O tempo deixara de seguir uma lógica linear para Lis. Os dias se repetiam em ciclos impiedosos: acordar, respirar, pensar em Aurora, suportar o confinamento. Mas naquela manhã, algo estava diferente. Havia um ruído no ar. Um ranger nas estruturas do que Dante acreditava ser absoluto controle.
Lis percebeu isso no olhar da enfermeira que mediu sua pressão — o mesmo olhar de ontem, mas agora vacilante. Também viu no atraso do café, na mudança de turno dos seguranças e, sobretudo, no leve tremor da mão que lhe entregou o comprimido “calmante” diário. Havia rachaduras. E ela estava disposta a forçá-las.
— Posso caminhar um pouco? — perguntou, encarando o enfermeiro.
— Ordens do Sr. Lucchesi: apenas no quarto.
Ela não insistiu. Apenas deu um pequeno sorriso. A primeira lição de guerra era simples: o inimigo mais perigoso é o que sorri em silêncio.
Dante observava Aurora no berço. O choro havia diminuído, mas não cessado. A bebê chorava diferente agora — não com raiva, mas com uma melancolia que o incomodava mais do que gritos.
— Talvez ela sinta falta dela — murmurou.
Não sabia por que dissera aquilo em voz alta. Estava sozinho no quarto, como sempre. Exceto pela criança que, involuntariamente, parecia lembrá-lo de algo que ele passava a vida tentando esquecer: que vínculos não se constroem com posse, mas com presença.
Aurora se mexeu, resmungando.
Dante tentou, pela terceira vez naquela manhã, pegá-la nos braços. Com jeito. Com mais cuidado. Seu toque ainda era duro, mas havia hesitação em seus dedos. A menina chorou, mas não com a mesma fúria de antes.
— Eu sou seu pai — disse a ela, como se precisasse convencê-la. Ou convencer a si mesmo.
Mas, no fundo, ele sabia: Aurora não estava completa. Não havia calor materno, cheiro de leite, canto baixo na madrugada. Havia apenas braços desconhecidos, vozes estranhas e paredes que não abraçavam ninguém.
E essa ausência... começava a atormentá-lo.
Lis passou a tarde inteira reorganizando os livros da estante. Não por gosto. Mas porque descobriu que, entre as páginas de um romance policial antigo, havia um bilhete:
"Vi você falar com a Alice. Cuidado. Estão gravando tudo."
Não havia assinatura. Mas ela sabia. Alguém estava observando. E, mais importante: alguém se importava.
A tensão aumentava, mas com ela também crescia sua lucidez. Lis não seria apenas uma vítima. Já havia sofrido demais para continuar inerte. Sabia que precisava agir com inteligência. Disfarçar rebeldia com normalidade. E acima de tudo, proteger o que ainda lhe restava: a esperança.
Sentou-se à escrivaninha e começou a escrever outra carta, agora mais longa.
“Aurora, minha filha,
Não sei quando você vai ler isso. Talvez daqui a muitos anos. Talvez nunca.
Mas quero que saiba: você foi muito amada. Desde o momento em que soube que existia, mesmo que por engano, você mudou tudo dentro de mim.
Eles me tiraram de você. Mas meu amor não tem paredes, nem grades, nem contratos.
Eu te prometo: vou voltar.”
Escondeu a carta sob o forro da gaveta. Sabia que alguém faria uma vistoria em breve. Mas também sabia esconder segredos — aprendeu com quem a feriu.
Dante jantava sozinho. A comida estava impecável, como sempre. Mas ele m*l tocava no prato. Seus pensamentos estavam presos na conversa com Lis. Ou melhor, na forma como ela o desafiara sem medo, mesmo vulnerável.
Aquilo o incomodava.
— Ela devia estar quebrada — disse, encarando o reflexo na taça de vinho.
Mas não estava. Lis era como aço sob a seda. E por mais que ele tentasse convencê-la de que era apenas um acidente, um detalhe, ela reagia como uma mãe que conhecia a própria força.
E isso era perigoso.
Dante não temia o escândalo. Sabia como lidar com a mídia. Mas havia algo na voz dela, no olhar firme, que o fazia pensar em consequências que iam além dos tribunais.
Porque, mesmo sendo o dono do jogo, pela primeira vez... ele não tinha controle sobre todas as peças.
Lis foi acordada no meio da noite por um som: passos. Rápidos. Discretos. Levantou-se da cama, sem acender as luzes. A maçaneta girou. Por um segundo, pensou em gritar. Mas então a porta abriu e uma silhueta entrou rapidamente.
— Não fale nada — sussurrou a voz de uma mulher. — Só escuta.
Lis piscou para ajustar a visão. Era Alice — a mesma funcionária que recolhera o guardanapo semanas atrás.
— Eles aumentaram as câmeras. Mas o circuito não cobre o banheiro. Você tem quinze minutos por dia lá dentro. Use isso.
— Por quê está me ajudando? — perguntou Lis, em sussurro rouco.
— Porque o que estão fazendo com você é monstruoso. E... eu tive uma filha que perdi.
O silêncio entre elas durou dois segundos. Era um pacto selado com dor.
Alice lhe entregou uma pequena bolsa.
— Papel, caneta, um pen drive. Não pergunte como consegui. Amanhã, escreva sua história. Esconda isso bem. Eu volto quando puder.
E sumiu pela mesma porta, tão rápido quanto viera.
No dia seguinte, Lis foi ao banheiro com passos calculados. Trancou-se. Ajoelhou-se no chão de mármore frio e abriu a bolsa.
Escreveu. Escreveu como se cada palavra fosse um pedaço de si sendo recuperado. Contou tudo: o erro da clínica, o parto, a separação, o confinamento. Nomeou Dante Lucchesi. Expôs cada detalhe com precisão cirúrgica.
E quando terminou, chorou. Não de dor. Mas de alívio.
Escondeu o papel atrás do vaso sanitário, em uma fresta no rodapé. O pen drive foi colado com fita por dentro da tampa da lixeira. Sabia que nada daquilo era seguro. Mas era o primeiro movimento real desde que fora separada de Aurora.
O jogo tinha começado.
E ela estava jogando.
Dante teve uma reunião tensa com o conselho administrativo naquela tarde. Seu desempenho começava a cair. Estava distraído. Irritado. Fazia exigências impensadas e ignorava contratos importantes.
— Está tudo bem, Dante? — perguntou o sócio mais velho. — Você não costuma deixar a emoção interferir.
— Tudo sob controle — mentiu.
Mas não estava.
Voltou para casa antes do horário, uma atitude incomum. Subiu direto para o quarto de Aurora.
Ela dormia. Sonhava, talvez. Seu rostinho era sereno, mas... vazio.
Era isso que o perturbava. A ausência de vínculo. Aurora não chorava mais com a mesma força. Parecia ter desistido.
— Como pode uma criança desistir de ser ouvida? — sussurrou.
A frase ficou ecoando dentro dele.
Porque talvez não fosse só a criança que estivesse desistindo.
Talvez ele mesmo estivesse exausto de fingir ser um homem de ferro, quando por dentro era só um menino com medo de abandono.
Naquela noite, enquanto os corredores da mansão dormiam, Lis escreveu mais uma carta.
“Se este for meu último registro, saiba: fui arrancada, mas não destruída.
Eles me esconderam do mundo.
Mas dentro de mim, algo despertou.
E isso... ninguém poderá calar.”
Ela sorriu para o papel. Um sorriso amargo, mas forte. Porque agora ela sabia: Dante podia ter começado essa guerra.
Mas seria ela quem ditaria o fim.