O sol entrava pela fresta da janela alta, mas Lis m*l percebia a diferença entre dia e noite. A monotonia daquela prisão de luxo consumia suas forças como um ácido lento, corroendo a alma. Ainda assim, ela não se dobrava. Sobrevivência não era mais suficiente. Ela queria sua filha. Ela queria justiça.
A presença da babá nova, Sofia, trouxe uma fagulha inesperada. Jovem, de fala mansa, mas com olhos que observavam tudo. Lis notou desde o início: havia algo naquela garota. Um silêncio cúmplice, como se também soubesse o que era viver com medo. Talvez, apenas talvez, ali existisse um canal.
Lis esperou dias, observando. Esperou o momento certo. E então, numa manhã em que os corredores estavam mais vazios e os seguranças conversavam no térreo, ela arriscou.
— Sofia… — disse com voz baixa, mas firme.
A moça virou-se, quase assustada. Era a primeira vez que Lis falava diretamente com alguém desde o parto. Por um instante, o silêncio pairou espesso entre elas.
— Sim? — a voz da babá saiu em sussurro.
— Preciso que me ajude. Só uma vez. Ninguém vai saber. Eu juro.
Sofia hesitou. Não respondeu de imediato. Mas os olhos castanhos se demoraram no rosto de Lis. E então, discretamente, ela se aproximou, como se fosse ajustar os lençóis.
— O que você quer que eu faça?
A respiração de Lis falhou, tomada pela emoção contida.
— Tire uma foto da minha filha. Só uma. E mande para este número — ela deslizou um papel dobrado pela manga da camisola, entregando à jovem com um movimento rápido. — Se ele responder, delete tudo. Se não… delete também.
Sofia não disse nada. Guardou o papel no bolso do avental e saiu do quarto como se nada tivesse acontecido.
Lis sabia que podia ter sido um erro. Sabia que estava se expondo. Mas já havia perdido demais para continuar paralisada.
Enquanto isso, no andar superior, Dante Lucchesi encarava o choro da filha como quem encara uma bomba prestes a explodir.
Aurora gritava em seus braços, o rostinho vermelho, as pequenas mãos agitadas. A babá deveria estar ali, mas ele a dispensara por impulso. Uma tentativa tola de provar a si mesmo que conseguia lidar com aquilo. Uma forma de controlar tudo, inclusive o que não compreendia.
Mas Aurora não obedecia ordens. Chorava, como se sentisse o desconforto que ele mesmo negava sentir.
— Por que está chorando agora? — murmurou, irritado. — Está alimentada. Fralda trocada. Não tem motivo.
Mas ela chorava.
E dentro de Dante, algo se movia. Um desconforto novo. Uma lembrança empoeirada.
Um quarto escuro. Uma mulher fria. Uma voz cortante dizendo: “Engole o choro. Você não é uma criança.”
Talvez ele nunca tivesse entendido o que era um colo. E agora, diante de sua filha, o peso da herança emocional lhe esmagava os ombros.
Ele entregou Aurora de volta à babá assim que ela chegou. Saiu do quarto sem olhar para trás. E por mais que tentasse, não conseguiu apagar da mente o som do choro da filha… nem o fato de que ela só se calava quando estava nos braços de Lis.
Sofia voltou ao quarto de Lis naquela noite. Silenciosa, como um sussurro.
— Fiz o que pediu. A resposta chegou há horas. Está aqui.
Ela entregou o celular para Lis, com a tela já desbloqueada. Havia uma mensagem:
“Meu Deus, Lis. Estou com você. Diga o que fazer. – M.”
Lis fechou os olhos com força, sentindo as lágrimas escaparem sem controle. Marta. A amiga que fora como uma irmã durante toda a faculdade. Ela era seu último fio de esperança.
— Obrigada, Sofia. Você não sabe o quanto isso significa pra mim.
— Sei sim. Mais do que imagina — respondeu a jovem, antes de sair do quarto. Pela primeira vez, Lis percebeu uma rachadura no mundo perfeito que Dante tentava construir. Sofia não era apenas empática. Ela também era uma peça deslocada naquele
tabuleiro.
No dia seguinte, Lis acordou com passos apressados no corredor. Vozes alteradas. Algo estava errado. O coração disparou.
A porta foi aberta com violência. Dante entrou, acompanhado de um de seus seguranças.
— Onde está o celular? — rosnou.
Lis manteve-se sentada na cama, o rosto sereno, apesar do pânico que crescia em seu peito.
— Que celular?
— O que usou para contactar alguém de fora. Recebi uma denúncia. E antes que pense em negar, já mandei isolar toda a equipe.
A babá vai ser interrogada. E se tiver envolvimento…
— Vai fazer o quê? Vai destruí-la também?
Dante parou. O tom de Lis o atingiu como um tapa. Não era a mesma mulher assustada que ele conhecera semanas antes.
— Você se acha um deus — ela continuou, erguendo-se devagar — mas tudo o que construiu é de areia. Sua filha vai crescer sabendo que foi tirada da mãe à força. Vai te odiar, Dante. Mesmo que demore, mesmo que não entenda no começo. Um dia ela vai olhar nos seus olhos e ver o monstro que você é.
Ele avançou. Pegou-a pelo braço com força. Mas Lis não recuou.
— Me bate, se quiser. Me joga na solitária. Me cala. Mas você não pode apagar o que fez.
Dante largou-a com brutalidade. Saiu batendo a porta, deixando Lis sozinha com a respiração ofegante e os olhos cheios de dor — mas também de algo novo: dignidade.
No escritório, Dante derrubou tudo o que estava sobre a mesa. Papéis, objetos, copo. Tudo foi ao chão.
Ele não sabia o que o enfurecia mais: a ousadia de Lis ou o fato de que suas palavras ecoavam dentro dele com uma verdade que preferia não ouvir.
Ela estava resistindo.
Mesmo sozinha. Mesmo isolada.
E parte dele… admirava isso. Mas a outra parte, a que construíra um império com mãos de ferro, não podia ceder.
Ele chamou o advogado. Mandou revisar todo o contrato. Queria cláusulas mais rígidas. Queria punições. Queria controlar o incontrolável.
Mas era tarde. A semente havia sido plantada.
Na madrugada, Lis chorou em silêncio, mas não de fraqueza. Era luto, era saudade, era fúria contida. E era também a certeza de que havia conseguido: Marta respondera. Alguém sabia onde ela estava. Alguém sabia que Aurora existia.
Ela rabiscou algo no verso de um livro antigo e escondeu dentro da capa. Era um plano. Um pedido de socorro.
Na manhã seguinte, Sofia viu a página solta.
“Se algo acontecer comigo, por favor… entregue isso à pessoa que responder esse número. Marta.”
A babá guardou o papel no bolso e, antes de sair, olhou para Lis com um aceno quase imperceptível.
Dante a observava pelas câmeras. Havia mandado instalar mais duas no quarto.
Mas por mais que a vigiasse, algo dentro dele escapava ao controle. Ele começava a sonhar com ela. Acordava com a lembrança de Lis gritando na sala de parto. Com a imagem da filha deitada no colo dela. Com a pergunta que martelava seu peito:
E se ele estivesse errado?
Mas não admitiria. Não agora.
Lis dormia com a mão sobre o ventre vazio. Mas o coração — aquele ainda pulsava por Aurora. E em silêncio, ela murmurou:
— Eu vou voltar pra você, minha filha. Por bem… ou por tudo que me restar.