Fraturas no Trono

1050 Palavras
Dante Lucchesi sempre acreditou que o poder era absoluto — que bastava dinheiro, influência e controle para manter todos sob seus pés. Mas naquela manhã, diante da tela do celular, suas mãos tremiam levemente. O e-mail anônimo continha uma única imagem: ele segurando Aurora, recém-nascida, com os olhos fixos na câmera. Uma câmera que ele não sabia que existia naquele dia. A mensagem era curta. "Sabemos o que você fez. E não vamos permitir." Ele lançou o celular sobre a mesa de vidro. A tela rachou ao atingir a quina, mas ele nem se importou. Já havia ligado para seu segurança pessoal três vezes nas últimas horas. Mandou varrer o prédio, investigar vazamentos, rastrear a mensagem. Mas algo dentro dele sabia: a brecha não estava no mundo externo. A rachadura vinha de dentro. De Lis. Enquanto isso, Lis sentia o gosto da vitória em gotas pequenas, amargas, mas reais. A cada vez que Sofia aparecia com os olhos discretamente esperançosos, ela sabia que ainda havia vida em seu plano. Marta estava se movendo. Ela tinha certeza. Naquela manhã, quando Sofia entrou no quarto com o café da manhã, o silêncio entre elas dizia mais que qualquer palavra. — Ele está diferente — sussurrou a jovem, servindo o chá. — Anda tenso. Irritado. Deixou escapar que teve uma ameaça anônima. — Marta? — Lis perguntou baixinho. Sofia assentiu. — Talvez. Ele não está dizendo nada, mas mandou reforçar a segurança e trocou metade da equipe. A coisa está mudando. Lis respirou fundo. A primeira fissura no trono de Dante estava feita. Mas ela sabia que, como todo rei ameaçado, ele se tornaria ainda mais perigoso antes de cair. — Preciso ver minha filha — murmurou, com os olhos baixos. — Nem que seja por um segundo. — Eu vou dar um jeito. Enquanto a guerra silenciosa se intensificava dentro da mansão, do lado de fora, Marta movimentava as peças com precisão cirúrgica. Jornalista investigativa há mais de dez anos, ela sabia exatamente por onde começar. Estava hospedada em um hotel discreto, mas confortável, e já havia contratado um advogado criminalista. Juntara depoimentos de ex-funcionários da clínica, digitalizara cópias do contrato assinado por Lis — um documento recheado de cláusulas abusivas e ilegais. Tinha até um laudo psiquiátrico questionando o estado emocional de Dante durante o período do parto. Mas ela precisava de uma prova definitiva: uma imagem de Lis com a filha. Um registro que mostrasse a ligação entre as duas, algo que nenhum tribunal — nem o mais corrupto — pudesse ignorar. E então, naquela manhã, o celular vibrou. Uma mensagem chegou, com um número desconhecido. "Ela precisa ver a filha. Vai acontecer às 14h, na ala leste da casa. A câmera da babá vai gravar. Confie." Marta soube, de imediato, que vinha de dentro. Sofia. A coragem daquelas duas mulheres unidas por um laço invisível mexeu com suas emoções. — Vai dar certo, Lis. Nem que eu derrube o império Lucchesi tijolo por tijolo — murmurou. Na mansão, Lis olhava para o relógio como se cada segundo fosse uma centelha de esperança. Às 13h50, a babá entrou no quarto com uma expressão tensa, mas determinada. — Vamos. Elas caminharam por um corredor lateral, escondido atrás da biblioteca. Um caminho que poucos usavam. Sofia abrira a fechadura eletrônica usando a digital de um dos funcionários, copiada por um dispositivo improvisado. Ao chegar na ala leste, Lis ouviu o som. Frágil. Rítmico. O choro abafado de um bebê. Seu peito se apertou. As pernas fraquejaram. E quando a porta se abriu, ela viu. Aurora estava em um bercinho branco, balançando as pernas com suavidade, os olhos fechados. Sofia fez um gesto. Trinta segundos. Lis se aproximou sem respirar. Ajoelhou-se ao lado do berço. Tocou os dedinhos minúsculos da filha. Aurora abriu os olhos. Não chorou. Não sorriu. Mas a olhou. E naquele instante, tudo parou. — Meu amor… — sussurrou Lis, a voz embargada. — Sou eu. A mamãe. Aurora esticou uma das mãos e segurou o dedo de Lis. A câmera escondida no brinquedo de pelúcia capturou tudo. No andar de cima, Dante estava ao telefone com um juiz federal. Quando desligou, sentiu uma pontada de inquietação. Desceu para inspecionar a casa. E então viu. A câmera de segurança mostrava movimento na ala leste. Onde ninguém deveria estar. — O que diabos está acontecendo? — murmurou, pegando a arma na gaveta. Quando chegou ao local, já era tarde. Lis e Sofia haviam desaparecido. A cena havia terminado. Mas o estrago estava feito. Sofia foi demitida naquela noite. Sem direito a explicações, sem carta de referência. Mas saiu com o celular escondido no sutiã e o sorriso de quem sabia que havia feito a coisa certa. — Eu sou livre — murmurou ao sair pelos portões. Dante invadiu o quarto de Lis com a fúria de um furacão. — Você acha que pode me enganar? Que pode usar minha filha contra mim? Lis o encarou. Pela primeira vez, sem medo. — Ela é minha filha. Você é quem a está usando. Ele a segurou pelo braço, sacudindo-a. Mas Lis já não era mais a mulher que tremia diante de suas ameaças. — Me mate, se quiser. Vai ser a única forma de me calar. Ele recuou. As palavras dela o atingiram mais que qualquer golpe físico. Havia algo nos olhos de Lis que o lembrava de si mesmo, nos piores dias da infância. Horas depois, trancado em seu escritório, Dante viu as imagens da câmera escondida. Lis ajoelhada. Aurora tocando sua mão. A voz dela dizendo “mamãe”. E algo dentro dele se rompeu. Talvez o que mais o enfurecesse fosse a verdade. Aurora reconheceu Lis. Não era um delírio. Era amor. Vínculo. Instinto. E pela primeira vez, Dante Lucchesi se sentiu do lado errado da história. Marta recebeu o vídeo às 21h37. Chorou ao assistir. Repetiu a gravação sete vezes. E então enviou para o advogado com um simples recado: “Agora temos tudo.” No quarto, Lis olhava para o teto, sem sono. Ela sabia que a guerra não estava vencida. Sabia que a fúria de Dante ainda viria com força. Mas naquela noite, ela dormiu com o dedo que Aurora segurou ainda formigando. Porque aquele toque era mais que afeto. Era o começo de uma revolução.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR