O Primeiro Rachado no Império

1260 Palavras
O corredor do hospital era um labirinto branco, gélido, onde o som dos passos ecoava como marteladas. Lis apertava os dedos com força, as unhas fincando contra a palma da mão. As horas desde o parto haviam sido uma tortura silenciosa. Sua filha respirava. Chorava. Vivia. Mas longe dela. E aquela era a parte que mais doía. Ela soube que havia sido levada para o berçário privativo de Dante Lucchesi no instante em que acordou da sedação. Nem mesmo pôde tocá-la. O médico apenas anunciou, com a frieza cirúrgica dos bem pagos, que o pai legal já havia assumido todas as providências. Nenhuma enfermeira permitiu que ela se aproximasse da menina. E, mais uma vez, o poder dele a esmagava como um rolo compressor. Mas Lis não ia permitir que aquele momento fosse apagado como se nunca tivesse existido. Mesmo com o corpo dolorido e os pontos ainda queimando, levantou-se da cama. Caminhou sozinha, com uma camisola fina e uma dor lancinante nas costelas. O celular escondido na manga longa da blusa que vestia tremia contra seu braço. Ela sabia que só teria uma chance. Uma imagem. Um instante roubado. Quando se aproximou da sala de neonatologia, duas enfermeiras conversavam na recepção, distraídas. Uma delas riu alto. A outra virou o rosto para o monitor. Lis respirou fundo, como se inspirasse coragem, e empurrou a porta de vidro com cautela. Lá estava ela. Num bercinho moderno, envolta por panos claros e sob a luz azulada de um aquecedor neonatal, sua filha dormia. A boca entreaberta, os olhos fechados, a pele ainda corada de recém-nascida. Um suspiro escapou da garganta de Lis, como se algo antigo finalmente saísse de dentro dela. Ela se aproximou sem ruído. Cada passo era uma súplica. Cada segundo, um milagre em suspensão. — Oi, meu amor... — sussurrou, com lágrimas queimando nos olhos. — A mamãe está aqui. Por pouco tempo… mas está. Seu dedo roçou o ar acima do bercinho. Ela não se atreveu a tocá-la. Não queria acordá-la. Apenas registrar. Gravar na memória. No coração. Tirou o celular da manga e, com a mão trêmula, abriu a câmera. A luz vermelha piscou. Clic. Clic. Mais uma imagem. Clic. Ela nem ouviu a porta abrindo com violência. — O que você pensa que está fazendo? A voz era uma lâmina de gelo. Lis se virou bruscamente, os olhos arregalados. Dante estava ali. Terno escuro, gravata frouxa, a sombra de uma barba malfeita no rosto de mármore. Os olhos negros ardiam com uma fúria contida, assassina. Lis levou o celular ao peito, instintivamente. — Eu... eu só queria vê-la. Só isso. Ele caminhou em sua direção como uma tempestade silenciosa. — Você violou um espaço restrito. Estava proibida de se aproximar. — É minha filha! — ela cuspiu as palavras, com mais coragem do que imaginava ter. — Eu pari aquela criança! Eu a carreguei por nove meses, com dores, enjoo, medo! Não ouse me impedir de ver minha filha! Dante parou a poucos centímetros dela. O peito largo subia e descia lentamente. Por um instante, Lis pensou que ele fosse gritar. Mas o que veio foi ainda pior. — Você a perdeu no momento em que assinou aquele contrato. — Eu fui coagida! Você me ameaçou! — Você leu. Assinou. Não há vírgula contestável naquele documento. Ele estendeu a mão. — Me dê o celular. — Não. — Lis. — Não! Dante avançou. Arrancou o aparelho da mão dela com um movimento seco, brutal. Lis deu um passo atrás, ofegante. Ele desbloqueou a tela. Viu as imagens. Seus olhos endureceram ainda mais. — Você estava espionando. — Eu estava tentando preservar a única lembrança que me resta! Dante saiu da sala sem dizer mais nada. O som da porta batendo ecoou por segundos que pareceram eternos. Lis ficou ali, sozinha, com as mãos vazias, o coração em ruínas, e os olhos fixos no bercinho agora distante. Horas depois, Lis estava de volta ao quarto. Uma enfermeira entrou, com o rosto tenso. — Senhorita Lis... o senhor Lucchesi solicitou sua alta imediata. Disse que providenciará cuidados médicos em outro local. Particular. — Outro local? — Um sítio da família, com enfermeiros, segurança, e sigilo. Lis riu, amarga. — Ele quer me enterrar viva, é isso? — Apenas sigo ordens. Ela fechou os olhos. Sentia-se enjaulada. Mas o sangue em suas veias gritava. Ela podia estar fraca, dolorida, derrotada… mas havia uma verdade queimando dentro de si: A filha era dela. E ninguém iria apagar isso. O carro preto a levou sem explicações. Duas horas depois, estava num chalé isolado, rodeado por árvores e com vigilância 24 horas. O silêncio ali era tão absoluto que chegava a machucar. Nos dias que se seguiram, Lis m*l via rostos. Enfermeiras se revezavam sem dizer mais do que o necessário. Um psicólogo apareceu duas vezes, tentando manter a fachada de “cuidados”. Mas ela sabia. Aquilo era um cárcere. Na terceira noite, já deitada, ouviu um barulho na porta. Achou que fosse mais um remédio, mas era Dante. Ele entrou sem bater. — Estou aqui para esclarecer algumas coisas. Ela sentou-se lentamente, com a raiva contida em cada fibra do corpo. — O que mais você quer esclarecer, Dante? Já ficou claro que você pretende me apagar da vida da minha filha. Ele a ignorou. — O nome dela será Aurora. Já foi registrado. — Você a registrou sem mim? — Sou o único responsável legal. Eu posso, e devo, decidir. Ela apertou o lençol com tanta força que os dedos embranqueceram. — Você acha mesmo que pode apagar o que eu sinto por ela? — Você acha que eu me importo com o que você sente? A frase a atingiu como um soco. Ela sentiu o ar lhe faltar por um instante. Dante caminhou pelo quarto como se estivesse inspecionando território. — Eu garanti que você tivesse os melhores cuidados. Sua recuperação está sendo monitorada por profissionais. Em troca, espero que cumpra sua parte. — Ficar calada, trancada, longe da minha filha? — Exato. — Isso não é cuidado, Dante. É sequestro. Ele se virou lentamente. — Cuidado com as palavras. Eu ainda sou o homem que pode colocar você em qualquer lugar do mundo… ou apagar seu nome dele. Lis encarou-o, sem piscar. — Você pode ter dinheiro, poder e influência. Mas um dia… um dia, ela vai querer saber quem sou. E eu vou estar aqui. Eu vou gritar até ela me ouvir. Os olhos dele finalmente fraquejaram por um segundo. Algo ali trincou. Dante se virou, caminhou até a porta e parou. — Eu odeio fragilidade, Lis. E você ainda não entendeu que perdeu. — Então me subestime. Vai ser divertido ver sua cara quando perceber que perdeu o controle. Ele saiu, e a porta bateu com mais força do que deveria. Mas naquele estalo seco, Lis viu algo diferente. Dante estava com medo. Não dela. Mas do que não podia controlar. Nos dias seguintes, ela começou a se reerguer em silêncio. Fazia exercícios de respiração, alongava o corpo mesmo com dor, lia sempre que podia. E anotava tudo. Tinha um caderno escondido atrás da cabeceira. Escrevia ali cada detalhe: sobre a gravidez, o parto, o momento em que viu Aurora dormindo, o cheiro da sala, a forma como o cobertor estava dobrado. Ela não podia ter a filha nos braços. Mas podia preservar a história. E isso, para Lis, era resistência. Porque um império pode ter muros, grades, contratos. Mas uma mãe tem algo que nenhum CEO entende: Memória.  E memória... é poder.
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