Lis não dormiu naquela noite.
A imagem da filha — tão viva, tão real, tão próxima — ocupava todos os espaços da sua mente. Aqueles olhos curiosos, os movimentos inseguros das perninhas correndo pelo mercado, a risada que parecia uma melodia vinda de dentro do seu próprio peito… tudo aquilo a destruía por dentro e, ao mesmo tempo, acendia uma força que ela acreditava ter perdido.
Ela estava viva. Estava ali. E precisava da mãe.
Lis ficou horas encarando o teto, com a fotografia antiga da bebê ao lado. Mas agora, havia um rosto novo gravado em sua memória. Um rosto que não deixaria jamais.
Na manhã seguinte, acordou decidida.
Ela não era mais a mulher quebrada que assinou aquele contrato. Não era mais a vítima paralisada.
Ela era uma mãe.
E mães, quando se levantam… são imparáveis.
Começou pelo básico.
Releu todo o contrato de confidencialidade mais uma vez. Cada cláusula, cada subtexto. Desta vez, com a ajuda de um advogado que trabalhava à margem do sistema — um conhecido da editora, discreto, sem medo do nome Lucchesi.
— Se você tiver provas do que aconteceu… — disse ele, após analisar os papéis. — E conseguir mostrar que o contrato foi assinado sob pressão psicológica, sedação e sem total consciência, existe sim uma chance real de anulação.
— Mas e a cláusula de sigilo?
— É exatamente ela que pode nos ajudar. O contrato exige confidencialidade absoluta. Se Dante violar isso… se vazar qualquer detalhe… a cláusula se quebra. E todo o acordo perde força jurídica.
Lis apertou os lábios, pensativa.
— E se eu conseguir provas de que ele me vigiava, me ameaçava e usou influência para me isolar?
— Aí temos mais que um argumento. Temos um caso.
Lis assentiu lentamente.
Seria um caminho longo. Doloroso. Perigoso. Mas era um caminho.
Ela passou as semanas seguintes reconstruindo tudo que sabia sobre Dante Lucchesi.
Investigou suas empresas, seus hábitos, os eventos sociais que frequentava. Descobriu que ele havia adquirido recentemente uma propriedade no interior — um lugar isolado, longe da imprensa, onde supostamente descansava “com privacidade absoluta”.
Lis suspeitava que a filha estivesse lá.
A cada pista, anotava tudo em um caderno escondido entre os livros da estante. Rascunhos, datas, nomes de empregados, placas de carros, contratos de compras. Era meticulosa. Detalhista. Silenciosa.
Porque sabia que ele podia estar vigiando.
E estava.
Um mês depois do reencontro inesperado no mercado, Lis recebeu uma carta. Diferente das anteriores. Sem envelope, apenas uma folha dobrada em três partes, entregue por debaixo da porta.
“Você está ultrapassando limites perigosos.
Não esqueça o que assinou.
Você não quer perder o que ainda tem.”
Não havia assinatura.
Mas o cheiro do medo estava ali.
Lis queimou o papel. As mãos tremiam, mas o olhar permanecia firme.
Sim, ele ainda tentava controlá-la. Intimidá-la. Mas dessa vez… ela não recuaria.
Aos poucos, Lis começou a se aproximar de uma jornalista investigativa que trabalhava num site independente. Marcela Ayres era conhecida por não se curvar a bilionários. Já havia peitado políticos, desmascarado empresários e se envolvido em grandes escândalos de corrupção.
— Quero te contar uma história. — disse Lis, numa cafeteria pequena no centro da cidade.
Marcela ouviu tudo em silêncio. Do começo ao fim. O erro na inseminação, o contrato, o parto, a separação, o controle de Dante, a foto anônima, o reencontro no mercado, a carta.
Quando Lis terminou, a jornalista respirou fundo.
— Isso é enorme. Mas sem provas, vira boato. E boato contra um Lucchesi… te enterra viva.
— Eu sei.
— Você tem ideia do que está fazendo?
— Tenho. Estou lutando pela minha filha.
Marcela assentiu.
— Então vamos com cuidado. Primeiro, vamos confirmar a existência da criança. Precisamos de imagem atual, comprovação de vínculo genético e, se possível, alguma ligação direta entre ela e Dante.
— Eu posso fazer isso. Só preciso de tempo.
— E coragem. Porque ele vai farejar que você está se mexendo.
Lis sorriu de lado. Um sorriso pequeno, mas cheio de verdade.
— Que tente. Eu não sou mais a mesma.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Dante Lucchesi apertava um copo de uísque com força demais. As mãos cerradas, os olhos escuros fixos na tela do notebook onde o relatório de segurança piscava como um aviso vermelho.
Lis Pires foi vista em contato com Marcela Ayres.
Tem frequentado áreas próximas à propriedade de Monte Verde.
Reuniu-se com advogado de defesa independente.
— Ela está cavando a própria cova. — murmurou.
Marco, seu segurança pessoal e braço direito há anos, o observava em silêncio.
— Posso resolver isso. Um aviso mais claro. Um susto maior.
— Não. Ainda não. Se eu forçar agora, ela expõe tudo.
— Então o que fazemos?
Dante virou o copo de uísque.
— Esperamos. Mas não tire os olhos dela nem por um segundo. E mande reforçar a segurança da propriedade. Ninguém, nem um inseto, entra sem minha autorização.
Marco assentiu e saiu.
Dante ficou ali, sozinho, olhando para a tela, mas vendo outro rosto.
O da filha.
A menina que ele dizia ser só “herdeira”, mas que, nos últimos tempos, começava a mexer com algo que ele acreditava já estar morto dentro de si.
Afeto.
Lis, por sua vez, via isso como vantagem.
Se Dante começava a criar algum tipo de vínculo com a criança, ele teria mais a perder. E homens como ele só temem uma coisa: exposição.
Por isso, em segredo, ela começou a documentar tudo.
Gravações dos encontros na clínica. Capturas de tela dos pagamentos silenciosos. Mensagens de ameaça. Depoimentos de ex-funcionários da clínica dispostos a colaborar de forma anônima.
Tudo era arquivado em um pen drive escondido dentro de um ursinho de pelúcia antigo — o mesmo que havia comprado meses antes, quando achava que criaria sua filha sozinha.
Agora, aquele brinquedo era seu cofre de guerra.
Certa noite, ao caminhar de volta do trabalho, Lis viu o mesmo carro preto que a seguira semanas antes. Dessa vez, ele não fugiu. Estacionou a poucos metros. O vidro se abriu. E um homem que ela reconheceu de longe — Marco — saiu do banco de trás.
— O senhor Lucchesi quer conversar.
— Já conversamos.
— Ele quer resolver.
— Ele quer controlar.
Marco a observou com atenção. Havia algo diferente nela. Uma firmeza que não existia antes.
— Você está jogando um jogo perigoso.
— Não é jogo. É maternidade.
— Ele pode acabar com você.
— Mas não pode me tirar de dentro dela.
Marco não respondeu. Apenas voltou ao carro e sumiu na noite.
Sozinha novamente, Lis parou na calçada. Fechou os olhos por um instante. O vento batia contra seu rosto, gelado e agressivo. Mas ela não se encolheu.
Sabia que o pior ainda estava por vir.
Mas também sabia que, desta vez, ela estava pronta.
O medo não a dominava mais.
A dor não a paralisava.
E Dante Lucchesi…
… não a venceria tão fácil.