A Chave e o Abismo

1259 Palavras
O silêncio da sala de audiência era sufocante, como se até o ar ali tivesse medo de respirar diante da tensão que exalava dos corpos de Lis e Dante Lucchesi. Não havia jurados naquele momento, apenas o juiz, os advogados e os olhos famintos da mídia, escondidos atrás de portas e câmeras. Lis mantinha-se ereta, as mãos firmes sobre a mesa, tentando controlar o tremor dos dedos. Do outro lado, Dante estava sentado com a perna cruzada e o rosto impassível, como se estivesse entediado em uma reunião qualquer do conselho. Mas os olhos dele... aqueles olhos pareciam navalhas. — A senhora insiste em alegar instabilidade emocional por parte do senhor Lucchesi? — questionou o juiz, encarando Lis com a severidade que ele reservava às causas polêmicas. Lis respirou fundo. — Insisto, meritíssimo. Tenho registros, testemunhos e vídeos que provam a forma como minha filha está sendo criada: sem afeto, cercada por funcionários e sem convivência maternal. — E ainda assim, aceitou o acordo de cessão da guarda — rebateu o advogado de Dante, seco. Dante não disse uma palavra, mas um sorriso irônico se formou no canto de sua boca. Lis sentiu a vontade de avançar nele e arrancar aquele sorriso à força. Mas não podia. Ainda não. — Eu fui coagida — declarou ela. — Estava sob influência medicamentosa, emocionalmente abalada e ameaçada. A juíza tomou nota, mas a tensão aumentou. Era a terceira tentativa de reabrir o caso da guarda, e mais uma vez, Lis enfrentava um muro construído por dinheiro, poder e frieza. Quando a audiência foi encerrada, os dois saíram praticamente ao mesmo tempo do tribunal. Do lado de fora, o vento frio da manhã soprava como uma sentença. Lis acelerou o passo, mas não conseguiu evitar o toque no braço. — Está começando a ficar cansativo — disse Dante, a voz baixa, mas carregada de ameaça. — Você sabe que está perdendo. A cada tentativa, você se afunda mais. Lis girou lentamente para encará-lo. Seus olhos estavam vermelhos, mas vivos. — E ainda assim continuo tentando. Sabe por quê? Porque você pode comprar a justiça, mas não pode apagar o que ela vai sentir no futuro, quando crescer e perceber que foi criada como um troféu... por um homem incapaz de amar. Por um segundo, o rosto de Dante se crispou. Um segundo. E então ele se recompôs com a mesma frieza de sempre. — Curioso você falar de amor... logo você. Com seu passado. Lis arregalou levemente os olhos. — Que diabos você está insinuando? Dante tirou do bolso interno do terno um envelope preto. Sem dizer uma palavra, entregou-o a ela. Lis hesitou antes de abrir. Quando finalmente deslizou os dedos sobre o papel, sentiu o mundo vacilar sob seus pés. Fotos. Recortes. Registros. Um nome: Elias Brandão. — Você investigou minha vida? — sussurrou, a voz embargada. — Não. Eu comprei a verdade que você tentou enterrar. Lis encarou as fotos. Ela, ainda adolescente, ao lado de um homem mais velho. Um escândalo que nunca veio à tona, um segredo que ela achava que havia deixado para trás. — Você não sabe o que aconteceu — ela disse, a voz baixa. — Eu sei o suficiente para te destruir — Dante rebateu, sem piscar. — Um escândalo do tipo certo nos tribunais, e você nunca mais verá sua filha. Ela fechou os olhos, sentindo as lágrimas ameaçarem. Mas havia algo dentro de Lis que ele não podia quebrar. Algo que nasceu no dia em que a separaram da filha. — Vai usar isso mesmo? Vai usar a minha dor como arma? — Não me faça perguntas que você não quer ouvir a resposta — respondeu ele. E então, ele se afastou, deixando-a com os escombros do passado nos braços. Lis passou a noite em claro. As fotos espalhadas na cama. O nome de Elias queimando sua mente como uma marca. Ele havia sido o único homem que, antes do pesadelo, quase a fez acreditar que merecia ser amada. Mas tudo terminou em abuso emocional, traição e fuga. Ela nunca denunciou. Nunca contou. Agora, estava nas mãos de Dante Lucchesi. A campainha tocou às duas da manhã. Lis hesitou, mas quando olhou pelo olho mágico, viu uma figura inesperada: Marta. — Eu não tenho tempo para jogar — disse Lis, abrindo a porta, exausta. — Não vim jogar — respondeu Marta, entrando com passos firmes. — Vim entregar algo que você deveria ter visto há muito tempo. Ela retirou do bolso um chaveiro. Uma única chave prateada, com uma pequena estrela gravada. — Isso estava no hospital, no dia do parto. Eu achei que fosse sua, mas não era. Guardei sem saber por quê... e ontem à noite, ela — a bebê — encontrou e ficou segurando como se fosse parte dela. Lis pegou a chave, sem entender. — Do que é isso? Marta hesitou. — Uma das enfermeiras que estava na sala de preparação... ela guardava um armário trancado. Disseram que foi lacrado por ordem do próprio Dante, no mesmo dia que você foi levada para a cirurgia. O coração de Lis deu um salto. — E onde fica esse armário? — No hospital. Ala antiga. Provavelmente ainda está lá. Lis apertou a chave nas mãos como se fosse uma arma. Duas noites depois, ela invadiu o hospital. Não havia outra palavra para aquilo: invasão. Um capuz cobrindo os cabelos, o rosto oculto e o passo determinado. Marta a esperava dentro, disfarçada de auxiliar noturna. Elas passaram pelos corredores quase sem serem vistas, até a antiga ala de maternidade. O armário estava lá. E trancado. Lis encaixou a chave. Click. A porta se abriu com um estalo seco, e um cheiro de poeira e tempo escapou. Dentro, havia apenas uma caixa de metal. Quando ela abriu, encontrou documentos. Papéis assinados por médicos. Registros de DNA. Vídeos. E então, viu o mais importante: um relatório médico datado de duas semanas antes do parto. Nele, constava que Lis havia solicitado a revogação do acordo de cessão da guarda. Assinado. Carimbado. Ignorado. — Eles nunca apresentaram isso em juízo... — sussurrou Marta, chocada. — Claro que não. Dante comprou o silêncio. Lis sentia a respiração pesada. Aquilo podia ser a arma que precisava. Ela saiu do hospital naquela madrugada com os olhos inflamados, mas pela primeira vez em muito tempo, havia algo em seu peito além de dor: esperança. Na manhã seguinte, ela foi até o escritório de Dante sem marcar hora. Invadiu o andar como um furacão. A secretária tentou detê-la, mas Lis já tinha empurrado a porta. Dante estava em pé, diante da janela, e virou-se com calma. — Decidiu se render? Lis jogou o relatório sobre a mesa. — Não. Decidi começar a guerra. Ele olhou os papéis, e pela primeira vez desde que se conheciam, perdeu o controle por um segundo. Apenas um segundo, mas ela viu. A surpresa. O susto. A dúvida. — Isso não tem validade. — Tem sim. E você sabe disso. Assinado por mim, antes do parto. Ignorado por seu hospital. E agora? O que vai fazer? Dante jogou os papéis na mesa, tenso. — Você não vai conseguir nada com isso. Lis se aproximou, até encostar na mesa. Os olhos dela eram fogo. — Não subestime uma mulher que foi separada da filha. Porque tudo o que me restou... foi lutar. Ela virou as costas e saiu, deixando a porta aberta. Dante ficou imóvel, olhando os papéis como se fossem dinamite prestes a explodir. E talvez fossem mesmo.
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