O relógio de ouro no pulso e os olhos mais frios que a lâmina de uma faca. — Pontual. — Ele sequer olhou para ela ao falar. — Ao menos nisso você aprendeu. Lis não respondeu. Apenas sentou-se, empurrando a pasta para o centro da mesa. — Os documentos que solicitou. Ele abriu, examinando com desdém o conteúdo. — Suas queixas contra os Lucchesi estão se acumulando, Lisboa. É quase… patético. — E ainda assim continua assinando respostas a cada uma delas. — Ela cruzou as pernas. — Parece que não sou tão insignificante assim. Dante estreitou os olhos. Um músculo em sua mandíbula se contraiu. — Está brincando com fogo. — Já estive queimada. O que me resta é sobreviver às cinzas. O silêncio caiu como um peso entre eles. Do lado de fora, uma garoa fina começava a escorrer pelos vidros. Dentro, a tensão era densa, sufocante. Foi então que Dante ergueu o olhar e falou, pela primeira vez em semanas, algo que não envolvia ameaças, cláusulas ou poder: — Ela deu os primeiros passos ontem. Lis perdeu o ar. Ele não sorriu. Não demonstrou orgulho. Apenas anunciou como quem lê uma sentença. — Cambaleou duas vezes antes de cair. Mas se levantou sozinha. Lis apertou os dedos sob a mesa, lutando contra a vontade de gritar, de chorar, de correr até aquela criança e envolvê-la nos braços. — E você estava lá? — murmurou. Dante assentiu. — Claro que sim. Sou o pai dela. A frase caiu como um soco. Não por ser mentira — mas pela forma como ele dizia aquilo, como se o título de pai fosse um prêmio por posse, não um papel conquistado com amor. — Ela tem nome — disse Lis, a voz embargada. — Não é uma propriedade. Dante inclinou-se sobre a mesa. — E esse nome está registrado como Lucchesi. O que quer discutir aqui, Lisboa? Biologia? Amor materno? Você perdeu esse jogo quando assinou aquele acordo. — Acordo que você me obrigou a assinar sob chantagem emocional e ameaça judicial. — Eu te dei uma escolha. — Não, Dante. Você me tirou tudo. A porta da sala se abriu, interrompendo a troca. Um dos diretores da comissão entrou, seguido por dois advogados. A reunião começou — fria, burocrática, exaustiva. Mas Lis estava ali por um motivo. E a cada palavra que dizia, cada estatística que apresentava, cada argumento que expunha, ela cravava estacas invisíveis na reputação de Dante. Ele percebeu. E odiou. Horas depois, no corredor, Lis caminhava com passos firmes. O documento assinado em mãos não lhe devolvia a filha, mas lhe garantia o direito de reavaliar a guarda em condições futuras. Era uma rachadura. Uma pequena brecha. Mas uma que ela pretendia expandir. Foi surpreendida por Marta, que a esperava com uma expressão aflita. — Preciso falar com você. Agora. Lis assentiu, sentindo o estômago revirar. Entraram numa sala reservada e Marta trancou a porta. — Ele não está bem. — Quem? — Dante. Lis riu, amarga. — Se isso for uma tentativa de me fazer sentir pena… — Não é. — Marta interrompeu, séria. — Ele está surtando. Tem acessos de raiva que não consegue controlar. Está insone. Anda bebendo. E… — E? — Fala com a bebê como se ela fosse você. Lis empalideceu. — Como assim? — Chama ela de Lis. Diz que ela “também o traiu”, que “já está contra ele”. A dor atravessou Lis como uma lâmina. — Ele está perdendo o controle — continuou Marta. — E isso pode ser a sua chance. — Minha chance de quê? — De provar que ele não é emocionalmente estável para criar uma criança. Lis hesitou. Ela odiava Dante. Mas não queria que a filha perdesse o pai. Queria que ele mudasse, não que fosse destruído. — Eu vou pensar — respondeu, saindo da sala. Naquela noite, sozinha no pequeno apartamento, Lis olhou para a parede branca do quarto, onde colara dezenas de post-its com metas, frases de força e desenhos que lembravam a filha. Ali, entre cores e palavras, havia um nome escrito em letras tremidas: Aurora. Ela fechou os olhos e sussurrou: — Mamãe ainda vai te buscar, meu amor. Do lado de fora, a cidade dormia. Mas dentro dela, Lis estava mais desperta do que nunca. Determinada. E cheia de nomes que o passado tentou enterrar… mas que ela jurava não deixar morrer.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR