A Promessa Silenciosa

1175 Palavras
Lis sentia o corpo queimar. As contrações vinham em ondas tão intensas que quase a faziam perder os sentidos. Suas mãos apertavam os lençóis do hospital com força, e o suor encharcava sua testa. O quarto era frio, branco, impessoal. Nenhum rosto conhecido ao redor. Nenhum afeto. Nenhuma mão segurando a sua. A dor era física, mas o pior ainda estava por vir. Ela estava sozinha. Sozinha para dar à luz. Sozinha para entregar o próprio coração. As enfermeiras agiam como se ela fosse apenas mais uma. Nenhum sorriso, nenhum gesto de empatia. Era tudo mecânico, como se já soubessem quem ela era — ou, pior, para quem aquele bebê seria entregue. Lis gritou mais uma vez, e então sentiu. A dor atingiu o ápice, o corpo se abriu, e uma vida se derramou do seu ventre. O som do choro preencheu o quarto, alto, vibrante, quase c***l em sua vitalidade. — É uma menina. — disse uma das enfermeiras, com a voz neutra. Lis tentou levantar a cabeça, implorando com os olhos para segurá-la, vê-la, sentir o calor da filha por ao menos alguns segundos. Mas o olhar da enfermeira era duro. — Desculpe. Ordem judicial. A criança será levada imediatamente. — Não! Espera… por favor… — a voz dela era um soluço sufocado, um apelo cortante. — Só um segundo… eu sou a mãe… por favor! A enfermeira hesitou por um momento. Muito breve. Mas suficiente para Lis ver sua filha sendo envolta em um cobertor branco, o rostinho minúsculo, os olhos apertados, a boquinha aberta num choro que a dilacerava. Então ela foi levada. Rápido. Sumiu por aquela porta como se nunca tivesse existido. Lis ficou ali, estendida, esvaziada de tudo. O silêncio que se seguiu foi tão violento quanto a dor do parto. Era o silêncio da ausência, do rompimento, da injustiça. As lágrimas escorriam por seu rosto, quentes e contínuas. Ela não gritou mais. Não lutou. Não resistiu. Ela sabia que, ali, havia perdido mais do que uma filha. Havia perdido a chance de viver o amor mais puro — e que alguém, frio como o inverno mais c***l, acabara de roubar isso dela. Três dias depois, Lis foi liberada do hospital com uma recomendação seca: "Repouso absoluto. Evitar estresse. Procure apoio psicológico, se desejar." Se desejar. Eles falavam como se ela tivesse escolha. Como se houvesse cura para um buraco na alma. Como se um envelope gordo com dinheiro pudesse costurar o que havia sido brutalmente rasgado dentro dela. Foi levada até um apartamento pago por Dante Lucchesi. Um local distante do centro, com vista para um terreno baldio e móveis que não tinham história. Nada ali era dela. Nem as roupas novas deixadas no armário, nem a cesta de "boas-vindas" na mesa da cozinha. Tudo era parte de um plano meticuloso para apagar sua identidade e sepultar o passado. Lis passou dias em silêncio. Dormia pouco. Comia quase nada. Caminhava pelo apartamento como uma sombra, tentando encontrar vestígios da filha que havia carregado por nove meses. Sentia o leite vazar dos s***s, a dor no corpo pós-parto, os hormônios em colapso… e, acima de tudo, o vazio nos braços. À noite, acordava com o som do choro. Um choro que não estava ali. Um choro que vinha de dentro dela. Algumas vezes, se ajoelhava no chão da sala e chorava baixinho, mordendo a própria mão para abafar o som. Chorava por tudo: pela injustiça, pela ausência, pela impotência. Mas, em meio à dor, um pensamento crescia. Uma promessa. "Eu vou te encontrar. Um dia, eu vou buscar você. Mesmo que o mundo inteiro tente me impedir. Eu não vou te deixar sozinha." Essa promessa a mantinha de pé. Certa manhã, ao abrir a porta do apartamento, encontrou uma caixa. Dentro, havia um envelope. E dentro dele, uma única fotografia. A bebê estava envolta num cobertor de cashmere creme. Os olhos ainda fechados, os lábios pequenos formando um biquinho adormecido. Alguém havia colocado uma pulseira de ouro em seu pulso. Pequena demais. Caríssima demais. Fria demais. A única coisa escrita no verso da foto: “Ela está bem. Não procure.” Lis levou a foto aos lábios, como se pudesse beijar o que nunca segurou. As lágrimas caíram de novo, mas dessa vez com outra textura. Não era só tristeza. Era raiva. Era impulso. Era o instinto que despertava — lento, mas feroz. Naquela noite, ela abriu o contrato que havia assinado. Leu cada linha com cuidado. Subtítulos, cláusulas, entrelinhas. Procurava brechas. Algum ponto fraco. Alguma esperança. E encontrou algo. Algo que poderia ser nada… ou tudo. Cláusula 18 – Confidencialidade total em relação ao nascimento da criança, sob pena de anulação contratual, caso uma das partes torne público o ocorrido. Lis releu. Três vezes. O coração batendo mais rápido. Se o caso vazasse… o contrato seria invalidado? Ela não era advogada. Mas conhecia jornalistas. Sabia como manchetes funcionavam. Sabia o que uma bomba como essa causaria no império Lucchesi. Mas não. Ainda não era hora. Ela precisava de provas. De tempo. De estrutura. E, acima de tudo, de equilíbrio. Meses se passaram. Lis conseguiu um emprego discreto em uma editora pequena. Recomeçou aos poucos. Alugou outro apartamento. Mudou o corte de cabelo. Trocou o número do telefone. Fez o que pôde para se reconectar consigo mesma. Mas, todas as noites, antes de dormir, olhava a foto da filha. Já haviam se passado quase dois anos. Ela não sabia o nome que Dante havia lhe dado. Não sabia onde morava. Quem cuidava dela. Se era amada. Se era feliz. Tudo o que tinha era uma lembrança. E um corpo que nunca mais foi o mesmo. Um corpo que ainda a acordava com enjoos fantasmas. Seios que ainda reagiam ao som de um choro que só existia em sua mente. Um útero vazio. E um coração cheio de promessas. Foi em um dia comum, cinzento, quase entediante, que Lis a viu novamente. Estava no mercado, empurrando um carrinho entre as prateleiras, quando escutou um riso infantil. Um som puro, leve, cristalino. Virou-se, distraída… e congelou. A menina estava a poucos metros, segurando um bichinho de pelúcia e correndo ao lado de uma mulher mais velha — uma babá, talvez. Tinha os cabelos escuros, lisos, os olhos grandes e expressivos. E aquele biquinho adormecido… Lis soube, na hora. Era ela. Sua filha. Seu coração. O mundo ao redor desapareceu. O barulho, as pessoas, as luzes… tudo virou fundo borrado. Lis caminhou devagar, como em transe. Não queria assustar. Não queria ser notada. Só… ver. A menina correu para o corredor seguinte, rindo, e Lis acelerou o passo, dobrando a curva… Mas elas já haviam sumido. Desesperada, correu pelos corredores. Procurou nos caixas. Na saída. Nos estacionamentos. Mas não as encontrou. Foi embora com o coração em cacos. A dor reacendida. A esperança em chamas. Mas agora ela sabia. Ela estava por perto. E não importava quanto tempo levasse, quantos obstáculos enfrentasse, ou quão poderoso Dante fosse… Ela voltaria para buscar sua filha.  Nem que precisasse destruir o império Lucchesi para isso.
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