A Guerra Silenciosa

1147 Palavras
O sol ainda não havia nascido quando Lis abriu os olhos naquela manhã. Dormira por apenas duas horas, mas sentia o corpo aquecido por um fogo novo: a verdade. Ela agora tinha uma arma nas mãos, e ao contrário das vezes anteriores, desta vez não estava mais sozinha. Sua primeira visita foi à única pessoa que jamais traiu sua confiança desde que essa guerra começou: o advogado Gabriel Pires, o homem que já havia dito, mais de uma vez, que enfrentaria Dante Lucchesi por ela — mesmo que isso custasse sua própria carreira. — O que exatamente você conseguiu, Lis? — perguntou ele, assim que ela entrou em sua sala. Lis pousou a pasta sobre a mesa de vidro. Gabriel abriu, leu os papéis em silêncio e depois encarou a amiga como se visse pela primeira vez a chance real de vencer. — Isso é... explosivo. Você tem noção de que Dante pode ser processado por fraude judicial, coerção, omissão de prova legal e até sequestro civil? Lis engoliu seco, mas manteve o queixo erguido. — Tenho. E estou pronta para isso. — Se entrarmos com essa petição amanhã, ele vai receber uma intimação de audiência emergencial. Vai ser rápido. Rápido e c***l. — Ele vai tentar comprar tudo de novo — disse Lis. — Mas eu quero que você leve isso à promotoria pública também. Quero que tenha peso. Quero que vire manchete, se for necessário. Gabriel a encarou em silêncio, impressionado com a transformação diante dele. Aquela mulher ferida de antes havia desaparecido. Diante dele agora estava uma mãe disposta a tudo. — Você sabe que, se fizermos isso, não tem mais volta — disse ele, por fim. Lis assentiu. — Eu nunca quis voltar, Gabriel. Só quero minha filha de volta. No outro lado da cidade, Dante Lucchesi estava sentado à mesa de sua sala de reuniões, encarando a tela de um notebook como se estivesse diante de um inimigo invisível. Ele havia passado a madrugada inteira tentando neutralizar os danos do relatório descoberto por Lis. Havia feito ligações, pressionado diretores, ameaçado advogados. Mas agora era tarde demais: o nome dela já estava circulando nos corredores do tribunal com força. Pela primeira vez, alguém conseguiu feri-lo no jogo que ele dominava. — Ela quer guerra — disse ele, enquanto Lia entrava na sala com passos apressados. A irmã mais nova, que nos últimos tempos vinha tentando convencê-lo a ceder, o olhou com o cenho franzido. — E você quer o quê, Dante? Matar ela antes que te derrube? — Ela está me provocando. Está tentando me fazer perder o controle. — Porque ela ama aquela criança, e você sabe disso! Está com ela por orgulho, vingança, ou seja lá qual for a sua doença emocional — Lia rebateu, a voz firme. Dante levantou-se bruscamente, a cadeira girando para trás. — Ela assinou os papéis! — Sob ameaça! Drogada! Ferida! — Isso não muda o fato de que ela tentou sumir com a criança quando descobriu a gravidez! — gritou ele, a máscara finalmente quebrando. Lia respirou fundo. Aproximou-se do irmão e disse com frieza: — Sabe o que é mais irônico, Dante? É que no fim... você está com a filha, mas ela é quem tem o coração da menina. A frase cortou fundo. Dante empalideceu. Enquanto isso, Lis se encontrava com uma das jornalistas mais influentes da capital: Helena Torres, conhecida por escancarar podres do alto escalão, e que há tempos buscava algo grande sobre os Lucchesi. — Isso é sério, Lis. Se eu publicar isso, minha redação vai arder. A Lucchesi Corp. é patrocinadora do nosso jornal há anos. — Justamente por isso que eu te procurei — disse Lis. — Porque você é a única que não se curva. Helena analisava os documentos com olhar clínico. Quando chegou na parte dos exames, da revogação ignorada, e das ordens internas do hospital, seus olhos se arregalaram. — Isso pode virar uma bomba jurídica. E você tem certeza de que quer o nome da sua filha nessa matéria? Lis hesitou. — Quero o nome dele. Não o da minha filha. Use o que for legal. Mas exponha. Por favor. Helena assentiu. — Então prepare-se. Porque esse jogo vai deixar de ser particular. A notícia saiu três dias depois, estampando os portais com manchetes pesadas: CEO bilionário é acusado de ocultar revogação de guarda e coagir mãe após erro médico. Dante Lucchesi enfrenta denúncias de sequestro civil. Nova audiência marcada: mãe exige filha de volta. O caos foi imediato. As ações da Lucchesi Corp. despencaram, os investidores começaram a cobrar explicações, e os departamentos jurídicos entraram em alerta. Mas o maior impacto veio na forma de uma ligação inesperada. Era o pai de Dante, Giuliano Lucchesi, um homem que raramente aparecia, mas cujas palavras tinham o peso de um império inteiro. — Você me fez passar vergonha — disse ele, direto. — E se perder essa audiência, não vai perder só a filha. Vai perder o que herdou de mim. Dante fechou os olhos, com raiva. — Eu não vou perder. — Então trate de controlar o estrago. E não com mais ameaças. Ela venceu a narrativa. Você perdeu o moral, Dante. Está na hora de decidir: ou destrói essa mulher com provas, ou cede. Mas Dante já não sabia o que fazer. Pela primeira vez, não conseguia prever o próximo movimento de Lis. Ela havia deixado de ser uma peça em seu jogo. Agora era jogadora. E das boas. Na noite anterior à audiência, Lis foi visitar sua filha no colégio onde estudava. Ela não podia entrar, mas ficou do outro lado da grade, observando a menina brincar no jardim com outras crianças. A respiração se tornou difícil. Quanta coisa tinha perdido. Quantos abraços, sorrisos, choros... A garotinha se virou de repente, e viu Lis. Seus olhos brilharam. Ela correu até a grade e sorriu. — Moça bonita! Era assim que a chamava, sem saber o porquê daquela conexão tão forte. — Oi, minha florzinha — sussurrou Lis, com lágrimas nos olhos. — Amanhã eu vou te buscar, tá bem? A criança assentiu, como se compreendesse, mesmo sem saber exatamente o que era aquilo que sentia. Na manhã seguinte, o tribunal estava lotado. Pela primeira vez, a audiência seria pública. Helena, a jornalista, estava presente. Vários veículos de mídia também. Dante entrou acompanhado de três advogados, o rosto de pedra, mas o olhar inquieto. Lis, vestida com um conjunto sóbrio, caminhava ao lado de Gabriel. Em sua bolsa, os documentos originais. No coração, a filha. — Que comecem os trabalhos — anunciou o juiz. A tensão era quase palpável. E quando a voz de Gabriel ecoou pela sala, apresentando cada documento, cada omissão, cada crime cometido na surdina... o mundo de Dante Lucchesi começou a desmoronar em silêncio.
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