Aquela manhã parecia comum. O céu nublado cobria São Paulo com uma camada cinzenta que refletia exatamente o estado de espírito de Lis. Estava fria por fora, mas o coração palpitava com uma mistura de ansiedade e raiva que já não sabia mais disfarçar.
Lis passava os dedos pelo vidro da janela da cafeteria elegante no Itaim, onde esperava por alguém que ainda não sabia se confiava. Clara, uma jornalista investigativa, havia prometido ajuda em troca de um depoimento exclusivo. Lis não queria fama. Queria justiça. Queria sua filha de volta.
— Ele está rachando — disse Clara, sentando-se à frente de Lis com um sorriso tenso. — Sua última coletiva de imprensa foi um desastre. Gaguejou. Errou o nome da empresa. Saiu sem responder uma pergunta sequer.
Lis manteve o olhar firme.
— Ele não é invencível — murmurou. — E está começando a perceber isso.
Clara assentiu, tirando do bolso um pequeno gravador.
— Preciso da sua permissão para gravar. Sei que quer cautela.
Lis respirou fundo. — Só se meu nome não for publicado. Ainda não.
Clara ativou o gravador. — “Fontes próximas à família Lucchesi” serve?
Lis assentiu, tensa. Começou a contar a história. Desde o exame de gravidez até o parto. O contrato. O silêncio. As ameaças. As visitas negadas. E o mais recente: os encontros cada vez mais carregados de tensão, como se um vulcão estivesse prestes a explodir.
— Ele disse que se eu abrisse a boca, minha vida social e profissional seriam destruídas.
Clara ergueu uma sobrancelha. — E mesmo assim, está aqui.
— Porque não suporto mais me calar — respondeu Lis, sem vacilar.
Enquanto isso, no edifício Lucchesi, Dante andava em círculos em sua sala. As câmeras da segurança haviam captado Lis encontrando-se com alguém. Investigadores pessoais confirmaram a identidade: Clara Medeiros. E ele sabia exatamente o que isso significava.
Pegou o telefone.
— Coloque escutas no apartamento dela. Quero saber tudo que ela fala. Com quem fala. Quando. Se respirar mais alto do que devia, eu quero saber.
Do outro lado da linha, o segurança hesitou.
— Senhor… há limites legais…
— Eu sou o limite — Dante rosnou, encerrando a ligação.
Mas havia algo que ele não sabia.
O próprio escritório dele… não estava tão silencioso quanto imaginava.
Marta, a secretária pessoal de Dante há mais de dez anos, já não conseguia dormir à noite. A culpa se acumulava como concreto em seu peito. Ela sabia de tudo. O parto forçado. As ordens frias. Os documentos que Lis nunca teve chance de ler antes de assinar. E agora, ela ouvia, de novo, os passos do patrão ecoando no corredor. Como se as paredes também ouvissem. E talvez ouvissem mesmo.
A funcionária de limpeza, uma senhora calada e discreta, passava pano no piso do corredor quando ouviu, pela porta m*l encostada, a discussão entre Dante e um dos conselheiros.
— Você perdeu o controle dela, Dante. A mulher está falando com jornalista.
— Eu nunca perco o controle de nada. Ela só está blefando. Ninguém vai acreditar numa mulher emocionalmente instável que pariu e abandonou a própria filha.
— Mas foi você que… — o conselheiro calou-se, percebendo o erro.
— Cuidado com o que diz. Até as paredes têm ouvidos.
O silêncio cortou o ar. A senhora da limpeza abaixou a cabeça, como se não tivesse escutado nada. Mas havia escutado tudo. E discretamente, após terminar o turno, deixou um bilhete anônimo na caixa de correio do apartamento de Lis.
“Ele está blefando. Mas está com medo. Continue.”
Na manhã seguinte, Lis chegou ao escritório de Clara com um plano. Não mais como vítima — mas como uma mulher decidida a virar o jogo.
— Quero que ele se sinta encurralado — disse, sentando-se com a firmeza de quem não aceitava mais migalhas.
Clara mostrou os primeiros rascunhos da matéria.
— Está quase pronta. Mas seria bom termos algo mais concreto. Documentos. Gravações.
— Eu tenho as cópias do contrato. E Marta está começando a dar sinais de que vai falar. Ela está cansada.
Clara piscou devagar. — Se Marta falar… nós temos tudo.
Lis assentiu. O jogo estava virando. Mas não sem riscos.
Na mesma tarde, Dante apareceu de surpresa na cafeteria onde Lis costumava ir com Clara. Sem aviso. Sem segurança. Sem máscara de CEO. Ele estava com os olhos vermelhos e as palavras afiadas.
— Você está cavando sua própria cova, Lis.
Ela não se levantou. Não sorriu. Nem piscou.
— Engraçado. Porque pela primeira vez, estou sentindo que respiro melhor.
— Você quer guerra?
— Não. Quero minha filha.
Ele a encarou por longos segundos. Havia algo diferente nos olhos dela. Uma força que ele não conseguia mais controlar.
— Você acha que pode me derrotar com palavras? Com escândalos? Eu sou Dante Lucchesi. Eu crio impérios e destruo reputações com um telefonema.
— Mas não sabe lidar com uma verdade simples: você tem medo de amar. Medo de ser visto. Medo de admitir que errou.
A frase o atingiu como um soco.
— Cuidado, Lis. Até as paredes…
— Já estão ouvindo. E finalmente, estão do meu lado.
Ele saiu, furioso. Pela primeira vez, sem resposta.
Naquela noite, Marta ligou para Lis. A voz baixa, trêmula, mas decidida.
— Eu tenho os documentos originais. E os áudios. De quando ele disse que a criança era só uma peça do jogo. Eu guardei tudo.
Lis fechou os olhos. O peito apertado por dentro e uma lágrima silenciosa escapando pela lateral.
— Marta… isso pode mudar tudo.
— É por isso que eu vou entregar. E vou depor.
Pela primeira vez em meses, Lis sorriu com esperança. A batalha estava longe de terminar. Mas o império começava a rachar. E, como ela havia aprendido na marra, até os monstros mais frios… também sangram.
E as paredes, ah, elas não apenas ouviam. Elas começavam a falar.
A chuva caía fina, como se o céu chorasse por algo que nem ele compreendia direito. Dentro do casarão dos Lucchesi, o silêncio era um manto pesado, sufocante. Cada parede carregava uma tensão que podia ser sentida até no chão de mármore, como se as memórias tivessem criado raízes e gritassem em silêncio.