O Silêncio Que Se Rebela

1248 Palavras
O silêncio daquela casa era um tipo c***l de tortura. Não o silêncio comum das manhãs sonolentas ou das noites em paz. Era um silêncio denso, impregnado de controle, vigilância e ameaça. Um silêncio que gritava. Um silêncio que feria. Lis sentava-se à janela do quarto onde estava confinada desde o parto. As paredes tinham a cor fria dos hospitais: bege desbotado e sem alma. A única concessão que Dante fizera à estética fora um vaso de flores que, Lis sabia, era trocado por enfermeiras treinadas para vigiá-la, e não para confortá-la. Ela não ouvira o choro de Aurora desde o hospital. Seu corpo ainda doía. A cicatriz da cesariana coçava de forma incômoda, um lembrete de que algo fora arrancado de dentro dela — não apenas a filha, mas algo maior, mais profundo. Sua identidade como mulher, como mãe, como ser humano. Ela já havia chorado tudo o que podia. Agora restava apenas um silêncio espesso. Mas, sob esse silêncio, uma rebelião germinava. Lis levantou-se com esforço, indo até a pequena escrivaninha no canto do quarto. Uma caneta. Um papel. Duas coisas aparentemente inofensivas, mas que, em mãos certas, podiam se tornar armas. Escreveu uma única frase: "Minha filha foi tirada de mim. Isso é ilegal." Dobrou o papel com cuidado, escondendo-o entre as páginas de um livro de capa dura — “A Educação dos Príncipes”, de Maquiavel, ironicamente deixado ali como decoração. Ela não sabia se alguém o encontraria. Mas precisava tentar. Plantar pequenas sementes de grito onde pudesse. Fez isso por três dias. Escrevia pequenas mensagens e as escondia em lugares diferentes do quarto. Uma atrás do espelho, outra dentro da fronha do travesseiro, uma colada sob a cadeira. Era sua forma de dizer: eu ainda estou aqui. Do outro lado da mansão, Dante Lucchesi segurava a filha como se segurasse um artefato alienígena. Aurora berrava. Seu rosto minúsculo, franzido, seus punhos fechados, pareciam expressar mais indignação do que dor. — Cala a boca — murmurou, tentando controlar a raiva que começava a subir. A babá veio correndo, olhos baixos. Dante a dispensou com um gesto impaciente. Tentou balançar o bebê da forma como vira em algum vídeo ou série. Fracassou. Aurora gritava ainda mais alto. O problema era: ela não o reconhecia. E, embora ele jamais admitisse, isso o atingia. — Você é Lucchesi. Não tem o direito de fraquejar — disse para si mesmo, fitando o pequeno ser vermelho e inquieto nos braços. Mas algo naquele choro... atravessava a couraça. Um som tão visceral que o obrigava a lembrar. O momento do nascimento. O grito de Lis quando a afastaram da bebê. Os olhos dela — vidrados, suplicantes, como se tivessem sido arrancados de si. Dante cerrava os punhos, afastando a memória como se fosse uma mosca incômoda. “Ela sabia de tudo. Quis engravidar de mim. Usou o erro da clínica pra se aproveitar.” — repetia como um mantra. Mas algo dentro dele, muito lá no fundo, começava a perguntar: e se não? Lis ouvia passos do lado de fora da porta. Um segurança trocava turno. Ela decorara os horários. Sabia quem era mais distraído, quem cochilava, quem tinha o costume de sair para fumar. Ela não estava apenas esperando. Estava observando. Estudando. No quarto, os dias se confundiam. A única variação vinha quando lhe entregavam roupas limpas ou quando mudavam os lençóis. Um médico vinha toda semana verificar sua recuperação pós-parto. Um homem de rosto seco e distante, que nunca olhava nos olhos dela. Tão robótico quanto o restante do sistema Lucchesi. Mas naquele dia, ao recolher a bandeja de comida, uma das empregadas mais jovens deixou cair um guardanapo. Ao se abaixar, Lis sussurrou: — Me ajude. Por favor. Eu sou a mãe da criança. A moça a encarou por dois segundos. Lis viu o medo em seus olhos — mas também viu algo mais. Um lampejo de humanidade. De dúvida. Depois, a porta se fechou de novo. Na ala norte da mansão, Dante caminhava sozinho por um corredor de vidro que dava vista para o jardim. Sua cabeça estava fervendo. Seus advogados haviam garantido que o acordo com Lis era à prova de qualquer processo. Tudo estava assinado. Legalizado. Amarrado. Mas... ela ainda estava lá. Ainda respirava. Ainda representava uma ameaça invisível, embora estivesse em silêncio absoluto. Esse era o problema. O silêncio dela. Dante sabia lidar com raiva, com escândalos, com chantagens. Mas o silêncio? Era como uma bomba relógio invisível. Não sabia quando explodiria. Ele voltou ao quarto onde Aurora dormia. Aproximou-se do berço e, pela primeira vez, tocou a mão minúscula da filha com leveza. Ela se mexeu, emitiu um som baixo... e, por um segundo, ele ficou paralisado. Havia algo no calor daquela pele, naquela fragilidade. Um eco da vida que ele pensou ter apagado para sempre. Mas não se deixou levar. Virou as costas e saiu, batendo a porta com mais força do que necessário. Na manhã seguinte, Lis foi surpreendida. — Senhor Lucchesi quer vê-la — disse uma mulher de terninho, expressão neutra. Lis levantou, ajeitando os cabelos com as mãos. Era a primeira vez desde o parto que saía daquele quarto. Caminhou por corredores frios, vigiada por dois seguranças. Quando entrou na sala onde Dante a esperava, o ar parecia mais denso. Ele estava de pé, junto à lareira, braços cruzados. — Você tentou passar mensagens para fora do quarto — disse ele, direto. Lis congelou. Uma parte de si esperava que descobrissem. Outra parte, torcia para ter conseguido mais tempo. Dante se aproximou devagar, como uma sombra prestes a engolir a luz. — Acha mesmo que pode me desafiar? Ela o encarou, olhos secos. — Eu sou mãe. Isso não vai mudar, Lucchesi. Por mais que você me tranque, por mais que tente me calar. Ele riu. Um som seco, sem humor. — Mãe? Você é apenas um receptáculo. Um erro clínico. A criança é minha responsabilidade agora. E você não passa de um risco que precisa ser controlado. Lis sentiu o estômago revirar. — Um dia... ela vai saber. Vai perguntar por mim. — E você acha que eu não sei apagar histórias? — ele rebateu, se aproximando ainda mais. — Posso enterrá-la onde ninguém a encontre. Literal ou juridicamente. — Então faça isso — sussurrou Lis, erguendo o queixo. — Mas saiba: cada dia que você me mantiver longe da minha filha, eu serei mais forte. Não importa o quanto me silencie... eu vou encontrar um jeito de voltar pra ela. Houve um segundo de silêncio entre eles. Intenso. Quase palpável. Dante recuou um passo. Pela primeira vez, Lis viu hesitação em seus olhos. Ela fora clara. Ela não estava quebrada. Ela estava se moldando para resistir. De volta ao quarto, Lis se jogou na cama. As pernas tremiam. A adrenalina ainda corria em suas veias. Mas, pela primeira vez desde o parto, ela sentia algo diferente da dor: sentia convicção. Dante podia ter o poder. Mas ela tinha o amor. E isso, ela sabia, era mais perigoso do que qualquer contrato. Na sala de segurança da mansão, Dante assistia à gravação da conversa deles. E quando a tela congelou no olhar de Lis, ele sentiu um arrepio estranho na espinha. Não era medo. Não era raiva. Era... incômodo. Como se, por um momento, a verdade tivesse atravessado a barreira que ele passara anos construindo. Uma verdade simples e brutal: Ela não ia parar. E, mais do que isso: Talvez ele não conseguisse apagá-la.
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